Projeto de lei se baseia em vídeo fake para proibir o 5G em Santa Catarina

Por Rafael Arbulu | 22 de Julho de 2019 às 12h28
CNBC

Um Projeto de Lei entregue por dois deputados estaduais do Partido Liberal busca proibir por completo a implementação do 5G no estado de Santa Catarina, desde seus testes até a sua ativação comercial. O problema: o projeto inteiro é baseado em um vídeo que alega que a ativação da conexão mataria a fauna local — em especial, os pássaros. Detalhe: o vídeo já foi desmentido por canais de checagem de fatos.

Segundo o projeto dos deputados Marcius Machado e Nilson Berlanda, “ficam proibidos os testes e a instalação da tecnologia 5G (Quinta Geração de Internet Móvel ou Quinta Geração de Sistema sem fio) no âmbito do Estado de Santa Catarina”. Pelo regimento previsto no documento, empresas infratoras estariam sujeitas a multa de R$ 100 mil, podendo chegar a R$ 200 mil em caso de reincidência.

“Os meios de comunicação vêm divulgando apenas as vantagens que as redes sem fio 5G podem trazer em matéria de comunicação e transmissão de dados, como a rapidez com que usuários poderão baixar filmes ou músicas, bem como fazer videoconferências simultâneas sem problemas de conexão”, diz a redação do projeto. “No entanto, de acordo com o renomado médico cardiologista e nutrólogo Dr. Lair Ribeiro aonde ‘o 5G chegar, acabou a saúde’ (sic), no qual afirma que em testes realizados na Holanda ‘morreram cerca de 500 pássaros em dois minutos’ e ‘quem tem implante de titânio, o implante aumenta em quatro graus no implante (sic)”.

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Projeto de Lei inteiramente baseado em fake news quer proibir a instalação do 5G em Santa Catarina

O projeto segue alegando que os problemas do 5G seriam decorrentes de uma radiação “muito forte”, exemplificados, segundo o documento, pelas faixas de frequência usadas nas conexões móveis: “A radiação do 5G é muito forte, sendo que a tecnologia 2G, 3G e 4G oscilam de 790 MHz a 2,6 GHz e a tecnologia 5G chega a 3,5 GHz”. Mais além: os deputados atribuem ao 5G a possibilidade de matar abelhas, posicionando uma frase de Albert Einstein: “Se as abelhas desaparecerem da face da Terra, a humanidade terá apenas quatro anos de vida”. O problema: Einstein nunca disse isso.

O vídeo citado pelos deputados, do Dr. Lair Ribeiro, refere-se ao canal “U Mió Que Tá Teno”, com mais de 430 mil inscritos no YouTube. O vídeo tem ampla divulgação do médico, mas não é possível determinar se ele é o dono do canal. O conteúdo veiculado no vídeo (logo abaixo) remete a um post do blog conspiracionista “Health Nut News”, que citou como fonte um homem chamado “John Khules”, dono de diversas páginas de conspiração anti-5G no Facebook.

O vídeo é a única fonte citada no projeto.

O site Snopes, ferramenta mundialmente conhecida de checagem de fatos e por desmentir boatarias online, rapidamente comprovou que as informações são falsas: de fato, na Holanda, houve a morte massiva de aproximadamente 500 estorninhos, um tipo de passarinho comum em diversos continentes do mundo. Entretanto, o episódio estranho teria ocorrido em outubro de 2018. O único teste da velocidade na região, conduzido pela Huawei, foi feito em junho daquele ano, meses antes. Khules, o blog e o Dr. Lair Ribeiro atribuíram as mortes aviárias ao teste do 5G, dizendo que a implementação da nova conexão seria “um complô da elite mandante”.

O projeto de lei segue em tramitação para ser avaliado, em processo inicial. Os deputados que o autoram não teceram nenhum comentário sobre as informações divulgadas.

Fonte: PL 0241.5/2019; Snopes

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