Análise | No Heroes Here tem nível dos melhores party games atuais

Se há uma tendência forte no mercado de games atualmente é a de que as experiências precisam ser cada vez mais sociais e constantemente coletivas. Os títulos com maior número de jogadores da atualidade envolvem um forte multiplayer, seja em battle royale, seja em uma simples cooperação.  

Coletivo é a palavra que define No Heroes Here. Neste título tudo cheira (e muito bem) a colaboração. A começar pela premissa: um grupo de até quatro pessoas precisa se organizar para evitar a invasão de um castelo ou forte. Um precisa produzir munição, enquanto outro fica de olho nos canhões e um terceiro carrega os itens para lá e para cá, por exemplo. O mote está explicado exatamente no título do jogo: ninguém se faz herói se não souber dividir a suas responsabilidades.

Nascido de um estúdio brasileiro, No Heroes Here diz muito sobre nossa terra, embora cite pouco de Brasil diretamente. Em um país acostumado com soluções messiânicas e a crença do herói nacional, a ideia que ninguém soluciona os problemas sozinho é quase que uma crítica social de nosso próprio povo. Mas calma, isso é uma leitura secundária e passa longe de ser o principal objetivo de No Heroes Here.

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Por se falar em Brasil, o coletivo aparece novamente no desenvolvimento do game. Ele foi criado pela Mad Mimic Interactive, empresa com sede em São Paulo. Foi também um dos vencedores do edital da SPCine, iniciativa da capital paulistana para incentivar produções culturais locais, entre elas, os games. O montante investido publicamente foi usado para a reta final de desenvolvimento do jogo em 2017.

Como produção nacional de financiamento em edital, a Mad Mimic tem uma responsabilidade a mais em entregar um bom produto, o que ela faz com bastante qualidade.

Party game

No Heroes Here é um jogo de festa. A ideia é juntar os amigos em uma noite, com diversão garantida dividindo sofá e controle. Como produto de consumo rápido, o game exige certas características para funcionar.

A primeira delas é que precisa ser simples. No Heroes Here é um game que se explica de forma muito fácil. Usando de linguagem não verbal, isso é, com mais imagens que texto em tela, o game explica de forma rápida quais são os dois ou três botões essenciais para curtir a gameplay.

Pode parecer uma característica boba, mas como o título não mira o gamer mais hardcore, usar apenas três botões faz com que até a pessoa menos experiente consiga entrar na brincadeira sem ter que olhar o tempo todo para o controle em busca de onde apertar.

A opção por imagens, no lugar de textos, também faz com que o jogo seja mais facilmente assimilável por jogadores mais novos e até por usuários de outras línguas - aliás, vale lembrar que o título está totalmente localizado em português brasileiro.

Além de simples, outra característica dos party games é que eles precisam ter rodadas rápidas. Assim, pessoas conseguem passar o controle, entrar e sair da brincadeira de forma muito orgânica. Tal característica está muito bem presente aqui.

Nooblândia

Como simplicidade é o segredo de um bom jogo de festa, No Heroes Here não pretende, nem pode ser complicado. Assim, tudo neste título é assimilado de forma muito rápida. A começar pela história.

A trama de No Heroes Here é só um pano de fundo para a diversão, o prato principal do título. No reino de Nooblândia, todos os heróis foram mortos tragicamente, o que leva o jogador a vestir a pele de pessoas comuns como padres, princesas e até o bobo da corte para defender o reino.

São 15 personagens jogáveis (Foto: Divulgação)

Tal contexto entra e sai muito rápido da frente do jogador. Tal característica até poderia ser considerada uma fragilidade do game, mas que funciona perfeitamente aqui. No Heroes Here não é sobre história, mas parceria, coletivo, amizade e diversão. Assim, pouco importa porque estamos defendendo esse castelo, desde que isso seja divertido. E, essencialmente, é muito divertido.

Os próprios desenvolvedores entendem que a trama não é o principal aqui ao escolher contar a história em uma sequência rápida de imagens estáticas, explicadas por uma legenda, sem dublagem. Ou seja, investir em aprimorar o enredo só deixaria menos tempo para desenvolver o que realmente importa aqui.

Por que tão divertido?

