Análise | Metal Wolf Chaos XD é vitamina de brucutu com robô gigante

Por Rafael Rodrigues da Silva | 01 de Setembro de 2019 às 11h49

Uma das desenvolvedoras mais prestigiadas da atualidade, a From Software é conhecida por ter mudado todo o panorama do cenário dos videogames desde que lançou no mercado o primeiro Dark Souls em 2011. Com a popularização do título, que se tornou uma espécie de padrão de qualidade para videogames, a empresa conseguiu criar um gênero próprio de RPGs, que é reconhecido por sua dificuldade extrema, narrativa rica, mas extremamente escondida, e que não se interessa nem um pouco em ajudar os jogadores a superar seus desafios.

Mas essa identidade é algo bastante recente — principalmente considerando que ela foi fundada em 1986 como uma companhia que desenvolvia software de produtividade para aplicações comerciais e lançou seu primeiro jogo em 1994. Durante quase duas décadas, a From Software esteve longe de ser uma das maiores desenvolvedoras do mundo e possuir um estilo próprio que seria copiado por praticamente toda uma indústria, mas era uma das centenas de empresas medianas existentes no cenário mundial conhecida por produzir jogos de robôs gigantes.

Antes de Demon’s Souls definir o futuro da From e dos videogames em geral, a companhia japonesa era mais conhecida pela franquia de jogos de mechs Armored Core, que fazia muito sucesso no Japão. Assim, antes de virar mainstream, a From Software era uma empresa muito diferente da gigante que fecha conferências ao anunciar um novo Dark Souls — e Metal Wolf Chaos XD é um belo retorno àquela época underground da empresa, quando ela só tocava em barzinhos para meia dúzia de pessoas e nem pensava em lotar estádios.

Conexão Japão/EUA

Legendas e menus em português são uma das melhorias presentes em Metal Wolf Chaos XD (Captura: Rafael Rodrigues/Canaltech)

A história do jogo começa em 2002, quando a Microsoft tentava emplacar no mercado o seu primeiro console de videogame: o Xbox. Por conta de Halo: Combat Evolved, o console estava vendendo bem nos Estados Unidos, mas ainda era completamente ignorado no Japão. Assim, a empresa entrou em contato com a From Software — que na época fazia um certo sucesso no Oriente com os jogos da série Armored Core — para desenvolver um jogo exclusivo para o Japão. O objetivo, claro, era chamar a atenção do público para o novo console. Foi assim que nasceu Metal Wolf Chaos.

Ainda que o novo título da From devesse ser exclusivo para o Japão, o fato de o Xbox ter uma ligação muito forte com a Microsoft — na época, a maior empresa estadunidense do mundo — fez com que a trama do jogo seguisse um padrão de filme de ação de Hollywood.

E é exatamente a trama um dos pontos de maior destaque do título — e que de certa forma nos faz lembrar de eventos recentes no Brasil. Aqui somos tragados para o meio de um golpe de estado, onde o vice-presidente dos Estados Unidos, com ajuda da mídia e do exército, toma o poder à força para “salvar o país”, e convence a opinião pública de que este golpe de estado é uma revolução.

Mas, ao invés de simplesmente aceitar a derrota e fugir do país para não se tornar um prisioneiro político, o presidente Michael Wilson — personagem fictício que seria um parente direto de Woodrow Wilson, o presidente responsável pela entrada dos Estados Unidos nos conflitos da Primeira Guerra Mundial — não aceita a derrota e aproveita seus últimos momentos na Casa Branca para roubar o mech (robô gigante) mais avançado que o país possui e assume para si a tarefa de salvar o país com as próprias mãos.

Michael Wilson é um personagem impressionante, pois ele é o ápice do patriotismo americano exacerbado que nos é vendido há décadas pelos filmes, séries, jogos e praticamente qualquer produto cultural do país. Na figura do presidente que não é apenas o representante, mas o salvador de uma nação (pense, por exemplo, no filme Força Aérea Um), Wilson é o herói solitário, o único que conhece a verdade e que tem as habilidades para combater uma força tirânica que não quer o bem do país e que não irá fugir deste combate mesmo que esteja sozinho — pense em qualquer filme de brucutu dos anos 80 como Rambo, Braddock, Força Delta ou Desejo de Matar, e eleve o patriotismo dos protagonistas dessas obras à décima potência. Pronto, agora você tem uma ideia do que é a persona de Michael Wilson.

Mas, ao mesmo tempo que o jogo é uma sátira das histórias de patriotismo americano exacerbado que nos são vendidas há décadas — seja na cultura do self made man, do “estilo de vida americano” e do que significa ser um patriota — a trama de Metal Wolf Chaos XD também é um chamativo para que pensemos a forma simplista com a qual nos esforçamos para enxergar o mundo. Duas narrativas parecidas, mas em espectros totalmente opostos, são mostradas aqui: enquanto o presidente Wilson se enxerga como o único salvador de um país que foi dominado pela ganância e sede por poder de um político menor, a opinião pública — ou seja, a população do país — enxerga um presidente louco que, após perder o poder, roubou o mais poderoso armamento militar do país e se tornou um verdadeiro terrorista no próprio país que havia jurado proteger, atacando os bons homens do exército que estão apenas obedecendo ordens, independentemente de quem esteja no comando.

