BrAT diverte o público com videogames e ajuda causas humanitárias

Por Jessica Pinheiro | 03 de Abril de 2018 às 12h37
BrAT

O Brazilians Against Time é um acontecimento muito recente, praticamente uma criança em meio a tantos outros eventos relacionados a videogames que existem por aí. A inspiração, porém, vem de muito tempo atrás, com o movimento speedrun, uma prática que muitos jogadores vêm se dedicando cada vez mais e que cujo objetivo é desafiar a si mesmo e quebrar recordes, zerando o game em um tempo considerado impossível por meio de táticas que se aproveitam da programação e/ou do código-fonte do título.

Executar um speedrun com perfeição não é uma tarefa fácil e exige aperfeiçoamento. É necessário treinar sempre, não se dar por vencido e sempre tentar novas maneiras de “quebrar” o jogo a seu favor. É uma habilidade que poucas pessoas desenvolvem com maestria.

Imagine você conseguir, por exemplo, terminar The Legend of Zelda: Ocarina of Time em 20 minutos? Normalmente, este título, se jogado da maneira que foi projetado, leva pelo menos umas 8 horas para ser finalizado. Mas com macetes e técnicas, os speedrunners conseguem enganar o game, fazendo-o pensar que o jogador realmente chegou no final boss com tudo o que é necessário e está pronto para enfrentá-lo e salvar o mundo em perigo de uma vez por todas. É bonito de se ver como esse tipo de tática é aplicada.

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E por que não transformar essas habilidades em uma atração para o público? Se tem algo que as pessoas gostam de fazer é assistir outras fazerem o que sabem melhor, ainda mais quando a técnica é executada ao vivo e com perfeição. Com speedruns não é diferente: é um show à parte descobrir como o seu jogo favorito pode ser quebrado, moldado e reaproveitado de várias formas. Pensando melhor, por que não utilizar essas técnicas em prol de causas nobres?

Utilizar macetes para pular para o final do jogo? É fácil. Um dos speedrunners explicou como executou cada uma das técnicas em uma exibição de glitches de Paper Mario 64 e quais foram as consequências de cada uma dessas técnicas (Foto: Jessica Pinheiro)

Videogames a favor da humanidade

Arranjar um espaço e chamar os melhores speedrunners do país para que eles mostrem suas habilidades em tempo real em frente a webcams para milhares de pessoas, ao passo que ainda explicam como executam e porquê o fazem de determinada maneira, não é uma tarefa fácil. E tampouco é algo novo, na verdade.

Nos Estados Unidos, o movimento mais comum do gênero é o Games Done Quick. A iniciativa acontece há pelo menos oito anos e tem duas edições por ano: uma no início, geralmente em janeiro (a edição Awesome) e outra no meio, entre o fim de junho e começo de agosto (a edição Summer). Todas as maratonas são organizadas por comunidades de speedrunners, em especial pela Speed Demos Archive e pela Speedruns Live. E todo o dinheiro arrecadado durante as livestreams desse projeto é voltado para causas humanitárias.

As duas organizações mais comuns que recebem todas as doações levantadas pela maratona são a Fundação de Prevenção ao Câncer e o Médico Sem Fronteiras. Os eventos, inclusive, recebem patrocínio de várias outras empresas, e em especial do Twitch, plataforma por onde são feitas as transmissões ao vivo. Essas companhias geralmente cobrem gastos básicos dos speedrunners e oferecem incentivos, brindes sorteados para as pessoas que doaram determinadas quantias, após o encerramento da edição.

Brasileiros contra o tempo

No Brasil, temos uma maratona muito parecida acontecendo há três anos. O Brazilians Against Time (ou simplesmente BrAT), como comentado anteriormente, é um evento novo no país e, portanto, ainda está se popularizando. Todavia, seus feitos em tão pouco tempo são, no mínimo, marcantes.

O público podia assistir o BrAT ao vivo e a cores, adquirindo os ingressos através do site oficial do evento (Foto: Jessica Pinheiro)

O evento deste ano ocorreu no feriadão de Semana Santa e Páscoa, entre os dias 29 de março e 1º de abril. A maratona ininterrupta de diversos títulos de videogame e PC, tanto novos quanto antigos, foi sediada em São Paulo, na Game Vault, uma casa de jogos de tabuleiro com espaço para locação e repleta de novidades e atrações para os geeks e nerds. O estabelecimento, por sinal, patrocinou a edição 2018 do BrAT.

Foram 80 horas de jogatina sem parar ao longo dos quatro dias, mais de 50 jogos “quebrados” (figurativamente falando) e exatos R$ 26.275,65 arrecadados para o Médicos sem Fronteiras.

