Mais uma vez, presidente Trump culpa videogames por atentados com arma de fogo

Por Rafael Rodrigues da Silva | 05 de Agosto de 2019 às 21h30
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Nesta segunda-feira (5) o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez um pronunciamento oficial para todo o país abordando os mais recentes casos de ataques de atiradores a locais públicos que aconteceram no final de semana. E, junto com a promessa de mudanças nas atuais leis para tentar diminuir esses tipos de ataques, o presidente Trump também aproveitou para colocar parte da culpa dos casos nos jogos de videogame.

Em seu discurso, o presidente pediu pelo fim da glorificação da violência na sociedade, e afirmou que os cada vez mais violentos videogames são um dos responsáveis por isso, citando que esse jogos têm ajudado uma juventude perturbada e impressionável a sentir-se parte de uma cultura que celebra a violência, e que é um dever do país diminuir esse sentimento que os videogames criam nas mentes mais jovens.

Além dos videogames, Trump também dedicou uma parte de seu discurso para alertar sobre como a internet tem sido usada para disseminar ideologias de ódio e violência, afirmando que a rede se tornou um meio para a radicalização de mentes perturbadas. O comentário foi feito baseado no fato de que um dos atiradores havia publicado um manifesto sobre o motivo de seus atos no 8chan, um fórum conhecido por permitir que pessoas compartilhem ideias racistas e neonazistas sem qualquer tipo de restrição ou punição.

Além de culpar videogames e a internet, Trump jurou tomar medidas para diminuir rapidamente a ocorrência desses ataques, e pela primeira vez afirmou que grupos de supremacia branca deveriam ser considerados como células terroristas domésticas - até então, a posição do presidente sempre havia sido de não acusar diretamente esses grupos, e uma das falas mais conhecidas dele nesse sentido foi quando, após um manifestante de um grupo de supremacia branca atropelar 20 pessoas em um protesto de Charlottesville em 2017, levando uma delas à morte, o presidente apenas declarou que “existem pessoas boas e ruins de todos os lados”.

O pronunciamento do presidente nesta segunda (5) ocorreu após dois novos atentados do tipo “atirador solitário contra uma multidão” acontecerem no último final de semana, um em El Paso, no Texas, e outro em Dayton, em Ohio. Ambos os ataques tinham como alvos imigrantes mexicanos e latinos, e a soma de vítimas teve quase trinta pessoas mortas e cerca de cinquenta feridas.

Em sua declaração, o presidente também prometeu um maior apoio do governo às vítimas das tragédias, e disse que irá pedir para que a segurança nacional fiscalize mais atentamente as redes sociais para que consigam detectar com antecedência pessoas que demonstram sinais de intolerância racial - e os investigadores nem vão precisar ir muito longe, já que nas últimas semanas o próprio presidente Trump havia tweetado diversas vezes sobre um grupo de Representantes (o equivalente aos nossos deputados) composto por quatro mulheres negras que trabalham como oposição ao governo, falando que elas deveriam voltar para o país imundo e cheio de criminosos de onde vieram, sendo que três delas nasceram nos Estados Unidos e a quarta é uma cidadã americana totalmente documentada e reconhecida pelo estado), e que culminaram em cantos de “Send her back” (“Mandem elas de volta”, em português) durante os comícios de Trump em preparação para as reeleição em 2020.

Além de prometer um maior monitoramento das redes sociais, Trump também acenou com uma possível reforma nas políticas de saúde e tratamento mental como forma de evitar que pessoas que possuam essa tendência homicida cheguem às vias de fato, e também em propor a pena de morte para os condenados por assassinato em massa.

O inimigo de sempre

Os comentários de Trump onde ele culpa os videogames seguem uma tendência antiga do Partido Republicano (partido ao qual Trump faz parte) de usar os videogames como bode expiatório para qualquer caso de tiroteios com diversas vítimas. Logo após os tiroteios, tanto Kevin McCarthy (líder do Partido Republicano na Casa dos Representantes) quanto o governador do Texas, Dan Patrick, afirmaram que os culpados pelos atos de violência que ocorreram no final de semana foram os videogames: Patrick apontou que o manifesto escrito por um dos atiradores citava nominalmente o jogo Call of Duty, enquanto McCarthy implorou para que o governo tomasse alguma atitude sobre o poder de influência da indústria dos videogames em uma entrevista para a Fox News. A própria emissora também deu coro às reclamações, com seus âncoras especulando que os atiradores provavelmente passavam muito tempo jogando Fortnite, e afirmando que mecânicas como a dos “headshots” ajudavam a desumanizar os jovens para a violência das armas.

Ainda que todos os estudos feitos por cientistas não conseguiram achar nenhuma relação entre o fato de jogar videogames violentos e a prática de atos de violência reais, essa narrativa de culpar videogames é uma que já existe há décadas, e que se torna pior conforme os avanços na tecnologia permitem que os videogames se tornem cada vez mais realistas.

Isso em grande parte acontece como uma forma de despistar a opinião pública do debate real sobre o problema do controle da venda de armas, já que em muitos lugares é possível comprar até mesmo rifles automáticos de uso militar praticamente sem nenhuma exigência de documentação. Isso porque a NRA (National Rifle Association) é uma das principais financiadoras de campanha de políticos tanto do Partido Republicano quanto do Partido Democrata, e ainda que a indústria de videogames seja a mais lucrativa do setor de entretenimento, ela não contribui diretamente para as campanhas de eleição e reeleição - tornando-se, assim, um “Bicho Papão” muito mais favorável.

No ano passado, após o massacre na escola Stoneman Douglas, na cidade de Parkland (Flórida), o presidente Trump já havia realizado uma reunião com diversos representantes das principais desenvolvedoras de jogos de videogames para definir estratégias e evitar novos casos como o da escola. Nenhuma nova lei ou mudança em legislação existente ocorreu dessa reunião, assim como nada mudou na operação dessas desenvolvedoras, mas tudo serviu como um escudo para que a opinião pública não começasse a pressionar para que se efetuasse uma discussão séria sobre a venda de armas no país.

Desde o Massacre de Parkland, que ocorreu em 14 fevereiro de 2018, já ocorreram outros 2.193 atentados do tipo "mass shooting" (ataques do tipo em que um ou mais pessoas entram com armas em um local e começam a atirar aleatoriamente, sem alvo definido, apenas para causar a maior quantidade de vítimas possível) nos Estados Unidos, segundo o mapa de atentados da Vox. Enquanto isso, os “culpados” continuam sendo sempre os mesmos - os jogos violentos, os filmes violentos, as pessoas com problemas mentais, a internet. E esse ciclo vicioso de culpa sem ação, de apontar dedos e não oferecer soluções, infelizmente parece estar longe de chegar ao fim.

Enquanto isso, é a indústria dos videogames que, mais uma vez, precisa suportar a culpa por algo que pouco poder para para evitar, e nesta segunda (5) as ações de todas as principais companhias tiveram significativas quedas após as declarações do presidente Trump: a EA viu suas ações caírem em 4,6%; as ações da Take Two Interactive (proprietária da Rockstar Games e da 2K Games) despencaram 6,1%; a Activision Blizzard viu suas ações perderem 6,2% do valor; enquanto a Zynga (uma das maiores desenvolvedoras de jogos para dispositivos móveis e para redes sociais) viu suas ações caírem 3,5%.

Fonte: Polygon, UOL

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