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Análise | World War Z é o mais próximo que teremos de um Left 4 Dead 3

Por Rafael Rodrigues da Silva | 26 de Abril de 2019 às 10h48

Desde que Left 4 Dead 2 foi lançado em 2009, os fãs de jogos de tiro com zumbi ficaram meio órfãos de títulos que garantiam o mesmo misto de sentimentos do clássico da Valve, que te fazia, ao mesmo tempo, se sentir a pessoa mais poderosa do mundo enquanto borrava as calças cada vez que acabava a municação, pois qualquer segundo desperdiçado poderia ser a diferença entre a vida e a morte.

Provavelmente, nunca teremos um terceiro jogo da franquia de zumbis da Valve, mas nenhum outro chegou tão perto de ser um “sucessor espiritual” dela quanto World War Z.

Adaptação não-adaptada

Como o próprio nome já deixa claro, World War Z é baseado tanto no livro homônimo quanto no filme estrelado por Brad Pitt em 2013. A inspiração é dupla porque, ainda que o jogo utilize mais elementos do livro em si (apenas elementos, como o uso de um ou outro personagem que também consta no livro, mas sem reutilizar nenhum arco de história da publicação), o design das fases, dos personagens e dos zumbis é todo baseado no filme.

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Todo o visual dos cenários foi inspirado no filme de 2013, que contava com Brad Pitt como protagonista (Captura: Rafael Rodrigues/Canaltech)

Escrito por Max Brooks e publicado em 2006, o livro que originou World War Z fez muito sucesso por narrar os acontecimentos de uma suposta guerra mundial da humanidade contra zumbis de maneira bem séria e pesada, emulando narrativas biográficas sobre a Segunda Guerra Mundial. O livro ainda usa os zumbis atacando a humanidade como uma plataforma para discutir sobre o crescente isolacionismo dos Estados Unidos, a inaptidão do governo para lidar com esse tipo de crise e de como a cultura de “sobrevivencialismo” (pessoas que criam bunkers em suas casas, cheios de armas e mantimentos, por medo de que o governo tente roubar seus pertences) acabou deixando de ser paranóia e se tornou regra.

Infelizmente, o jogo não tenta discutir ou trazer qualquer tipo de discurso crítico sobre esses elementos que tanto fizeram sucesso no livro, tornando-os apenas partes da composição do cenário. E, mesmo que tenha um modo campanha, World War Z não possui nada que se possa chamar exatamente de “história”, pois a única narrativa é levar os personagens do Ponto A para o Ponto B a fim de tentar escapar da morte certa.

Left 4 Dead em terceira pessoa

A principal diferença de World War Z para Left 4 Dead fica na orientação da câmera, que utiliza um esquema de terceira pessoa na altura do ombro (parecido ao usado por jogos como Gears of War, Uncharted e o mais recente God of War) ao invés da tradicional câmera em primeira pessoa, que é o esquema mais comumente utilizado em jogos do gênero. E é justamente a câmera que ajuda a separar World War Z do jogo da Valve, já que em todos os outros sentidos ele parece trazer as evoluções esperadas em um hipotético Left 4 Dead 3.

O fato de ser em terceira pessoa é a única coisa que distancia World War Z da franquia Left 4 Dead (Captura: Rafael Rodrigues/Canaltech)

Apesar de possuir um modo campanha, não é possível dizer com certeza que esse é o modo principal de World War Z, pois ela não possui uma narrativa por si só (o objetivo de todas as fases é simplesmente chegar do Ponto A ao Ponto B), como ela não funciona do jeito que se espera de um modo com esse nome. Ao invés de o jogador ser obrigado a ir passando fases para habilitar a próxima, desde o começo todos os possíveis cenários já estão habilitados. São quatro opções de cidades (Nova York, Jerusalém, Moscou e Tóquio), cada uma com três fases diferentes, totalizando 12 mapas diferentes, que contam a história sobreviventes precisando atravessar a cidade para chegar em um lugar seguro, mas que podem ser jogadas em qualquer ordem, sem a necessidade de se terminar uma para habilitar a próxima. Isso faz com que, ainda mais do que na franquia Left 4 Dead, o foco de World War Z esteja realmente em como os jogadores irão cooperar para solucionar esses cenários, não exigindo nenhum tipo de dedicação para que eles sejam liberados.

Cada uma dessas fases deve ser jogada com quatro pessoas, mas não é obrigatório possuir uma conexão à internet para jogá-las, sendo possível se aventurar sozinho (com a IA controlando os outros personagens). Ainda que jogar com outros jogadores (principalmente com pessoas que você já conhece) seja sempre mais divertido nesse tipo de jogo, jogar sozinho não é uma experiência tão ruim, pois, ao contrário de outros jogos do tipo (como no próprio Left 4 Dead), a IA é relativamente bem programada: é comum todos os personagens controlados pelo computador se juntarem com você em uma formação onde todos ficam de costas um para o outro em áreas abertas (aumentando assim as chances de conter uma onda de zumbis) ou, quando é necessário proteger um local fechado (como uma casa), cada um deles automaticamente cuida de uma das entradas do local sem a necessidade de nenhum comando do jogador. É o tipo de coisa que faz da IA de World War Z uma das melhores de qualquer jogo do tipo.

