Análise | Paper Mario: Origami King é impressionante , mas tem batalha ruim

Por Wagner Wakka | 30 de Julho de 2020 às 09h54
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Ficha técnica

Kensuke Tanabe pode não ser o nome mais conhecido da Nintendo, mas é nele que a companhia aposta para pisar fora da caixa muito tradicional que é a franquia Mario. Este flete com algo além do game de plataforma do bigodudo enfrentando o vilão Bowser nasceu lá em 1996, com Super Mario RPG.

Foi aí que a Nintendo permitiu a Tanabe brincar com a ideia de um mundo não tão maniqueísta como o da série original. O jogo, com mecânicas em RPG, dava a Mario armas como martelos e botas, permitindo conversar com Goombas e outros inimigos clássicos para desvendar mistérios.

A série não ganhou força como RPG, mas pavimentou o caminho para Paper Mario, que continuou o legado de um mundo rico, em que Goombas são cidadãos comuns no reino dos cogumelos.

A brincadeira aqui é clara: todos os personagens são papeis bidimensionais e, exatamente por isso, brincam com tridimensionalidade do ambiente. Em Origami King, eles ganham ainda mais profundidade nisso ao explorar toda gama de trocadilhos possível com as palavras papel, dobra e origami.

A quem não conhece, a palavra de origem japonesa é relativa à arte da dobradura. Ou seja, pegar um pedaço de papel qualquer e, com curvas aqui e ali, montar um complexo item, seja um personagem, construção ou um objeto.

Em Paper Mario, o origami ganha outra conotação. Como todos os personagens são de papel, ser transformado em origami é ganhar novo formato, é ser modificado em outra coisa.

A trama começa quando Mario e Luigi (em cima de um kart) vão para o Reino dos Cogumelos participar do Festival do Origami. Ao chegar lá, percebem que a cidade estava vazia e estranha. No castelo da princesa, encontram uma Peach horripilante em versão Origami.

Acontece que o vilão do game, o origami Olly, se autodeclara rei e cria uma máquina capaz de “reformatar” todos os habitantes, passando do papel aberto (bonzinho) para uma versão dobrada em origami (má). É interessante como este Paper Mario quase traz uma discussão, mesmo que tangencial, sobre preconceitos, eugenia e versa levemente sobre o perigo de moldar o outro a seu prazer.

Para dar cabo de seu plano, Olly, sequestra o castelo da Peach usando cinco fitas mágicas de cores diferentes e o leva para longe do reino do cogumelo. Com isso, Mario, Luigi, Bowser e a Olivia (irmã de Olly) saem na missão de resgatar o castelo e trazer a princesa de volta para forma natural.

Papel preenchido

O mapa de Paper Mario: Origami King é algo digno de grandes jogos de RPG, mesmo que o jogo não carregue exatamente este gênero. A estrutura é de uma aventura comum.

Passado o prólogo, é preciso ir atrás de eliminar as fitas que cercam o castelo para então chegar até Olly. Cada uma destas cinco caminhas é longa, mas muito longa, tomando fácil perto de umas três ou quatro horas em cada.

Jogador precisa ir atrás de eliminar as cinco fitas usadas para roubar o castelo da Peach (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

O motivo disso é que todos estes espaços envolvem ao menos dois grandes mapas com dois grandes chefões a serem enfrentados. Para cada uma das fitas, é preciso enfrentar uma espécie de templo secreto de entidades chamadas no game de Volumental (mistura de elementais com volumes), que oferecem poderes especiais de água, fogo, vento e outros depois de derrotados.

É incrível como a Nintendo conseguiu preencher todo este mundo com histórias únicas e até gameplays bastante distintas. Por exemplo, no início da trama, é preciso seguir com Mario e seus amigos com um barco por uma correnteza. Em outro mapa, o jogador usa um carro-bota em um deserto com mapa mais aberto. Depois, segue para um oceano gigante de dar inveja a The Legend of Zelda: Wind Waker.

Sem contar uma série de minigames, como o de lançar shurikens no parque de diversões, ou o de pesca em vários píeres pelos cantos do reino dos cogumelos. Em suma, há muita, mas muita coisa a ser feita pelo gigantesco espaço de Paper Mario: Origami King.

A pedra no caminho

Toda construção de mapa do título criativa e linda, mas tem um entrave pesado de jogabilidade: os combates são um maçante quebra-cabeças sem graça. A Nintendo quis inovar no formato de batalha aqui, mas parece que recuou logo em seguida.

