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Review Dispatch | Com elenco estelar, jogo é um tapa na cara da indústria

Por  • Editado por Jones Oliveira | 

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Divulgação/AdHoc Studio
Divulgação/AdHoc Studio

A AdHoc Studio pegou todos de surpresa quando lançou seu jogo narrativo Dispatch no fim do ano passado nos moldes de títulos da Telltale. O jogo nasceu como um programa live action e logo escalou para um jogo de super-heróis focado em escolhas narrativas.

Dispatch chegou ao PC e PlayStation 5 no formato de episódios semanais, algo que não vemos todos os dias. A estratégia da AdHoc, apesar de desafiadora, foi um belo sucesso na comunidade, que se reunia toda quinta-feira para discutir o novo capítulo, escolhas e clipes sobre o jogo.

Neste início de ano, Dispatch acabou aterrissando no Nintendo Switch, mas ficou marcado por seu alto grau de censura. Não consigo nem imaginar o abismo e o downgrade que jogadores do híbrido da Big N vão experimentar em comparação com as outras versões. Isso se deve principalmente pelo fato a comédia, a sensualidade e outros tópicos mascarados no port para o Switch fazerem parte integral da experiência proposta pela AdHoc.

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Prós

  • Narrativa envolvente e comédia no ponto certo
  • Elenco estelar que carrega a trama nas costas
  • Trilha sonora para ouvir no Spotify
  • Minigame de estratégia viciante com elementos de RPG

Contras

  • Problemas na localização para português do Brasil
  • Problemas na alternância entre narrativa e gameplay
  • Ausência de botão de pular cenas

Dispatch é fruto do cenário atual do entretenimento

O setor de entretenimento vem passando por mudanças brutas nos últimos anos. Desde a pandemia de COVID-19, o mercado inteiro vem sofrendo com cancelamentos, demissões em massa e um recuo financeiro gigantesco. Para completar a bagunça, a IA generativa chegou com força em um momento instável entre artistas e companhias.

Mas o que Dispatch tem a ver com tudo isso? Bem, o jogo de narrativa de super-heróis foi criado pela AdHoc Studio, desenvolvedora fundada por veteranos da Telltale Games e Ubisoft, ambas envolvidas em casos de demissões e cancelamentos, principalmente a última.

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Além disso, o título surgiu em um momento de ruptura entre o cinema e os super-heróis, com a fórmula bilionária da Marvel definhando com os últimos filmes e novas formas de lidar com heróis surgindo. Este é o caso do visceral The Boys, mais focado na violência e crítica sociopolítica de um mundo povoado por heróis, e da brutal animação Invincible, que consegue ser mais visceral que muita série e filme em live action por aí.

Essa ruptura foi extremamente bem aproveitada pela AdHoc Studio ao trazer os super-heróis para o escritório. Dispatch usa e abusa de temas mais adultos (sim, Disney), uma boa dose de violência e uma alternância entre comédia e drama, o que engrossa esse caldo bem servido por veteranos que trabalharam em The Wolf Among Us e na adaptação de The Walking Dead para os games.

Da vida de super-herói para o CLT: qual é a de Dispatch?

Em Dispatch acompanhamos Robert Robertson III, um super-herói que herdou uma armadura poderosa e com ela combate o crime em Los Angeles sob a identidade de Mecha-Man. Após travar uma batalha com o antagonista de sua linhagem, Robert acaba perdendo a fonte de energia que alimenta o traje tecnológico, o que acaba com todo o seu lance de super-herói; afinal, ele é apenas um cara normal de armadura.

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Antes que ele renuncie totalmente ao seu posto como herói, Robert é convidado por uma das heroínas mais poderosas e conhecidas do mundo, Loira Luminar, para fazer parte de um programa especial na Rede de Envio de Super-heróis (SDN). Lá, Robert deve coordenar o Projeto Fênix, onde deve cuidar e unir uma equipe de super-vilões em reabilitação.

Inicialmente, é preciso ressaltar várias vezes que Dispatch é composto 80% por narrativa e 20% por estratégia. Aqui não mexemos o boneco ou apertamos botões para chutar a bunda de vilões. Os personagens são os protagonistas e roubam a cena, vai por mim, enquanto nós, jogadores, escolhemos diálogos, tomamos decisões e vemos o desenrolar da história.

Para quem já jogou qualquer coisa da Telltale, ou mesmo Life is Strange e Detroit: Become Human, a forma como a narrativa funciona em Dispatch não deve surpreender. Em certos momentos, aparecerão três opções de diálogo em forma de Quick-Time Events; escolhemos o que vamos falar e vemos as consequências.

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Diferente de muitos títulos com esta proposta de narrativa ramificada, em Dispatch suas escolhas não acontecem no formato do que chamo de funil. O que isso quer dizer? Bem, uma escolha que você faz não afetará a história de forma imediata, mas será recapitulada lá na frente, mesmo nos últimos minutos da narrativa. Ou seja, às vezes você escolhe diálogos diferentes e mesmo assim a cena a seguir se repetirá, o que não significa que não vai fazer diferença lá na frente.

