Análise | Mafia: Definitive Edition eleva o original a outro patamar

Por Wagner Wakka | 06 de Outubro de 2020 às 10h47
Wagner Wakka/Canaltech

Quando uma remasterização de um título ou um remake são anunciados, a primeira pergunta que vêm à cabeça deste que vos escreve é: o que justifica a recriação desta obra para os consoles modernos?

Mafia é um dos games mais importantes da história dos títulos de mundo aberto. No rastro de GTA, soube pegar algumas das mecânicas que o game da Rockstar popularizou e conseguiu avançar no gênero, adicionando traços cinematográficos ao gênero.

Exatamente por este compromisso de trazer para os jogos parte da estética e linguagem de filmes como O Poderoso Chefão que um remake de Máfia é tão bem-vindo. O jogo original data de 2002, quando foi lançado para a geração PlayStation 2 e Xbox, com todas as limitações que ambos consoles enfrentavam.

A versão antiga já trazia posicionamentos de câmera, centrava em diálogos profundos e intercalava a história de Thomas Angelo mergulhado na máfia da cidade fictícia de Lost Heaven, no Illinois.

A edição definitiva, de 2020, se alimenta desta essência e eleva as cenas ao nível de estética cinematográfica atual, explorando câmeras típicas de cinema, com captura de movimentos faciais e sincronismos labiais de fazer tremer o uncanny valley que nos separa das máquinas.

De pronto, somente pela elevação do aspecto estético do título, já é possível dizer que um remake de Mafia se justifica. O trabalho aqui é primoroso e adiciona camadas ao já excelente original.

Veja bem, não se trata de dizer que havia a necessidade de atualizar mecânicas, ou de afirmar que o game original precisava de uma pincelada atual. Contudo, a Definitive Edition transforma Mafia em outro game, permitindo que tanto o original, quanto este, tenham seu lugar especial no tempo e espaço.

Omertá

Mafia gira em torno de flashbacks de Thomas contando a um investigador sobre a sua entrada no universo criminoso da máfia de Lost Heaven. Embora o jogo tenha uma narrativa de ficção, discute a questão da lei seca nos Estados Unidos, a crise da Bolsa de Valores em 1929 e consequência disso para o fomento do crime organizado nas máfias, com o tráfico de bebidas.

Todos os traços descritos na obra de Mario Puzo estão aqui. A representação do grupo masculino coo uma família, os mecanismos de cooptação de novos integrantes para o esquema e, claro, o confronto entre duas máfias dividindo uma mesma cidade.

Em termos narrativos, Mafia empresta da linguagem cinematográfica de filmes como o de Francis Ford Coppola. No aspecto puramente de videogame, traz inspirações de jogabilidade de GTA. Contudo, o resultado é maior que apenas a soma destas duas metades.

Ele não é nem um filme de máfia, nem uma imitação de GTA; indo bastante além disso. Sob a necessidade de contar uma história mais que apenas a diversão de sair pela rua atirando e capotando veículos, Mafia é linear dentro da proposta de mundo aberto.

Por isso, sua cidade, mesmo que sem um mapa exagerado, é densa, populada e serve muito bem à narrativa. Ou seja, não é exatamente superdivertido andar a esmo por Lost Heavens (como é em GTA), mas a cidade abraça a narrativa com tanta excelência que segura o jogador em uma viagem para os Estados Unidos dos anos 1930.

Aqui, o remake já brilha mais que seu irmão original. A Hanger 13, que desenvolveu esta nova versão, recheou todos os principais ambientes com objetos e detalhes sobre os anos 1930 e 1940. Carros, talheres, móveis, roupas; tudo preenche o jogo de um carisma e uma personalidade que GTA nunca chegou perto de alcançar (exatamente por ser mais generalista).

Grupo é reconhecido como uma família tal qual uma máfia (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

Assim, dizer que este game é só um GTA de máfia revela, no mínimo, um olhar desatento do jogador e uma redução do que realmente o jogo é.

Com a trama de Thomas como fio condutor da narrativa, a recriação das cenas entre os capítulos dá uma nova profundidade ao jogo. Os personagens foram recriados por atuação usando captura de movimentos, principalmente no rosto. O que é extremamente importante para uma produção tão dependente de bons diálogos, como histórias de máfia.

Ao passo que, agora, há mais definição no rosto dos personagens, a câmera também está mais centrada em expressões faciais. Isso permite cenas em que, sem nem mesmo falar nada, Thomas revela à sua esposa Sarah que tivera um dia de tragédias. Don Salieri, o godfather aqui, olha para Thom com um semblante paterno, e oferece uma sensação mista de agressividade de familiaridade como Marlon Brando, no filme de Coppola.

Este é um traço que, por mais que o game original tentasse, não alcança com maestria como nesta Definitive Edition. Ou seja, é possível ver o que os desenvolvedores queriam na versão original; o que só foi alcançado na versão de 2020.