Uma pausa para um explicação técnica deste texto. Esta análise foi feita, sobretudo, com um grande grupo de pessoas. A ideia, para ter uma experiência mais neutra, foi reunir tanto quem joga há tempos, quanto novatos na brincadeira. O resultado de uma noite de jogos foi uma boa experiência tanto de quem já entende de games, quanto dos casuais.

A pergunta feita a todos eles no final da jogatina, portanto, foi: “o que fez disso tão divertido?”. A maioria respondeu que foi a possibilidade de ter sempre uma função de que pudesse dar conta durante as fases.

Isso quer dizer que os jogadores menos acostumados permanecem em apenas uma função, como por exemplo produzir somente munição sem parar. Enquanto os mais experientes coordenavam a jogatina, levando itens para lá e cá e chamando jogadores para os canhões. Ou seja, em certos níveis, todos se sentiram úteis dentro da gameplay, afinal não há heróis aqui.  

Outra característica citada foi a quantidade de coisas a se fazer dentro do castelo. Entregar itens, criar outros, coordenar os canhões, limpar as armas após os tiros; sempre há algo a ser feito, com maior ou menor nível de simplicidade.

Fases têm verticalidade e itens variados (Foto: Divulgação)

Por fim, para um grupo já amante de jogos como Overcooked, No Heroes Here foi um respiro considerado a altura por muitos deles.

Solitário

Contudo, nem tudo são flores no reino da Nooblândia. Tal qual a maioria dos party games, No Heroes Here derrapa exatamente no principal problema que o gênero ainda não conseguiu resolver: o modo single player.

O título tem uma história que pode ser aproveitada em apenas uma pessoa, entretanto o game não foi feito para se jogar sozinho. Caso não se tenha companhia, o jogador tem um botão em que pode alternar entre dois personagens na tela. A ideia funciona de forma honestamente boa, mas passa longe da experiência coletiva.

Isso acontece por dois motivos. Primeiro porque tira a simplicidade de No Heroes Here. Alternar entre dois personagens, enquanto realiza todas as funções necessárias para sobrevida do forte, eleva a dificuldade para outro nível.

Assim, para equilibrar o jogo, o número de inimigos e a velocidade com que eles vêm cai drasticamente. Isso cria dois ambientes muito difusos: um frenético de criação de itens e entrega para lá e cá dentro do castelo e outro letárgico lá fora, onde inimigos chegam na maior paz do mundo procurando guerra com você.

Em resumo, não foi dessa vez que um party game conseguiu resolver o problema do lobo solitário no gênero. Levando-se em conta que esta não é a proposta do título, também não é um grande problema em No Heroes Here. Aliás, vale lembrar que ele funciona com coop online também, exatamente para evitar essa solidão.

Jogo tem mais de 50 fases com características próprias (Foto: Divulgação)

Nem todo herói usa capa

Os desenvolvedores da Mad Mimic foram muito inteligentes ao escolher o escopo de No Heroes Here. Primeiro, porque permite excelência em grande parte do que o jogo faz: música, arte, jogabilidade e diversão estão muito bem pensadas neste game.

Ainda, em se propor a participar de um edital, o título não pode fugir muito do convencional. Isso acontece, pois é preciso explicar de forma sucinta e simples a uma banca julgadora, como a do SPCine, do que se trata a sua proposta. Fazer de No Heroes Here uma experiência facilmente assimilável foi um ponto importante dessa empreitada.

Assim, o game é um excelente título para quem está buscando novas experiências no gênero de party game. No Heores Here não traz nada de diferente do que tenha feito jogos como Lovers in a Dangerous Spacetime ou mesmo Overcooked. Entretanto, chega com uma experiência, se não melhor, ao menos igual que desses bons exemplos do gênero.

Para aquela noite com os amigos, é uma excelente opção para jogar na TV e tirar umas boas risadas.

No Heroes Here é um multiplayer local ou online cooperativo em até quatro pessoas, oferece 54 fases e 9 desafios, além de ter um modo hardcore para você que quer uma experiência mais desafiadora.

Ele foi lançado em 3 de outubro de 2017 para PC e chegou ao PlayStation 4 e Switch em 29 de maio de 2018.

* Esta análise foi produzida com uma versão de PlayStation 4 gentilmente cedida pela Mad Mimic Interactive.

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