Na primeira edição, em 2016, a maratona aconteceu na Unit Zero, na capital de São Paulo, e beneficiou a AACD com um total de R$ 7 mil em doações, com mais de 50 horas de livestream. No ano seguinte, em 2017, o BrAT ocorreu na cidade de Guarulhos, na Walkers Magic Store, e foi o primeiro evento beneficiando o Médicos sem Fronteira. Esta edição em específico, arrecadou com um total de R$ 10 mil em doações e exibiu pelo menos 80 horas de runs (como são chamadas as jogatinas, onde os speedrunners literalmente “correm” com o game, usando macetes para chegar ao final o mais depressa possível).

Correndo os games e o evento

O Canaltech compareceu ao evento em um dos dias para cobrir a maratona, e na ocasião conversamos com Hugo Carvalho, o organizador do BrAT. Durante a conversa, ele nos contou que a Game Vault, o local onde aconteceu o evento deste ano, foi encomendado desde sua inauguração para sediar a maratona, uma vez que o dono do local é um amigo próximo. “A gente trabalhou juntos em alguns eventos, ele é um amigo próximo”.

Muitos dos equipamentos utilizados pelos runners foi trazido pelos próprios integrantes da causa e por amigos (Foto: Jessica Pinheiro)

O comentário de Hugo corrobora perfeitamente com o feeling que se sente ao chegar no BrAT: uma sensação de que todo mundo ali é um amigo de longa data, uma comunidade unida e solícita que faz de tudo para ajudar uns aos outros, transformando o ambiente em um clima agradável, familiar e, principalmente, acolhedor. Uma das dicas que o organizador da maratona deixa para quem tem interesse em se tornar um runner, inclusive, é que a pessoa chegue até a comunidade.

“Pode ser por Facebook, ou no Discord que tem muita zoeira. O melhor jeito é se integrar com a comunidade”, comenta Hugo. “A gente tenta trazer todo mundo da comunidade para todo mundo se ver. Aqui todo mundo tá fazendo algo que gosta. Eu não preciso inventar nada, o pessoal vem e aproveita e isso é gostoso”. Por sinal, muitas pessoas compareceram ao evento, incluindo pessoas conhecidas de mais de anos, e até mesmo novatos. A cada ano, o BrAT cresce cada vez mais.

Com o crescimento natural e gradativo da maratona, é de se esperar que as atrações estejam sempre à altura do público. Quando perguntado como é feita a seleção dos jogos que farão parte da agenda do evento, Hugo afirma que existem mais inscrições do que espaço. “Existe um formulário para cada run do evento. Temos uma equipe que analisa vários aspectos do formulário [preenchido] como, por exemplo, se o jogo é bom, se tem apelo para o público, se cria incentivos legais... Então criamos um ranking e elegemos os jogos para o BrAT”, explicou o organizador.

Outra dúvida que surgiu é se existe algum jogo que é encomendado para o BrAT, e o organizador nos revelou que sempre existem alguns jogadores dispostos a tentar estudar as novidades. “Esse ano o sincevanilla_ (um dos speedrunners) pegou o Super Mario Odyssey. Tem uma parte da comunidade que sempre está disposta a 'correr' esses jogos novos. Quando dá certo, é ótimo”, comenta Hugo. “A gente joga os jogos velhos, mas queremos ver jogos novos também”.

Enquanto o BrAT rolava em um salão, ao lado alguns speedrunners treinavam os jogos que iriam correr na maratona (Foto: Jessica Pinheiro)

No que se refere à run considerada a mais difícil de executar, Hugo revelou que a chamada Zero Saídas, uma forma muito específica de jogar Super Mario World, pode ser considerada a mais trabalhosa. Para ilustrar o quão difícil esse método pode ser, o organizador nos explicou sobre maratonas em que é preciso usar a tática de execução arbitrária de códigos, um termo usado em segurança de computadores para descrever a capacidade de um invasor conseguir executar qualquer comando de escolha do atacante em uma máquina. “Essas runs são muitos difíceis de executar”.

Um dos speedrunners com maior memória muscular da comunidade, inclusive, já tentou realizar a Zero Saídas milhares de vezes, mas só conseguiu alcançar a proeza em pouquíssimas delas. “É um pixel perfect muito específico. Foram 5000 mil tentativas e 100 acertos”, ilustrou Hugo.