Metal Wolf Chaos XD nos coloca no papel do presidente que busca justiça com as próprias mãos (Captura: Rafael Rodrigues/Canaltech)

Apesar de controlarmos o presidente Michael Wilson — o que faz dele o herói do jogo —, a realidade é que, ignorando a verve patriótica exacerbada do protagonista, não existe exatamente um vilão bem definido, pois cada lado da disputa se enxerga como o verdadeiro herói do país — e nenhum deles está realmente preocupado com a população que jura estar protegendo, pois quase todos os combates acontecem dentro de grandes centros urbanos, onde carros e prédios de pessoas comuns são explodidos a todo instante — o que possivelmente significa algumas centenas ou milhares de inocentes mortos a cada confronto pelo cargo de presidente.

Mas, claro, Metal Wolf Chaos XD não se aprofunda — ou ao menos se interessa por mostrar — essas questões mais complexas, sendo talvez um dos melhores “jogos de brucutu” já feitos nesse sentido: você é o salvador da pátria e ele é o inimigo, toma aqui um robô gigante cheio de armas e nem perde tempo pensando nas complicações envolvidas nisso porque você precisa SALVAR A TERRA DA LIBERDADE!!!!!!

Mechs, armas, ação

As novas texturas aplicadas pela Devolver em Metal Wolf Chaos XD fazem com que o jogo não pareça algo que foi desenvolvido no começo dos anos 2000 (Captura: Rafael Rodrigues/Canaltech)

Ao contrário dos jogos da franquia Dark Souls, Bloodborne ou Sekiro, que possuem comandos simples, mas que exigem horas de dedicação dos jogadores para se tornarem mestre nas mecânicas de jogo e aí sim conseguirem avançar, nada disso é exigido em Metal Wolf Chaos XD.

Criado em uma época anterior ao sucesso do “gênero Souls”, o jogo possui mecânicas de gameplay muito simples. A única comparação dele com a série Souls é o fato de não existir um tutorial que “te pega pela mão” e te ensina o que faz cada botão, mas depois de cinco minutos apertando os botões do controle e vendo o que cada um faz já é o suficiente para que o jogador consiga derrotar exércitos sozinho sem muita dificuldade.

É possível equipar até oito armas no mech (4 em cada braço), permitindo o uso de pistolas, rifles de assalto, espingardas e até mesmo armamentos ainda mais pesados, como lança-mísseis e lança-granadas. As mudanças de equipamentos são feitas em um menu de transição entre as fases, onde é possível não apenas equipar novas armas no mech, mas também investir o dinheiro obtido nas fases para pesquisar melhorias e desenvolver novas armas para o seu arsenal.

O gameplay é bem simples, e basicamente te colocará para atirar em tudo o que se mexe no cenário (Captura: Rafael Rodrigues/Canaltech)

As fases em si pouco trazem de novo, e são basicamente “labirintos” onde o objetivo é andar, atirar em tudo que se move, destruir alguns pontos específicos do mapa e então derrotar o chefão da fase para poder avançar para a próxima. Ainda que alguns desses chefões possam ser um pouco difíceis, eles nem de longe se assemelham à dificuldade presente em Dark Souls, o que é um alento para aqueles que, por mais que tentem, não possuem paciência e disciplina para jogos desse gênero.

Talvez um dos maiores problemas de Metal Wolf Chaos XD seja o fato de ele ainda ser um jogo do primeiro Xbox. Ainda que a versão remasterizada traga algumas melhorias — como resolução maior, texturas e efeitos visuais atualizados e algumas pequenas mais relevantes melhorias do gameplay que tornam a movimentação menos travada, o que faz com que o jogo pareça que tenha sido desenvolvido para a atual geração de videogames e não está sendo rodado por um emulador —, ele ainda é um jogo muito simples e não possui as complexidades que se espera de qualquer título lançado para os videogames atuais. Assim, mesmo com todas as melhorias que fazem com que ele não se pareça com um jogo de 15 anos atrás, ao jogá-lo ainda fica claro que se trata de um título “da época do PS2” e possui diversas limitações que podem torná-lo pouco atrativo para quem espera uma experiência mais próxima aos dos jogos atuais.

Volta às origens

Mais do que um mergulho no passado recente, Metal Wolf Chaos XD é uma viagem às origens de uma das mais importantes desenvolvedoras de jogos da última década e nos ajuda a entender o quanto a From Software evoluiu desde a época que ela fazia jogos de robôs gigantes. Mas, ainda que a criação do “gênero Souls” tenha mudado a história da empresa, muitos fãs mais antigos não conseguiram acompanhar essa evolução, e Metal Wolf Chaos XD é uma ótima alternativa para os viúvos de Armored Core que sofrem com a falta de jogos de robô gigante decentes.

Metal Wolf Chaos XD está disponível para PlayStation 4, Xbox One e PC. No Canaltech, o jogo foi testado na versão para o PS4 com uma cópia fornecida gentilmente pela Devolver Digital.

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