Análise | Skelattack te leva à loucura em todos os sentidos

Por Felipe Ribeiro | 22 de Julho de 2020 às 15h35
Konami

Em nossas análises aqui no Canaltech já batemos diversas vezes na tecla de que os games indies estão cada vez mais bem elaborados e bonitos de se ver. Isso se deve não apenas ao maior estímulo para que desenvolvedoras independentes possam realizar seu trabalho, mas porque grandes publishers têm dado aquela mãozinha na hora de divulgar os jogos. Esse é o caso de Skelattack, jogo feito pela japonesa Ukuza e publicado pela conterrânea KONAMI.

Em Skelattack temos todos os ingredientes dos clássicos games em estilo plataforma dos anos dourados dos 16 bits, seja para o bem, seja para o mal. O jogo da Ukuza é um dos mais difíceis que tivemos a chance de jogar nos últimos tempos, mesmo com sua progressão linear e sem rodeios.

Com fases absurdamente complexas, inimigos chatos de serem enfrentados e uma mecânica de jogo quebrada, Skelattack vai te levar à loucura, a ponto de dar vontade de jogar o controle pela janela. Ao mesmo tempo, dado o nível alto de desafio, pode atrair aqueles jogadores mais masoquistas.

Nós contra eles

A premissa do enredo de Skelattack é muito boa. Aqui temos o esqueletinho Skully e sua morceguinha, Imber, que vivem na pacata Aftervale, um vilarejo bem bonito e cheio de “Vida”, com outras caveiras, magos, vendedores e moradores. Tudo parecia bem até que os humanos levaram o ancião da vila como refém.

Em sua vida de carne e osso, Skully foi um bravo guerreiro e participou de vários combates. Por isso, ele foi requisitado para a missão de resgatar o ancião de Aftervale, sempre em companhia de sua amiga morcego. Durante a jornada, porém, o personagem encontrará antigos inimigos e terá de negociar algumas coisas para poder avançar, além de enfrentar novamente esses adversários.

É possível controlar Imber em alguns momentos do jogo (Imagem: Felipe Ribeiro/Canaltech)

Durante toda a ação, porém, ficou claro que a ideia dos roteiristas de Skelattack foi de criar um clima de nós contra eles, passando a ideia de que os seres humanos são perigosos e destrutivos – não que isso seja mentira. Skully, porém, parece mais preocupado em realizar sua missão do que divagar sobre os problemas e as rivalidades com as pessoas.

De todo modo, os chefões e inimigos mais complicados são todos de carne e osso, o que reforça a ideia da narrativa em torno de Skelattack.

Você não é bom o suficiente

Antes de se atrever a jogar Skelattack, tenha em mente uma coisa: você vai morrer inúmeras vezes. Manter-se vivo nesse jogo é tão difícil que uma das conquistas é justamente terminá-lo morrendo menos de 50 vezes. Pelas nossas contas, durante a análise, foram facilmente mais de 300. Esse nível todo de dificuldade pode ser explicado de diversas maneiras.

Há momentos em que você se pergunta: como irei passar disso aqui? (Imagem: Felipe Ribeiro/Canaltech)

A primordial, claro, é que o jogo foi feito para ser assim. O pessoal da Ukuza trouxe o que há de mais puro no gênero plataforma, ou seja: progressão e obstáculos, com elementos vistos em muitos metroidvânias, como a possibilidade de atacar seus oponentes com armas e magias. No caso de Skelattack, em específico, ficamos restritos às armas brancas, como espadas e bumerangues.

A questão, porém, é que tudo (ou quase tudo) é capaz de lhe infligir dano ou te matar instantaneamente, e isso acaba irritando um pouco durante a progressão no game. Então, para aquelas pessoas que adoram passar de fase levando tudo e vencida, pode esquecer. Aqui você terá de ao menos tentar ter calma e fazer uso das mecânicas e nuances que o jogo te oferece para avançar.