Tudo se resume a dinheiro

No que se refere às maiores dificuldades para se organizar o BrAT, a maior delas é o patrocínio, já que os gastos pessoais com hospedagem, comida e outras necessidades básicas são alguns dos maiores problemas para executar a maratona. “O pessoal é empolgado com a ideia, e o equipamento é razoavelmente fácil de conseguir”. O difícil mesmo, de acordo com Hugo, é o dinheiro para a alimentação dos runners e o pagamento de passagens para trazer os runners mais afastados. “Se o cara que mora no Nordeste for o melhor jogador do mundo em um determinado game, fica difícil”. A divulgação da maratona também é um ponto crítico, muito embora o evento esteja cada ano mais em evidência na mídia.

Hugo ainda nos confidenciou que tudo se resume, basicamente, a dinheiro. Os custos para as ilustrações dos banners e demais materiais de divulgação, que contam com a presença da Jade, a mascote do BrAT, saem do próprio bolso da organização. Uma ajuda avinda de patrocinadores para financiar todos esses custos e alocar os runners que vêm de longe seria o ideal. “A gente não tem mais precisado pagar por espaço, só em 2016 teve isso é agora tem dado certo”, comenta o organizador. “A gente precisa de runners. Temos muitas pessoas do Brasil que não conseguiram vir por conta de questão financeiras também. Queremos fazer mais edições do BrAT, e levamos cerca de 6 a 8 meses para organizar a maratona”.

Doações feitas por empresas ajudaram a incentivar mais o público a fazer doações. Para participar da rifa e concorrer a alguns dos prêmios, era necessário doar no mínimo R$ 100 (Foto: Jessica Pinheiro)

No gancho desse tópico, Hugo comentou sobre o melhor jogador de Mega Man X3 do mundo, que lidera o placar de speedruns deste jogo. Luiz Miguel, que mora no Nordeste, também é um excelente jogador de Mega Man X, Mega Man X4 e Mega Man X5, e aparece em destaque disputando o segundo lugar em mais de uma categoria da leaderboard internacional. Ele foi trazido por um dos patrocinadores das edições anteriores, mas neste ano, como não puderam contar com a entidade, o speedrunner infelizmente ficou de fora da maratona beneficente.

Com a falta de alguns runners, um dos membros da comunidade até mesmo decidiu que iria aprender Pokémon X em um mês para conseguir preencher uma lacuna de 5 horas na programação do BrAT, fazendo desta a maior run do evento.

Apesar dos contratempos, Hugo explica que aos poucos as coisas estão se ajeitando. “Temos muitos planos e aos poucos vamos achando uma solução para cada problema que surge”. O organizador ainda brincou comentando que o que eles [os organizadores] não têm “de dinheiro, gasta-se com o tempo, conversando aqui e ali para fazer o evento acontecer”. Felizmente, todos se ajudam bastante para fazer o BrAT acontecer.

O que o futuro reserva ao BrAT

Muitas metas foram batidas na edição 2018 da maratona beneficente. Só neste ano, o valor arrecadado bateu a somatória do obtido em 2016 e 2017, e inúmeros brindes foram distribuídos aos doadores. Alguns dos incentivos que foram dados, inclusive, foram fornecidos por parceiros que surgiram de última hora para apoiar a iniciativa.

Os incentivos rifados para os doadores incluíam até mesmo consoles, entre eles um Mega Drive, um 3DS edição limitada e um Xbox (Foto: Jessica Pinheiro)

Ainda sobre os incentivos, este ano o BrAT conseguiu realizar o primeiro “save or kill the animals”, um incentivo muito comum praticado pela sua prima americana, a Games Done Quick. A prática surgiu com a run de Super Metroid, já que, no final do game, o jogador tem a opção de libertar uma jaula cheia de animais fofos e inocentes ou deixá-los para morrer em um planeta prestes a explodir. Acredite ou não, as pessoas levam a escolha a sério, e doações voltadas especificamente a este incentivo (e muitas outras mais, como escolher o nome de um protagonista e coisas do gênero) são feitas aos montes.

Para a maratona brasileira, porém, a prática foi adaptada e levada a Super Mario Odyssey, com o público escolhendo salvar ou matar os animais do Darker Side, incluindo o Yoshi e um periquito. No final, mais doações em nome de matar os animais foram feitas, e o runner atendeu a esse pedido na jogatina. Métodos de incentivos assim, além dos brindes, são ótimas formas de ampliar ainda mais a popularidade da causa.

Outra coisa bacana que pode ganhar mais espaço nas próximas edições são as participações. Neste ano, a maratona contou com Mestres de Cerimônia conhecidos dos eSports, tais como os comentaristas do CBLoL gstv, Melão, Dócil, Toboco e Skeat, que compareceram pessoalmente ao evento e leram as doações enviadas pelo público.

Fonte: Speedrun

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