A batalha funciona da seguinte forma: Mario é colocado dentro de um círculo, com vários outros círculos concêntricos em volta dele. A ideia, para facilitar a imagem mental é de um formato semelhante ao de um alvo.

O combate acontece em dois momentos. No primeiro, o jogador precisa girar e ajustar estes círculos para colocar os inimigos em linha ou em área, sem deixar nenhum inimigo “sobrando” desalinhado. Para isso, conta com um contador de minutos para dar aquele ar apresado enquanto você tenta arrumar a melhor forma de organizar os inimigos. Quando você consegue que todos estejam, ou em linha, ou em área, ganha um bônus de 1,5x em todos os golpes.

No segundo momento, é preciso escolher a melhor arma para atacar os inimigos em linha ou área e eliminar todos antes que ataquem você. O jogo ainda traz um recurso típico de Mario RPG: se você apertar o botão A, no momento certo do ataque, Mario dá ainda um dano extra no inimigo.

Toda este complexo arranjo faz da batalha de Paper Mario: Origami King parecer bastante interessante, não é mesmo? O problema é que a Nintendo “capou” a complexidade, tirando toda sorte de dificuldade das batalhas.

A questão é que o primeiro momento de arranjo não existe para que você escolha a melhor posição dos inimigos para combate. O que o jogo quer de você é que “resolva um quebra-cabeças”. Ou seja, existe uma “resposta esperada” para cada batalha. Isso mina completamente a criatividade que este sistema poderia ter.

Esta questão de quebra-cabeças a ser resolvido, também torna os embates repetitivos, já que envolve apenas reconhecer o padrão que o jogo quer que você recrie e pronto.

Além disso, diante da sequência de movimentos, cada batalha pode durar uns preciosos e longos minutos, já que é preciso sempre organizar os inimigos e enfrentá-los por turno.

Junte a isso o fato de que a vitória também não é recompensadora. Sem um sistema de níveis e evolução, vencer um embate significa, na maioria da vezes, somente receber moedas e confetes em troca. Ambos elementos são muito, mas muito abundantes no jogo. Desta forma, faltou à Nintendo o balanço muito básico de game design e oferta e restrição de itens para estimular estas batalhas.

Nos chefões, a batalha inverte, ficando inimigo no centro (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

A mistura de repetição, pouco espaço para criatividade, com demora nos movimentos sem que isso seja recompensador cria um ambiente no qual, lá para segunda hora de jogo, você faz de tudo que pode para evitar os combates. Até porque, em grandes parte deles, o não-enfrentamento não tem consequências graves para a gameplay.

Dito isso, é preciso reconhecer que a Nintendo buscou um formato diferente para as batalhas. Contudo, faltou a ousadia de dificultar o processo. O jogador pode ainda investir moedas tanto para comprar mais tempo, quanto para pedir para os Toads em volta resolverem “quebra-cabeças” da batalha para você. No final, como você ainda ganha moeda, não perde nada usando este recurso.

Segredos recompensadores

Paper Mario: Origami King já é um jogo grande, de umas boas 30 horas para ser finalizado. Contudo, ainda vai dar muito mais tempo de jogo somente por conta dos coletáveis.

Aqui, Olly transformou basicamente todos os Toads do Reino dos Cogumelos em origamis distintos. Por conta disso, há centenas (sem exageros) deles a serem resgatados por todo o jogo.

Em Origami King, não se iluda, tudo é Toad. Se você vir um cachorro, dê uma martelada que ele se transforma em Toad. Tem Toad escondido em formato de peixe, martelo, parece, porta, quadro, bola….. absolutamente TUDO neste game pode ser um Toad transformado em origami. Assim, se você é complecionalista: boa sorte em vasculhar cada canto deste mapa.

O que pode ser chato e repetitivo se torna interessante exatamente por conta do texto deste Paper Mario e, aqui, vale voltar ao gênio dos games Kensuke Tanabe. Desde Mario RPG, os games comandados por ele são cheios de piadinhas, com diálogos e tiradas simplesmente geniais. Isso faz com que toda vez que você resgate um Toad, ele solte uma frase que fez valer a pena a busca.

O game interesso é submerso em trocadilhos e brincadeiras com a ideia de papel, origami e “ser dobrado”. Por exemplo, em cada canto do mundo há um laboratório que também funciona como cortes de caminho. Isso porque eles contam com máquinas de fax, capazes de replicar o Mario (de papel) para outra máquina em outro laboratório.