A movimentação de Skully é rápida, mas seus comandos não são dos mais precisos. Por isso é sempre bom analisar o terreno antes de progredir. O sistema de pulo do personagem é alternado e escalável, ou seja, você pode mudar de uma parede para outra saltando ou deslizando, dependendo do sentido em que estiver indo. Há momentos em que utilizaremos Imber para avançar e, com ela, a coisa é um pouco mais fácil, pois ela voa e isso ajuda a vencer certos obstáculos.

O problema, aqui, é que os controles não são precisos o suficiente, fazendo com que muitas mortes ocorram por pura falha do sistema de salto e mudança de parede. Isso, com o tempo, acaba se tornando irritante e vai te deixar muito tempo em algumas fases, sobretudo em mundos onde há lava.

Algo que pode atenuar essa sensação de impotência ao morrer inúmeras vezes é que as fases são repletas de check points, que podem ser ativados de maneira bem simples e fácil, apenas passando por eles. Além disso, você pode ir de um lugar a outro do mundo de Skelattack por meio de atalhos em carrinhos de mina.

Dá para melhorar

Uma das coisas positivas em Skelattack, no entanto, é que dá para evoluir Skully à medida que avançamos nas fases. Para evolui-lo, porém, existem algumas maneiras. A principal é com pedras preciosas que são colhidas nos mapas e que podem ser negociadas com magos e lojistas no decorrer do jogo. Mas sempre que você morrer, um punhado delas ficará bem no local onde você acabou falhando. Se você morrer novamente, perderá as pedras, o que torna tudo ainda mais punitivo, porém desafiador. Com isso em mente, saiba que evoluir o personagem não será tarefa das mais agradáveis.

Outro modo, que pode até ser considerado mais fácil, é derrotando os chefes. Cada vez que você enfrenta um deles, é necessário fazer uso de uma habilidade aprendida na fase correspondente a ele. Não que isso seja uma regra, mas ajuda um bocado. De todo modo, fique bem atento aos comportamentos dos chefes, pois esse pode ser o segredo para derrotá-los.

É possível, também, desenvolver habilidades realizando favores para moradores de Aftervale e para personagens no decorrer das fases.

Aparência nostálgica

O ponto alto de Skelattack é sua parte gráfica e trilha sonora. O trabalho realizado pelo pessoal da Ukiza ficou simplesmente brilhante, sobretudo pela escolha dos efeitos, que deram um toque retrô todo especial ao jogo e o tornaram, pelo menos nesse aspecto, mais agradável.

Visual de Skelattack impressiona (Imagem: Felipe Ribeiro/Canaltech)

Os gráficos do game são todos desenhados e o estúdio escolheu adicionar um filtro de modo com que ele desse a impressão de estarmos jogando algo, de fato, antigo, como em uma televisão de tubo. Os efeitos sonoros e as músicas das fases também beiram a perfeição, com exceção às vezes em que precisamos jogar com a morcego Imber. O problema detectado aqui é que, quando morremos com ela, o som é o mesmo dos ossos de Skully quando são desmontados. Sendo de carne e osso, não faz sentido o animalzinho ter esse som quando somos atingidos ou batemos em uma das pedras espinhosas.

Ainda na parte técnica, nós utilizamos um Xbox One X para a análise e o game, apesar de leve, roda em 4K, mas com taxa de quadros girando na casa dos 30 FPS, uma decepção levando em conta o poderio do console, mas compreensível por ser um game de baixo orçamento.

Ele vai te deixar louco

Skelattack é o tipo de jogo que pode te levar do céu ao inferno em questão de segundos. Apesar de carismático e desafiador, seu sistema de progressão e suas falhas técnicas podem irritar profundamente, fazendo com que você morra diversas vezes.

Entretanto, se você souber como levar o jogo e tiver paciência, é sim possível se divertir com Skelattack, um game com a cara e o jeito dos clássicos dos 16 bits.

Skelattack está disponível para Xbox One, PlayStation 4, Nintendo Switch, PC, Mac e Linux. No Canaltech, o jogo foi analisado no Xbox One X com cópia gentilmente cedida pela Konami.

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