É possível preparar suas defesas com arames farpados e até mesmo torretas automáticas (Captura: Rafael Rodrigues/Canaltech)

Dentro de cada fase, o objetivo principal é sempre o mesmo: sair do Ponto A e chegar no Ponto B como forma de garantir a segurança dos sobreviventes. Só que cada cenário, além do objetivo principal, possui diversos objetivos secundários que devem ser completados para que os personagens consigam chegar ao local desejado. Esses objetivos podem ser coisas como encontrar caixas de suprimentos, vasculhar cadáveres em busca de uma chave, ligar ventiladores para dispersar gases nocivos do ambiente ou mesmo proteger um local ou uma pessoa contra ondas de inimigos durante um determinado tempo. Essas missões trazem uma nova dinâmica para esse tipo de jogo, pois exigem que muitas vezes você tenha de ficar voltando para partes das fases pelas quais já passou, além de inserir um elemento de preparação de terreno, já que nos locais que se deve proteger há a possibilidade de se construir barricadas, cercar as entradas com arames farpado e cerca elétricas e até mesmo instalar metralhadoras de torreta automáticas para ajudá-lo na proteção dos possíveis pontos de entrada de zumbis.

E, como é de se esperar, os zumbis são o ponto principal do jogo. Inspirados nas criaturas que vemos no filme, eles são ágeis e costumam aparecer em hordas, sendo uma visão impressionante toda vez que centenas deles vêm correndo em sua direção. Nada para essas criaturas — nem mesmo paredes e cercas, nas quais eles se empilham uns nos outros para escalar. E, claro, como um jogo de videogame que se preza, esses zumbis não são todos iguais e existem algumas variedades especiais, como os Creepers (que ficam escondidos em cantos escuros e atacam quando o personagem passa por perto), os Gritadores (zumbis que gritam para chamar reforços) e o Touro (um zumbi enorme com armadura da tropa de choque da polícia que é extremamente resistente). Além disso, há ainda alguns zumbis “normais”, que são radioativos e, ao serem mortos, fazem com que qualquer jogador na área tome dano de radiação, além de atrapalhar a visão e a mira.

Em World War Z os zumbis sempre atacam em grupo, e saber usar o cenário a seu favor é a diferença entre uma batalha tranquila e a morte certa (Captura: Rafael Rodrigues/Canaltech)

Apesar de o jogo em muitos momentos exigir que o jogador se prepare para sobreviver aos desafios apresentados, essa preparação deve ser sempre feita dentro da fase, pois não há muitas opções de preparação prévia. Cada cidade possui quatro personagens diferentes que podem ser utilizados, mas todos eles são “tábula rasa”, pois, com exceção da aparência, não possuem nenhuma característica que os diferem uns dos outros. Essa diferenciação só existe ao escolher a qual classe o personagem irá pertencer. Cada uma delas possui uma especialização (como uso de armas de fogo, uso de armas brancas, uso de explosivos ou uso de itens de cura) e um equipamento inicial com o qual entrará nas fases. E essa parte de preparação inicial é talvez a parte mais “chata” de World War Z, pois é possível escolher o equipamento que se irá entrar na fase apenas no modo multiplayer, enquanto nas fases de campanha o personagem sempre começará com os equipamentos base de cada classe.

Mas, claro, os equipamentos podem ser melhorados, e é para isso que serve a quantia em dinheiro que se ganha a cada final de fase, que pode ser gasto para melhorar suas armas e conseguir mais habilidades para sua classe preferida. Mas a dedicação que o jogo não exige do jogador para habilitar as fases ele exige na melhoria dos equipamentos. Isso porque, assim como novas skills de classe (como granadas mais potentes ou menor tempo para recarregar as armas), além de gastar dinheiro para comprar essas melhorias, é necessário usar essas armas durante uma partida (não importa se no multiplayer ou em alguma fase da campanha) pois, para desbloquear essas melhorias para a compra, é necessário passar de level com o equipamento. Assim, se você quiser comprar uma espingarda mais forte, é preciso entrar em alguma fase e matar um monte de zumbis com a espingarda mais fraca para ganhar experiência com ela e desbloquear a melhoria. Além disso, a quantidade de dinheiro e de experiência ganho ao se completar uma fase não é muito grande, o que obriga o jogador a refazer diversas vezes as mesmas missões para conseguir habilitar os equipamentos mais poderosos.

Novas armas e habilidades devem ser comprados com o escasso dinheiro que é ganho ao fim de cada fase (Captura: Rafael Rodrigues/Canaltech)

Além do modo campanha, World War Z também possui um modo multiplayer de arena sem grandes novidades. A única parte digna de nota é o modo Swarm Deathmatch, que é um modo “deathmatch” clássico (ou seja, diversos jogadores se matando no cenário), mas que, no meio da ação, libera algumas hordas de zumbis no mapa, fazendo com que os jogadores tenham de, temporariamente, parar de se matar e começar a cooperarem para sobreviver, o que cria uma dinâmica totalmente diferente às partidas de qualquer jogo do gênero.

O Left 4 Dead 3 que nunca teremos

Ainda que tenha seus problemas e não possua elementos para segurar quem não é lá muito fã de jogos de tiro com zumbis durante muito tempo, World War Z é talvez o mais próximo que teremos de um sucessor da franquia Left 4 Dead, garantindo a mesma sensação dos clássicos jogos da Valve e sendo uma das mais divertidas opções atuais para se jogar com os amigos sem muito compromisso.

E mesmo que poucos jogadores terão o nível de dedicação exigida para liberar todas as armas do jogo, a diversão dele não é diminuída em nada pelo fato de não estar usando a pistola mais forte.

World War Z está disponível para PC, PlayStation 4 e Xbox One. No Canaltech, o jogo foi analisado no PS4 com cópia gentilmente cedida pela Saber Interactive.

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