Outros inimigos maiores também são feitos de papel machê, transformando-se em versões diferentes de adversários de papel. Os chefões também são bem criativos, como um furador de papel que transforma os Toads em zumbis ao lhes retirar os rostos.

Jogador usa fax para viajar entre ambientes (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

Assim, parece que cada linha de diálogo neste game foi pensado como se Origami King fosse um RPG. Diferente da trama de Marios convencionais que servem somente à jogabilidade, aqui vai ser ela o motivo de querer continuar pelo gigante mundo do jogo.

Brincadeira com movimentos

Uma das novidades deste título está em uma mecânica que brinca com os sensores de movimento do Switch. Quando o jogador encontra círculos amarelos no chão, pode usar a “técnica de 1.000 dobras”, que dá um super braço de origami para Mario.

A funcionalidade é interessante, mas não passa daquele recurso rápido que não se apresenta como um super diferencial para o jogo. O movimento aparece em situações simples, para descobrir áreas secretas ou dar golpes finais nos chefões.

Sistema usa controle de movimentos do Switch, mas de forma simples  (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

Como uma brincadeira de movimento, funciona, mas não traz nada de exatamente novo para o cenário já bem-explorado de mecânicas do gênero no Switch.

Vai com calma

Uma das questões da franquia Paper Mario é que, assim como nos games de Yoshi, a Nintendo está destinando estas séries para o público infantil. Com isso, também não espere um jogo desafiador.

Olivia funciona como uma guia e um tutorial constante no universo de Paper Mario, chegando a ser incômodo como pega na mão do jogador. É basicamente impossível fazer algo de errado neste enredo sem que uma caixa de diálogo com Olivia aparece para colocar o jogador de volta nos trilhos.

Por vezes, é cansativo como a personagem é redundante em suas explicações. Por exemplo, imagine um cenário em que é preciso encontrar uma chave para abrir uma porta. Olivia certamente vai dizer: “bom, essa chave deve estar dentro de um baú”. Quando você encontra o item, ela fala algo como: “essa chave parece que encaixa naquela porta lá em tal lugar”. Quando você chegar próximo à porta, ela certamente dirá: “hum, aquela parece a porta para aquela chave que você tem”. Assim, eu me peguei várias e várias vezes no game dizendo: “ok, eu já entendi, Olivia”.

Jogador passeia por um mar aberto gigante (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

Ter um jogo com alto nível de acessibilidade é excelente, tendo em vista que nem todo mundo está acostumado com a linguagem de videogame. Contudo, a Nintendo peca em não dar a opção de desligar estes apoios. Seria interessante se o game perguntasse, lá no começo, o qual familiarizado com a série você está e retirasse tutoriais com isso.

Principalmente no começo, o nível de “pegar na mão” pode fazer com que muita gente nem dê uma chance para o game, tendo em vista o ritmo lento inicial diante da quantidade de tutoriais.

Novamente, o público-alvo aqui são as crianças, mas um ajuste de jogabilidade que retirasse estes benefícios faria muito bem ao desafio de Origami King.

É o melhor da série? 

Paper Mario: Origami King é um game incrível e que, novamente, não deve aparecer no rol dos gigantes de 2020 exatamente por errar naquilo que faz de novo. A genialidade do título está na construção da história, nos diálogos e ambientação.

Ainda, traz um dos mais belos projetos gráficos em games, sendo incrivelmente lindo mesmo na sua proposta de personagens de papel. É incrível pensar que passei alguns momentos para observar o ambiente de tão belos que são em um jogo que não é realista.

Por outro lado, o que Origami King traz para a mesa sendo realmente novo é a mecânica de batalhas, o que se apresenta como o calcanhar de Aquiles deste título. O sistema não funciona e, atrelado à falta de benefícios e o alto tempo de cada confronto, só faz com que o jogador busque maneiras de evitar cair no sistema.

Jogo tem bonitos e complexos ambientes (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

Mesmo com essa barreira de tutorial e jogabilidade bastante infantis, Paper Mario: Origami King ainda é uma experiência das mais magistrais do ano. Com certeza vai trazer horas de diversão, sendo um game obrigatório da série Mario. Releve estes problemas que você estará diante de uma experiência impressionante.

Paper Mario: Origami King foi publicado pela Nintendo exclusivamente para o Switch em 17 de julho.

Esta análise foi realizada com uma cópia cedida pela Nintendo.

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