Análise | Metro Exodus é previsível e pode decepcionar os fãs da franquia

Por Rafael Rodrigues da Silva | 14 de Fevereiro de 2019 às 10h40

Depois de um holocausto nuclear, tudo o que sobra são poucos sobreviventes que precisam coletar os parcos recursos existentes para sobreviver em um mundo destruído, tomado por criaturas mutantes assassinas e piscinas radioativas. Mas não, não estou falando de Fallout; as colinas verdejantes da Virgínia Ocidental ou mesmo o deserto caça-níqueis de New Vegas não são nada comparados ao frio intenso e à neve constante da Mãe Rússia. E, em Metro Exodus, somos mais uma vez lembrados que, não importa o cenário apocalíptico, ele sempre vai ser mais perigoso no país de Lenin.

Atenção: esta análise pode conter spoilers sobre personagens e o universo do jogo, mas são todos spoilers leves e que não revelam nada sobre os momentos mais críticos da narrativa, então não deverá estragar o gameplay de quem ainda não teve a oportunidade de jogar.

Sobreviventes do Metrô

Metro é uma franquia de jogos inspirada na série de livros homônima do escritor russo Dmitriy Glukhovskiy. Publicados originalmente em 2005, os livros seguem a mesma ideia das histórias da franquia Fallout, mas com um cenário bem mais atual. Ao invés de voltar 50 anos no passado e situar um apocalipse nuclear causado pela disputa entre EUA e União Soviética na Guerra Fria, a guerra nuclear que causa a destruição de Moscou ocorre em 2013 (o que se mostrou bastante visionário da parte do autor, pois foi exatamente naquele ano que começou todo o imbróglio envolvendo Rússia e Ucrânia, que culminou na recente invasão do país pelas tropas de Vladimir Putin — fato que é considerado por analistas de todo o mundo um dos principais motivos para que alguém queira declarar guerra contra o estado russo), o que obriga a população da cidade a se esconder nas linhas subterrâneas do metrô para tentar sobreviver.

Dentro do metrô, esses sobreviventes criam toda uma nova sociedade, com assentamentos que praticam agricultura (plantação de cogumelos, basicamente), comércio e até mesmo criam uma espécie de novo governo sob a terra.

Seu personagem é um dos poucos sobreviventes de uma guerra nuclear que obrigou as pessoas a viverem em locais subterrâneos (Captura: Rafael Rodrigues/Canaltech)

Assim como acontece em toda a série (tanto nos livros quanto nos jogos), o protagonista aqui mais uma vez é Artyom, um jovem soldado que não consegue acreditar que as pessoas que fugiram para o metrô são as únicas sobreviventes da guerra de 20 anos atrás. Tendo vivido toda sua vida nos corredores escuros e úmidos do metrô de Moscou, Artyom sonha com a possibilidade de um dia voltar para a superfície e ter uma vida igual a de seus pais e avós — o que o torna uma espécie de “rebelde” dentro da comunidade, que tem certeza que são os únicos vivos em todo o país e que tentar um retorno para a superfície é suicídio.

Menos terror, mais ação

Apesar de ser, basicamente, um jogo de tiro em primeira pessoa, Metro Exodus é bem diferente da maior parte dos jogos do estilo, sendo muito menos um shooter e mais um jogo de sobrevivência.

Ainda que as mecânicas de tiro sejam ótimas e bem próximas das encontradas em jogos como Call of Duty (o que é um grande avanço para a franquia, já que essa era facilmente a pior coisa de Metro 2033, primeiro jogo da série, que tinha uma jogabilidade travada e que atrapalhava muito não apenas para mirar nos inimigos, mas até mesmo andar pelos corredores do metrô), Metro Exodus ainda é, em sua essência, um jogo onde sair correndo atirando em todo mundo que nem o Rambo não é uma boa ideia.