Cidade viva

Outra beleza de Mafia: Definitive Edition é que ele continua basicamente do mesmo tamanho. Isso é, a cidade de Lost Heavens não foi ampliada, o que permitiu preenchê-la com muitos, mas muitos detalhes.

Como um game de mundo aberto, Mafia: Definitive Edition impressiona demais pela quantidade de carros, pedestres e prédios nas ruas. Existe uma certa inteligência em representar um cenário de época dentro de um jogo de mundo aberto.

Isso porque uma cidade de 1930 é bem menor e menos populada, com poucos prédios, do que a representação de uma megalópole de 2020. Assim, mesmo que as ruas não sejam engarrafadas, ainda passa uma boa ambientação do que seria uma cidade mediana do início o século passado.

Cidade é bem recheada de detalhes (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

A beleza é que tudo bem muito detalhe. Ao passar pelas pontes que ligam as ilhas da cidade fictícia, é possível ver o horizonte da cidade, observar pássaros e ver algumas pessoas tomando um bonde ou mesmo vivendo suas vidas.

Novamente, ao se ter uma cidade que não é a maior entre os games de mundo aberto, permite que cada canto dela seja especialmente único.

Lado GTA

Grande parte da melhoria de Mafia: Definitive Edition está no combo visual e de linguagem cinematográfica. Entretanto, há algumas modificações menores relativas à gameplay.

Agora, o título conta com pequenos colecionáveis, como cartões de cigarro e outros objetos típicos da época. A câmera e movimentação dos carros também foi retrabalhada, dando mais fluidez para os movimentos.

No PC, especialmente, é possível jogar com 60 FPS, o que também torna o andar pela Lost Heavens muito mais gostoso e ameno.

A questão é que, embora ainda seja mais fácil de atirar em Mafia: Definitive Edition que em relação ao seu irmão mais velho, os momentos de ação continuam a pior parte da trama.

Acontece que, assim como a narrativa, a jogabilidade também é bastante linear. Assim, há pouco espaço para improvisos, de forma que, se você não segue o que jogo espera de você, o resultado será provavelmente a morte.

Atirar não é exatamente prazeroso neste jogo (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

Por exemplo, em uma cena na qual há a oportunidade de atirar em barris e explodir os inimigos, se você optar por matar um por um na base do tiro, vai ficar sem balas e morrer. Ou seja, o jogo QUER que você use tais barris quase que obrigatoriamente.

Outra questão é que os controles de tiro são também bastante limitados dentro das movimentações do personagem pelos ambientes do título. Mafia: Definitive Edition foi feito para se jogar no controle, mesmo no PC (já que dirigir um carro em alta velocidade é quase impossível no mouse e teclado), o que torna ainda mais difícil uma boa mira. Este é um ponto que o remake não foi capaz de solucionar, fazendo das cenas de tiroteio bastante limitadas.

Por outro lado, fugir de carro pelas ruas de Lost Heavens é algo acima da média. Novamente, como a cidade não é gigante, andar com o carro em alta velocidade (nem tão alta assim, já que são veículos de 1930) passando por pedestres, tráfego e barricadas policiais, traz uma sensação que parece muito próxima de uma perseguição real de época. Novamente, a cidade parece ter vida para além dos propósitos do jogador.

Execução

Desta forma, é possível remontar a pergunta que deu início a esta análise: o remake se justifica? A resposta clara aqui é que sim. A versão definitiva pega o que há de melhor na original e melhora. Assim, alguém que já se mostrava bastante submerso em Mafia de 2002, deve mergulhar ainda mais no mundo desta nova versão.

O jogo também oferece uma opção de “jogo livre”, algo mais no estilo GTA convencional para explorar os limites de Lost Heavens. Embora seja interessante ver ainda mais de perto e com calma todos os detalhes da cidade, este modo vale somente para algumas missões como taxista.

Novamente, o mundo de Mafia não serve tão bem como GTA como parque de diversões. A proposta aqui é oferecer ferramentas e um excelente pano de fundo para a narrativa de máfia principal do título.

Assim, Mafia: Definitive Edition faz jus ao nome, como uma versão melhorada do já excelente jogo original de 2002. Ainda carrega algumas limitações de jogabilidades quase que típicas de jogos de mundo aberto (nem em GTA V é gostoso atirar, convenhamos).

Aos novatos da franquia, aqui fica uma dica: vá para ele esperando mais uma narrativa cinematográfica do que um parque de diversões em mundo aberto. Mafia é uma experiência de umas 10 horas de boa história, com uma cidade interessante a ser explorada. Entretanto, não será como um GTA V para garantir peripécias e maluquices pela cidade, testando os limites dos ambientes. Neste sentindo, Mafia é bem menor e serve a seu propósito fechado.

Lançado em 25 de setembro, Mafia: Definitive Edition foi desenvolvido pela Hangar 13 e publicado pela 2K Games. A nova versão chega para PlayStation 4, Xbox One e PC.

No Canaltech, esta análise foi realizada com uma cópia para PC cedida pelos desenvolvedores. Contudo, também testamos a versão de PlayStation 4, com bom desempenho mesmo em ambientes muito populados.

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