Análise | Manticore - Galaxy on Fire é um game mobile brincando no console

Divulgação

Diz o jornalista Jeff Ryan, em seu livro Os Bastidores da Nintendo, que a indústria dos games nasce sobre algumas perspectivas curiosas, entre elas a de olhar para o espaço. Isso se dá por dois motivos em especial. O primeiro era contextual: o mundo vivia uma corrida para colocar os pés na Lua e, claro, isso impactou a produção cultural. O segundo motivo era que reproduzir o espaço, aquele ambiente escuro com alguns pontos brancos em uma tela de baixa resolução, não era o maior desafio de todos. Nasce aí o gênero de shooter espacial, ou, como é mais conhecido no Brasil, o jogo de navinha.

A FishLabs parece conhecer muito bem essa história. Ela é uma companhia assimilada à Deep Silver em 2014 e que é responsável pela maioria das produções mobile da grande publicadora. Ela também detém o primeiro jogo apresentado em uma keynote da Apple, o Galaxy on Fire Manticore Rising.

Aliás, a série Galaxy on Fire se mostra uma das joias da empresa. A franquia nasceu com Manticore Rising lá na Apple TV em 2015. Foi transformada em um MMO, em Galaxy on Fire - Alliance, para smartphones no mesmo ano. Também recebeu a versão Galaxy on Fire 2, um shooter em mundo aberto, até chegar ao Galaxy on Fire 3, que é a versão mobile do objeto desta análise.

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Toda esta história é para dizer isto: a FishLabs tem experiência no que está fazendo. Em Manticore - Galaxy on Fire, a desenvolvedora mostra que jogou tudo que saiu sobre o gênero de navinha nos últimos anos, mas se agarra em uma história de uma franquia pouco conhecida (ao menos nos consoles) e resquícios do sucesso no mobile.

O jogador controla um piloto caçador de recompensas espacial, um personagem que se nega ajudar caso não role um pagamento. Contudo, diante de uma catástrofe que destrói a principal cidade da galáxia, ele se vê obrigado a se unir a um time pilotos a bordo da nave-mãe Manticore. Com esse enredo básico, e por vezes clichê, o jogador é lançado no universo da franquia.

Referências

As referências neste título para Switch são bastante claras. A começar por Star Fox, um jogo que nasce no Super Nintendo, mas que cria as bases da produção de nave. Em Manticore, há muito do game da raposa quando, por exemplo, não é possível controlar a rotação da asa da nave, ou seja, fazer o que Fox chamava de barrel roll. Embora seja possível colocar a nave em diagonal na tela por vez ou outra, o jogo automaticamente realinha as asas na horizontal, dando a sensação de que há “chão” no espaço, o que também acontecia na série Star Fox.

Claro que essa é uma decisão de gameplay herdada da versão mobile da série. Em uma plataforma touch (ou seja, com restrição de movimentos), é lógico que se considere ajustar o eixo da nave. Contudo, o título agora está no Switch, munido de uma gama de controle e sensores de movimento para que isso não seja mais necessário.

A FishLabs também mergulhou no universo de Star Wars, essencialmente o Battlefront II. Manticore toma emprestado do mais recente jogo dos Jedi uma inovação que cabe muito bem ao gênero de navinha: a predição de mira. Se voltarmos a Star Fox 64, quando estávamos no multiplayer, não era raro que as partidas durassem muito. Isso acontecia, pois era muito, mas muito difícil conseguir colocar a mira no inimigo em movimento no espaço. Battlefront corrigiu isso de que forma? Bom, como uma franquia que se propõe multiplayer, o jogo adicionou uma mira que acompanha para onde o inimigo está, indicando ao jogador onde ele precisa atirar, pensando em onde ele estará quando o tiro chegar e não onde ele está agora. É uma exposição simples no HUD do jogo, mas que faz toda diferença. Manticore tem exatamente a mesma técnica de combate, é preciso atirar no círculo a frente do inimigo e não exatamente nele.

