Rússia sugere união com os EUA para avaliar manipulação e segurança digital

Por Felipe Demartini | 17 de Julho de 2018 às 14h15
Reuters

Em uma possível aliança que já vem sendo criticada duramente pela comunidade de segurança da informação, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, sugeriu a Donald Trump, dos EUA, que os dois países trabalhem juntos na investigação da suposta manipulação das eleições de 2016. Além disso, a ideia seria criar uma cooperação para avaliação de ameaças à segurança digital dos dois países.

No encontro que aconteceu nesta segunda-feira (16), em Helsinque, na Suécia, os líderes conversaram por duas horas, atrás de portas fechadas. Na ocasião, o presidente da Rússia negou qualquer tipo de manipulação ou interferência nas eleições de 2016, em declarações que foram aceitas pelo lado americano, que citou negativas “poderosas” sobre o assunto. “Se Putin diz que [a responsável] não foi a Rússia, não vejo razão para que seja”, afirmou Trump.

A declaração, por si só, já gerou críticas na imprensa especializada americana, que se tornaram ainda mais fortes quando veio a notícia de que os dois países poderiam se unir para, justamente, investigar as suspeitas de manipulação. Putin ofereceu acesso às autoridades americanas para questionar oficiais do governo, e em troca, solicitou cooperação na busca por suspeitos de crimes que estariam nos Estados Unidos.

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Seria o retorno de um acordo firmado entre os dois países em 1999. Entretanto, como lembrou Sean Sullivan, especialista em segurança da F-Secure, essa parceria foi revogada depois que o FBI descobriu que o Serviço Federal de Segurança russo (FSB, na sigla em inglês) não estava em busca de suspeitos, mas sim, recrutando pessoal de interesse para operações de espionagem industrial e política em território americano.

Essa noção é apoiada por Priscilla Moriuchi, da Recorded Future e ex-integrante da Agência Nacional de Segurança para a região do Pacífico e Leste da Ásia. Na visão dela, a parceria é desbalanceada e traria mais perigos aos Estados Unidos, na medida em que agentes russos teriam acesso ao funcionamento interno de dispositivos de segurança, infraestrutura e outros aparatos do governo americano.

Afinal de contas, estamos falando de duas instâncias cujo envolvimento russo já foi apontado pelas autoridades americanas. O FBI encontrou indícios de influência russa na criação de bots, páginas e perfis falsos utilizados para disseminar fake news, além do uso de publicidade direcionada para manipular a opinião pública. Além disso, hackers do país estariam envolvidos na invasão e vazamento de e-mails e documentos do Partido Democrata, que também influenciaram diretamente na campanha da rival de Trump, Hillary Clinton.

Além disso, a noção de que o país acusado de manipulação auxiliaria em uma investigação desse tipo foi citada como “perigosa e contraproducente” pelos mesmos motivos. O risco de ataque seria ainda maior do que o presente na atual guerra digital, apontou Moriuchi, em entrevista ao The Register, citando também que não existe intenção em ser transparente. O objetivo do governo Putin, afirma, é tirar vantagem na briga por poder entre as duas potências.

“É como deixar a raposa entrar no galinheiro”, concordou Sullivan. Ele até vê como positiva a iniciativa de cooperação entre Rússia e Estados Unidos no campo da segurança digital, mas não no clima político atual e em uma investigação que pode ter alterado significativamente as dinâmicas de um país, pelas mãos do outro. O especialista, entretanto, pondera que as chances de a sugestão de Putin se tornarem realidade são pequenas.

O encontro entre os dois países foi citado por Putin como construtivo e um passo adiante no restabelecimento das relações e da confiança entre os dois países. Ele afirmou que a época do antagonismo ideológico entre os dois países ficou para trás e que, agora, é o momento de estreitar os laços.

Já Trump afirmou que a política externa americana era “tola” quando o assunto era a Rússia e que o encontro realizado na Suécia foi um bom começo para as mudanças que estão por vir. Na ocasião, o presidente americano também recebeu uma das bolas usadas na Copa do Mundo e disse que o torneio marcado para acontecer em 2026 nos EUA, México e Canadá será tão bem-sucedido quanto a edição russa, encerrada neste domingo (15).

Fonte: The Register

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