Fora dos subterrâneos, as paisagens do jogo estão mais belas do que nunca (Captura: Rafael Rodrigues/Canaltech)

Ainda que as mecânicas de mira e tiro tenham sido muito melhoradas, o jogo continua sendo extremamente difícil, e enfrentar mais do que duas ou três pessoas numa troca de tiros é praticamente morte certa. Por isso, é importante tentar manter sempre a discrição, ter paciência e usar as sombras do ambiente para se esconder e pegar os inimigos desprevenidos. Mesmo que o jogo te ofereça diversas opções de armas customizáveis, as mecânicas de stealth ainda são o principal ponto de desequilíbrio nos conflitos, e conseguir abater a maior quantidade de inimigos sem ser notado é algo que não só aumenta suas chances de sobrevivência em combate como também no geral, pois um dos pontos mais importantes de Metro Exodus é a preservação de recursos.

Como em qualquer jogo de sobrevivência, saber economizar seus recursos é algo essencial aqui. Por estarmos em um mundo destruído, tudo é muito escasso — principalmente suprimentos necessários para a sobrevivência em conflitos, como kits médicos, munição e filtros para máscara de gás. Dificilmente esses itens são encontrados nos locais que o jogador irá explorar, e o que é achado de forma mais constante são “entulhos” que podem ser usados para criá-los — uma mecânica bem parecida com a usada em The Last of Us (para citar um jogo mais conhecido), mas que já existe desde o primeiro jogo da franquia Metro.

Assim, em alguns lugares considerados seguros, o jogador terá acesso a uma mesa que permite criar e melhorar itens como munição, filtros para máscara de gás (que são usados principalmente para atravessar locais com muita radiação), explosivos e kits de primeiro socorros. A mesa também pode ser usada para modificar suas armas (como o tipo de empunhadura, cano e o sistema de mira utilizado) e ainda limpá-las. Manter as armas limpas é uma das coisas mais importantes em Metro Exodus, pois a sujeira acumulada com o uso faz com que elas comecem a emperrar — e uma arma que emperra no meio de um tiroteio pode custar sua vida.

A mesa de fabricação é o lugar que você mais irá acessar em Metro Exodus, pois apenas lá é possível reabastecer sua munição e outros itens necessários à sobrevivência (Captura: Rafael Rodrigues/Canaltech)

A quantidade das armas existentes no jogo não é das maiores (são basicamente duas metralhadoras, duas pistolas e uma espingarda), mas a quantidade de modificações que podem ser efetuadas em cada uma delas permite criar diferentes tipos de equipamentos a partir da mesma base, bastando modificar as peças que a compõem. Por exemplo, um jogador que prefira utilizar uma abordagem mais corpo-a-corpo no combate pode modificar suas armas para aumentar o dano causado, permitindo matar qualquer inimigo com uma menor quantidade de tiros, enquanto aqueles que preferem se manter a uma distância segura podem modificá-las focando mais na estabilidade e na precisão da mira.

Além das armas de fogo, o jogador também carrega uma arma pneumática (que impulsiona o projétil não pela explosão da pólvora contida na bala, mas por um sistema de pressão a ar). Essa arma tem a vantagem de não emperrar durante os combates (já que não há a utilização de pólvora, que suja o cano), mas também necessita manutenção, pois é preciso manter a pressão de ar da arma sempre em um nível satisfatório — se ela ficar muito baixo, os projéteis não serão impulsionados com força o suficiente para causar dano.

Exodus também funciona de modo bem diferente do que os outros dois jogos da série. Dessa vez, o jogador passa bem menos tempo em corredores escuros e bem mais em áreas abertas — o que acaba diminuindo a sensação de tensão e terror constante, presente principalmente em Metro 2033, e aproximando a franquia cada vez mais de um modelo de jogo igual ao da série Fallout. Mas, ainda que haja um elemento de exploração de mapas que era menor nos jogos anteriores, não podemos falar exatamente que se trata de um jogo em “mundo aberto”. Isso porque o jogo não se passa em apenas um único local, mas segue um modelo típico de filmes como Férias Frustradas: junto com um grupo de pessoas, o personagem viaja pelas diferentes paisagens russas em um trem; e a cada momento a viagem é interrompida por um motivo (um bloqueio na ferrovia, ou a chegada em uma base que não é necessariamente aquilo que se esperava) e somos jogados em um mapa que deve ser explorado para completar certos objetivos que permitam o prosseguimento da viagem. Assim, não há uma única grande região que deve ser explorada, mas diversas pequenas regiões em que devemos enfrentar monstros mutantes e todos os perigos que um mundo pós-nuclear nos apresenta.