"Para quem já jogou qualquer coisa da Telltale, ou mesmo Life is Strange e Detroit: Become Human, a forma como a narrativa funciona em Dispatch não deve surpreender" — Gabriel cavalheiro

Elenco estelar carrega Dispatch nas costas

Não tem como falar de Dispatch sem louvar seu robusto elenco. Além de personagens muito bem escritos, carismáticos e diferentes uns dos outros, a AdHoc Studio fez um trabalho primoroso em escalar os atores certos para os personagens certos. Para quem não sabe, o jogo foi desenvolvido em parceria com o Critical Role, um grupo de RPG formado por figuras ilustres dos games como Laura Bailey e Ashley Johnson, intérpretes de Abby e Ellie de The Last of Us.

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A desenvolvedora se preocupou em trazer tanto nomes de peso como o ator por trás de Robert, Aaron Paul (nosso querido Jesse Pinkman de Breaking Bad), Laura Bailey, Jeffrey Wright, como atores não muito bem conhecidos na cena, como o YouTuber MoistCr1TiKaL e a rapper THOT SQUAD. Esse elenco de peso deu uma personalidade absurda para todos os personagens principais, que conseguiram se conectar e serem cativantes com pouquíssimo tempo de tela.

Alinhado ao elenco estelar, Dispatch apresenta um roteiro e uma narrativa arrebatadores. O jogo consegue transitar de temas mais sérios, tensão e drama para uma comédia de dar gargalhada. Apesar dessa comédia quase roubar a cena no game, que é mais otimista que os sanguinários The Boys e Invincible, pode esperar uma experiência que irá mexer com seus sentimentos.

Os diálogos são extremamente inteligentes e bem escritos para as situações em que nos encontramos. As opções de resposta não são nem tão óbvias nem tão complexas: sabemos um pouco do que esperar assim que damos uma resposta. Isso é muito difícil de se fazer sem ter uma sinalização clara de em que tom e como iremos dialogar. Fallout mostra o tom das nossas frases, o que é uma alternativa boa, mas que facilita a vida dos jogadores; já The Witcher 3 é quase uma roleta russa. Mesmo bem intencionado, é possível que Geralt de Rivia acabe em algumas encrencas indesejáveis.

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Despachando os super-vilões

Demos uma breve pincelada em como Dispatch apresenta sua narrativa; agora é hora de explorar como o jogo aproveita os seus outros 20% de estratégia. O principal trabalho de Robert na SDN é receber chamados e pedidos de ajuda em toda a Los Angeles e enviar os heróis certos à ocorrência. Quem jogou horas de 911 Simulator deve se sentir em casa aqui.

Isso acontece em um mapa de Los Angeles que mostra o estado dos nossos personagens, suas localizações e aonde precisam ir. Robert tem um grupo de super-vilões à sua disposição, cada um com certo nível de Força, Carisma, Inteligência, Agilidade e Defesa. Certos casos envolverão o resgate de alguém, o que demanda um personagem ágil; outros dependem do Carisma dos vilões, e assim por diante.

Ao enviar o personagem, é possível que aconteça alguma atualização durante a resolução da ocorrência ou que se finalize o chamado de vez. Quando isso acontece, as estatísticas do personagem se sobrepõem ao nível de sucesso da ocorrência; um disco é disparado do centro desta sobreposição e, se cair na área de sucesso, parabéns, temos uma ocorrência resolvida. Caso falhe, o super-vilão fica machucado e perde alguns status. Numa segunda falha, o personagem fica fora e não pode mais trabalhar em ocorrências.

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Parece um pouco complicado de início, mas é bem fácil de se pegar. Devo dizer que essa parte mais estratégica de Dispatch é um dos pontos mais altos do jogo. É muito divertido e complementa a narrativa de forma exemplar. Facilmente jogaria Dispatch só com essa parte de gerenciamento.

Além dessa questão de enviar os personagens certos às ocorrências certas, despachar vilões ainda tem uma camada de RPG. Cada vilão tem uma passiva, com habilidades podendo ser desbloqueadas com o tempo. Caso sejam bem-sucedidos em suas ocorrências, os personagens ganham experiência que pode ser usada como pontos para aumentar atributos de cada um deles. Também há a sinergia. Em várias missões precisamos mandar mais de um vilão. Todos eles têm um personagem que o complementa, aumentando ainda mais a taxa de sucesso.

Infelizmente, acredito que Dispatch não faz um bom trabalho na alternância entre narrativa e estratégia. O que eu descrevi como um 80/20 poderia ser mais proporcional, talvez um 70/30 ou até um 60/40. Claro, a narrativa é o foco aqui, mas ela poderia ser mais bem distribuída. Sessões de história são muito longas, enquanto as de estratégia são curtíssimas.

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Dispatch vale a pena?

Dispatch é uma experiência que não se vê todo dia. Desde seu elenco poderoso em uma história adulta com momentos hilários até seus trechos muito bem construídos de estratégia com uma pitada de RPG, até sua trilha sonora alternativa digna de um espaço na sua biblioteca do Spotify, o jogo brilha muito. Seu estilo visual também não fica para trás, lembrando muitas animações como o próprio Invincible.

Há sim alguns problemas aqui e ali, como erros e falta de localização em português do Brasil em alguns diálogos ou a ausência da opção de pular cutscenes que atrapalha principalmente quem está fazendo outras runs e caminhos alternativos.

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Para um jogo indie de estreia de um estúdio que quase fechou suas portas durante o desenvolvimento por falta de dinheiro, Dispatch é uma masterpiece com um charme único e capaz de marcar qualquer um que estiver aberto a uma experiência narrativa. Estamos falando de um verdadeiro tapa na cara da indústria: um time de desenvolvedores indie que colocou a criatividade, comunidade e o amor em um projeto que acreditavam.

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