Círculo indica ao jogador onde atirar (Foto: Wagner Alves/Canaltech)

Mobile nos games

Existe um motivo muito claro pelo qual Manticore foi colocado apenas no Switch, como console, e não saiu para PlayStation 4 e Xbox One: o jogo é um título mobile brincando no parquinho dos consoles. Aqui, vale dizer que não há menosprezo pelas produções mobile, ou uma hierarquia entre elas e as feitas para consoles. Contudo, um jogo precisa ser pensado para a plataforma em que será jogado, e Manticore mostra claramente que não foi criado essencialmente para um console.

Como uma herança da franquia Galaxy nos smartphones, Manticore carrega toda sorte de adaptações de jogabilidade do mobile, sem controle. A primeira delas é a já citada automatização de eixo da nave.

Contudo, toda a arquitetura do jogo cheira a um game de smartphone - o que, novamente, não é essencialmente ruim. O problema é que isso não funciona para o Switch.

As fases são apresentadas ao jogador e quebradas em missões curtinhas, que não demoram mais do que cinco minutos para serem finalizadas. A sequência de ação é: o jogador recebe o resumo da missão (que varia entre matar alguém ou proteger uma nave), vai para o ambiente, completa a missão e pode escolher explorar a fase. Essa exploração do cenário é extremamente tediosa, mas importante para pegarmos os itens essenciais para melhorar as armas e defesas da nave.

Entretanto, essa fragmentação das missões em experiências de cinco em cinco minutos mostra uma criação mobile, que pressupõe que o jogador vai aproveitar partidas entre funções do dia a dia. Uma experiência perfeita para mobile, mas que se torna quebradiça para o console ao intercalar uma grande quantidade de loadings e diálogos.

Universo é pouco variado e mecânico (Foto: Wagner Alves/Canaltech)

Falta de carisma

Uma das principais dificuldades de se criar um jogo no universo é que o nosso espaço é um ambiente sem referencial. Como não conhecemos vida fora da Terra, também não temos referência de vida inteligente que não seja a nossa ou os animais que habitam aqui. Isso traz dois problemas diametralmente opostos: ou a criação se vê livre para fazer essencialmente o que quiser sem amarras, ou fica preso a pequenas variações do que já somos aqui na Terra. Manticore cai nesta segunda leva.

Os personagens não terráqueos são representações bastante simplórias e genéricas de extraterrestres já imaginados, geralmente humanoides. Os ambientes em que ocorrem as missões são no espaço, perto de um satélite, uma nave ou destroços de algum veículo que também não parecem algo feito no espaço e que se repetem à exaustão.

Some essa pouca variedade de personagens com a repetição de cenários e de missões e temos um jogo que essencialmente funciona para o intervalo do ônibus, entre um trabalho e outro, mas não causa uma grande impacto em quem busca uma experiência mais profunda.

Compensa?

Se você é um amante do gênero, Manticore - Galaxy on Fire é muito sólido no que faz em um jogo de navinha. Traz características que foram uma evolução para os shooters do tipo, mas não avança em nada do que foi feito até então (o que também não é uma obrigação). É competente na produção de um jogo que funciona no gênero.

Contudo, peca ao considerar o Switch uma plataforma mobile, pegando emprestadas características que funcionaram para as versões mobile e repensando tão pouco do que poderia ser mais adaptado para o console. Isso cria uma sensação de falta de polidez em um jogo que é essencialmente bem finalizado, mas para smartphones, e não Switch. Por fim, é uma experiência agradável, honesta e sólida.

Manticore - Galaxy on Fire está disponível para Switch e foi lançado em 19 de abril. É desenvolvido pela FishLabs e publicado pela Deep Silver. Esta análise foi feita com uma cópia para Switch gentilmente ao Canaltech cedida pela Deep Silver.

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