As viagens de trem levarão seu personagem a diferentes cenários fora de Moscou (Captura: Rafael Rodrigues/Canaltech)

Esses perigos não são tão diferentes dos outros jogos da série — ou de qualquer obra que utiliza um cenário pós-apocalíptico nuclear, por assim dizer: monstros mutantes, locais de radiação intensa, fanáticos religiosos que acham que tudo foi uma punição de Deus por algum “pecado” que não faz sentido, gangues que sobreviveram e se tornaram canibais e, até mesmo, nazistas. A diversidade de inimigos não é um dos pontos fortes de Metro Exodus, mas o desafio de sobreviver nesse mundo é grande o suficiente para que essa falta de diversidade não se torne um problema.

Atraso no trem das ideias

Um dos elementos que tornou o primeiro título da franquia (Metro 2033) um sucesso foi não apenas o fato de ele ser um jogo de tiro com foco em sobrevivência, mas também a sua narrativa. Ao colocar os jogadores em um mundo subterrâneo e escuro onde qualquer canto pode esconder a morte, Metro 2033 utilizava ideias que não costumavam ser retratadas em jogos de videogame, como as dificuldades da vida em confinamento e o que lutar para sobreviver sem a esperança de que tudo irá melhorar um dia pode fazer com a psique das pessoas. E, infelizmente, essa preocupação com a narrativa é algo que não existe em Metro Exodus.

Ao querer aproximar o jogo do modelo que mais tem feito sucesso com o público consumidor de videogames nos últimos anos (o de jogos em mundo aberto), Metro perdeu muitas das qualidades que o tornavam único. O cenário pós-apocalíptico nuclear russo continua presente, mas a troca dos corredores fechados por áreas descampadas tirou muito da sensação de terror claustrofóbico existente nos outros títulos — pois, ainda que existam mais monstros, o fato de conseguir vê-los já ao longe acaba com qualquer tensão pelo desconhecido que era tão presente até este título.

Ainda que as melhorias técnicas sejam consideráveis, as opções narrativas tornam Exodus o jogo mais previsível de toda a franquia (Captura: Rafael Rodrigues/Canaltech)

Além disso, também é possível notar uma mudança na própria qualidade narrativa. Os diálogos já não são mais tão brilhantes e intensos como os do primeiro jogo; os personagens soam “falsos”, como se as conversas tivessem sido escritas por alguém que nunca conversou com ninguém na vida, e em diversos momentos as conversas são tão rasas e sem graça que parecem ter sido tiradas de algum jogo ruim da série Call of Duty.

O mesmo pode ser dito das escolhas para a trama: ao tirar a exploração do subterrâneo e levá-la para a superfície, percebe-se uma certa “preguiça” na condução dela, que não traz absolutamente nenhum momento de surpresa. Isso porque a história abusa dos clichês encontrados em qualquer história de “cenário pós-apocalíptico”, o que faz com que os momentos que deveriam surpreender não criem aquele efeito de “não acredito que está acontecendo isso!”, sendo mais algo na linha de “mas é claaaro que isso ia acontecer!” — o que é algo bastante frustrante, principalmente para aqueles jogadores que já jogaram Metro 2033 e sabem que a qualidade narrativa daquele jogo era de primeira linha.

Metro >>>>> abismo >>>> Fallout

Ainda que Metro Exodus possa ser considerado uma espécie de “decepção” aos fãs da saga, pois quando finalmente melhorou a qualidade dos controles houve também uma clara piora na qualidade da narrativa (custa querer ter ambos bons, hein 4A Games?), ele é, de longe, o melhor jogo de cenário apocalíptico nuclear lançado nos últimos dois anos, e certamente será uma ótima opção para todos aqueles que se sentiram traídos com Fallout 76.

Metro Exodus está disponível para PlayStation 4, PC e Xbox One. No Canaltech, o jogo foi testado no PS4 utilizando uma cópia cedida gentilmente pela Deep Silver.

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