Emulação vs. recompilação: Qual é a diferença?
Por Diego Corumba • Editado por Jones Oliveira |

O projeto brasileiro PS2Recomp surgiu recentemente e promete revolucionar a execução de jogos de PlayStation 2 no Windows. Ao invés de emular, o software permitirá que eles sejam executados de forma nativa.
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O grande desafio dos emuladores é que eles exigem que o usuário tenha um PC razoável para ter um desempenho que chips dos anos 2000 entregavam. A proposta agora é outra: trazer um método que faça os títulos funcionarem bem até no PC da Xuxa.
Isso se deve ao fato de que o PS2Recomp não vai “imitar” (emulação) o sistema do PlayStation 2. Ele vai “traduzir” (recompilação). Se você não sabe a diferença, hoje o Canaltech vai te contar tudo o que precisa saber.
Conceito de emulação: O "tradutor simultâneo"
O emulador nada mais é do que um intérprete, ele converte de forma simultânea com as informações que recebe. O PS2, por exemplo, fala a linguagem MIPS enquanto os computadores compreendem o x86.
É como, no Brasil, conversar com alguém que só fala chinês ou japonês. O tradutor terá o trabalho de ouvir o diálogo, analisá-lo e interpretar a mensagem de forma que o ouvinte entenda. É isso que os softwares de emulação fazem.
No entanto, isso envolve um grande esforço do processador. O emulador não para a “tradução” nem por um instante, mesmo em trechos que demandam menos.
A situação se complica quando o game exige muito. Em termos simples, é como se o intérprete precisasse traduzir o diálogo de alguém que fala rápido demais — o que ocasiona gaguejar (que nos jogos significa travamento e queda de FPS).
Outro aspecto complexo é que o software não pode apenas imitar o game, mas também os defeitos vistos no console. Ou seja, as limitações de memória, chip de som, clock e outras são replicadas via código. Além disso, a CPU consome bastante energia.
O conceito de recompilação: O "livro traduzido"
Enquanto a emulação tenta realizar a tradução simultânea, a recompilação funciona de uma forma distinta. Ela está mais perto de uma localização editorial.
Ao invés de transformar “ao vivo” a linguagem para PC, o software transforma todo o código do jogo em linguagem C++ para o Windows. É como se o profissional traduzisse um livro e imprimisse uma nova versão para você.
Desta forma, na hora que você vai jogar, o computador não “sofre” para converter absolutamente nada. Ele apenas “lê” as informações, como se tivessem sido criadas para aquele fim.
E é neste aspecto que a recompilação ganha a corrida. Ele roda o jogo nativamente, como um jogo de PC. O processador não é forçado ou consome mais energia, ele só executa o jogo sem qualquer complicação.
Isto permite que alguns games, que rodavam a até 20 FPS em emuladores, dessem um salto para até 500 FPS. Um absurdo mesmo. Além disso, você pode ver recursos como Ray Tracing, widescreen real, suporte a mouse e teclado e outras facilidades que você não veria normalmente na emulação.
Sabe quando você vê que jogos como Super Mario 64 ou The Legend of Zelda: Majora’s Mask receberam “versão nativa” para PC em projetos de fãs? É exatamente esse tipo de trabalho, com a recompilação que os faz rodar de forma natural nos computadores.
Isso já existe?
Quando se fala sobre ports não-oficiais impactantes no PC, a comunidade pode se vangloriar de viver em uma “Era de Ouro” hoje em dia. Super Mario 64 PC Port, por exemplo, reconstruiu toda a experiência original do Nintendo 64 através da recompilação em DirectX/OpenGL.
Assim, o público poderia jogar a icônica aventura do mascote da Big N em tela plana, resolução 4K, mais de 60 FPS, aplicar mods de textura e várias outras facilidades que nem mesmo seriam vistos em uma versão “remaster”.
E ele não é o único, já que The Legend of Zelda: Ocarina of Time também recebeu uma versão similar. O “Ship of Harkinian” permite rodar o clássico com suporte a mouse, câmera livre e uma alta taxa de quadros.
O grande “porém” é que projetos do gênero demoram uma eternidade para serem disponibilizados. O OpenGOAL trouxe Jak and Daxter de forma impressionante para os computadores, com a possibilidade de rodá-lo nativamente — no entanto, isso demorou anos para ser concluído.
Por que o "PS2Recomp" é revolucionário?
Em todos estes jogos, a comunidade teve de fazer engenharia reversa manual em cada código — o que dá um baita esforço. Se for algo produzido por fãs, ainda tem o processo de “trabalho de formiga”: a pessoa só consegue fazer em seu tempo livre ou quando combina o dia com a galera.
Imagine que você pegou um livro em aramaico e tentasse traduzir frase por frase, manualmente, durante as suas folgas ou momentos de paz. Além de demorar uma eternidade, isso exige que se entenda o contexto de cada linha para transpor o projeto da melhor forma para quem for “ler” no futuro.
Sem um time de especialistas, isso se torna inviável para disponibilizar apenas um jogo (no qual, muitas vezes, você sequer tem o direito e pode sofrer o “lendário” processinho) aos fãs.
Se o PlayStation 2 tem mais de 4.000 jogos, imagine quantos séculos demoraria para recompilar cada um deles? É esta a linha de pensamento que impede toda a biblioteca ser disponibilizada nos PCs em “curto prazo”. Não é algo que pode ser feito em algumas horas, mas sim meses de trabalho.
E é neste aspecto que o PS2Recomp realmente brilha. Ele serve para automatizar este processo, com a transformação do arquivo executável ELF para a linguagem C++ quase que automática. É um grande avanço.
Ao invés de sentar e esperar décadas para ver versões nativas dos primeiros God of War e Gran Turismo 4 para PC, isso pode ser visto em poucos anos. E não apenas eles, mas centenas de títulos emblemáticos — sem qualquer necessidade da Sony ou da dependência dos emuladores.
Veja quais são as maiores vantagens e desvantagens de cada processo, tanto da emulação quanto da compilação:
| Emulação vs Recompilação: Principais diferenças | ||
| Emulação | Recompilação | |
| Vantagens | Roda qualquer jogo (basta ter a ISO) | Roda em qualquer PC (até fraco) e tem gráficos perfeitos e customizáveis |
| Desvantagens | Exige PC potente e possui bugs de emulação gráfica | Exige que alguém faça o processo de "tradução" para cada jogo específico (não é só "botar o disco e jogar" imediatamente, precisa gerar o executável) |
O futuro dos jogos retrô no PC
Com a presença do PS2Recomp, é questão de tempo até vermos as demais plataformas receberem o mesmo tipo de tratamento. Este é o futuro para preservar a história dos jogos, que não dependerá mais de suas antigas plataformas para estarem disponíveis ao público.
Os games deixam de ser um “software preso em um console”, mas sim um “software eterno”, disponível para diversos usuários eternamente. O problema é justamente as companhias que detém os direitos destas marcas, que podem derrubar estes recompiladores ou até processar seus criadores.
Ainda assim, é uma grande vitória da comunidade brasileira — que saiu na frente no cenário da emulação com o PS2Recomp. A paixão pelos jogos e a vontade de preservar uma parte de nossa história vão mover a tecnologia adiante e trazer mais facilidades para acessar estas experiências.
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