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Análise | A Plague Tale: Innocence é trama linear no pior momento da história

Por Felipe Demartini | 13 de Maio de 2019 às 20h00

Quantas vezes você já ouviu uma frase de espanto de um amigo ou familiar, principalmente aqueles não inteirados em nosso mundo, de que um determinado jogo se parece com um filme? Muitas vezes, não se trata apenas de gráficos fotorrealistas, mas também de estilo, com a junção entre as técnicas narrativas do cinema com a interatividade dos games se tornando, primeiro, uma tendência, e agora algo corriqueiro nessa indústria.

Estamos falando, por outro lado, de duas expertises diferentes, que precisam ser dominadas por aqueles que se arriscarem a utilizar essa intersecção. Para contar uma história, necessitamos de diálogos, fotografia e um roteiro bem escrito, mas, afinal de contas, estamos falando de um game e as pessoas querem, efetivamente, jogar, não ficar apenas assistindo. Visto de fora, pode parecer óbvio, mas esta é uma balança complicada de manter o nível.

Em A Plague Tale: Innocence o mundo destruído pela guerra e pela peste é visto pela perspectiva dos irmãos Amicia e Hugo (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

A Plague Tale: Innocence chega para encarar esse desafio e contar uma história pesada, situada em um dos períodos mais negros da humanidade. Estamos no século XIV, no auge da Guerra dos Cem Anos e da Peste Negra, que dizimou boa parte da população da Europa. O contato direto com essas duas realidades terríveis é feito a partir da trama pessoal de Amicia e Hugo, que testemunham a morte de seus pais pelas mãos da Inquisição e precisam fugir por suas vidas.

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É um enredo devastador, potencializado pelo belíssimo trabalho de fotografia e iluminação do jogo. São muitas as cenas que impressionam pela beleza e também pela tristeza e devastação da realidade nua e crua mostrada ali. A Plague Tale: Innocence pega o jogador pelo pescoço, usando o poder de suas imagens como poucos games no mercado atual. Da mesma forma, pouquíssimos jogos são tão lineares e deixam tanto a desejar quando o assunto é criatividade e inventividade.

Jogabilidade rasa e linear contrasta com amplo foco narrativo e belos gráficos de A Plague Tale: Innocence (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

O game da Asobo é reto, do começo até o final, e não se faz de rogado ao pegar o jogador pela mão e leva-lo do começo ao final. Não existe espaço para desvios, manobras ou tentativas de resolver as coisas de maneiras diferentes. Até mesmo as poucas áreas abertas do título seguem um roteiro pré-definido e o jogador consegue perceber exatamente o caminho que o título deseja que ele siga.

Com isso, o desafio de A Plague Tale: Innocence é reduzido a quase zero, e o mais impressionante é que o título faz isso sem recorrer aos métodos usuais de linearidade, como indicadores visuais do caminho a seguir ou objetivos claríssimos por escrito. No lugar desses estão ratos assassinos nas margens da rota pré-definida, soldados sanguinários que não saem do lugar para mostrar que o caminho não é por ali e, no pior de tudo, paredes invisíveis em locais nos quais os protagonistas claramente conseguiriam passar, mas os produtores não querem que eles sigam por ali.

Sempre que o jogador necessitar de uma pedra para resolver um enigma ou atacar um soldado, ele terá um saquinho no chão, ao seu lado, exatamente no ponto em que precisa fazer isso. A alquimia é uma das artimanhas de Amicia para sobreviver nessa terra arrasada, mas toda vez que essa técnica precisar ser usada, os elementos exigidos para a criação estarão ao alcance da mão.

Em A Plague Tale: Innocence, os irmãos e, agora, órfãos, deixam o conforto de seu palácio para encontrarem uma terra arrasada (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Quem sair da rota, com certeza vai morrer. Caso os irmãos sejam vistos por um soldado, nem adianta correr, apesar de isso ser possível, pois os inquisidores são mais rápidos e, claro, muito mais fortes que Amicia e o menino Hugo. Encostar no mar de ratos também transforma os dois, bem como outros NPCs aliados, um almoço para os portadores da praga, com absolutamente tudo no mundo matando com um único ataque.

A jogabilidade de A Plague Tale: Innocence acaba consistindo em, basicamente, andar para frente. Todas as engrenagens que fazem esse mundo funcionar estão expostas, enquanto algumas mecânicas, como a que permite melhorar os equipamentos, estão ali apenas para constar, sem terem eficácia real no título. É perfeitamente possível ir do começo ao fim sem realizar nenhum upgrade, e isso não tornará a experiência mais difícil de maneira significativa. Há apenas um caminho certo, enquanto todos os outros são errados, não importando o que aconteça.

Estamos falando de um jogo, então elementos de gameplay precários desse jeito depõem grandemente contra o produto final. Da mesma forma em que é possível ver o motor de A Plague Tale: Innocence funcionando de maneira clara, também fica cristalino o fato de a produtora ter se focado muito mais em contar uma história do que permitir que ela fosse jogada. O enredo é a maior força do game e, mesmo com a jogabilidade linear, é plenamente capaz de manter o jogador focado.

A vontade, na maioria do tempo, é de estender a mão e ajudar fisicamente Amicia e Hugo, algo que, na realidade, acaba potencializando a sensação de impotência proporcionada pelo gameplay linear (e que nos faz cogitar, até, que esse aspecto foi pensado justamente para isso). Os dois estão em uma situação das piores possíveis, em um dos períodos mais negros da humanidade e, por mais que tenham ajuda durante boa parte de sua jornada, sabem que podem contar apenas um com o outro para sobreviver.

Em sua narrativa, A Plague Tale: Innocence também passa longe de títulos em que contamos com companions infantis. Hugo não é aquela criança tradicional dos games, chata, indefesa e simplesmente incapaz, contando com uma inteligência artificial que acompanha adequadamente os movimentos do jogador sem se transformar em um estorvo. Os dois passam a maior parte do tempo juntos, e isso ajuda nesse sentido, mas mesmo nos momentos em que é preciso enviar o garoto para fazer algo, o sistema funciona direito.

Apesar da jogabilidade nada criativa, A Plague Tale: Innocence cativa e choca por sua história e belos visuais (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

O mesmo nem sempre pode ser dito quanto a outros aliados controlados pela IA, que nem sempre acompanham o jogador e podem apresentar movimentos erráticos. Os soldados possuem rotas claramente pré-definidas, mas eventualmente também podem apresentar alguns pequenos problemas na programação. Devido à já citada vulnerabilidade dos protagonistas e ao claro caminho que precisa ser seguido, novamente, é preciso tentar de novo quando algo sai do lugar, mesmo que isso não seja um resultado direto de uma ação do jogador.

Cada incômodo com a jogabilidade acaba sendo seguido por uma cena de encher os olhos, muitas vezes de lágrimas, enquanto Amicia e Hugo passam pelo que definitivamente é o momento mais horrível de suas vidas. A busca por salvação os leva ao centro da crueldade e do desespero da humanidade em um de seus períodos mais críticos. É uma época em que, literalmente, é cada um por si, e muitas vezes, em termos de ameaça e destruição, é difícil distinguir uma pessoa de um rato sanguinário. A inocência do subtítulo simplesmente não tem lugar aqui.

A Plague Tale: Innocence foi testado no PlayStation 4 em cópia digital gentilmente cedida ao Canaltech pela Focus Home Interactive.

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