Análise: Bioshock Infinite leva fãs às alturas e reinventa série com maestria

Por Rafael Romer | 16 de Abril de 2013 às 12h45

Lançado em 2007, o primeiro Bioshock chegou em um ano em que as prateleiras estavam infestadas de boas opções no gênero de primeira pessoa. Ao lado de Portal, Crysis e Call of Duty 4, o game trouxe novidades para um gênero antes estagnado. Combinando elementos steampunk e de ficção científica ao cenário sombrio da Rapture, o jogo foi capaz de fornecer um ambiente imersivo com narrativa envolvente e história complexa. Três anos depois, o sucesso se repetiu com o lançamento de Bioshock 2, que além de trazer novidades no gameplay, aprofundou ainda mais a história do universo de Rapture.

Com Bioshock Infinite, que chegou para os consoles nesta sexta-feira (12), a desenvolvedora Irrational não enfrenta só o desafio de dar continuidade ao sucesso da franquia, mas também o de revolucionar mais uma vez o gênero de FPS, tudo sem deixar de lado as marcas que atraíram as legiões de fãs do game.

Bioshock Infinite

Um novo Éden

À essa altura, todos já sabem da tão esperada mudança de ambiente na série, que abandonou a decrépita e distópica cidade subaquática de Rapture e ocupou uma mística cidade flutuante. E este é o primeiro grande impacto visual da aventura.

Idealizada e criada pelo profeta Zachary Comstock para ser um "novo Éden" e o símbolo itinerante do ideal "excepcionalista" que regeu a mentalidade norte-americana no começo do século XX, a cidade voadora de Columbia se separa dos Estados Unidos após um incidente ocorrido durante a Guerra dos Boxers, na China, e já é uma nação independente quando o jogo tem início.

No contexto da série, a "ilha voadora" é uma antítese de sua "irmã" enterrada no Atlântico Norte. Enquanto explorávamos uma cidade fundamentalmente morta nos títulos anteriores, em Bioshock Infinite percorremos uma metrópole vibrante de recepção acalorada, musical e festiva. O desejo da Irrational em mostrar tudo isso é tão grande que os primeiros minutos do jogo se resumem a uma bela vista aérea de Columbia e uma caminhada quase turística por praças, feiras e parques. Não por menos, a ambientação fantástica da nova Columbia merece alguns momentos de atenção do jogador antes de pegar em armas e partir para o FPS.

Mas se o primeiro vislumbre da cidade é radiante, em pouco tempo a coisa muda de figura. Conforme o jogador avança na história, Columbia passa por uma lenta descida do céu ao inferno, que acontece de forma gradual, revelando um lado sombrio que marca os jogos de Bioshock.

Bioshock Infinite

Na pele do falso pastor

Tudo é vivido pelos olhos do perturbado ex-detetive americano Booker DeWitt, levado à cidade flutuante com a missão de resgatar a jovem Elizabeth, presa por Comstock em uma torre protegida por Songbird, um pássaro gigante de ferro. Em troca do serviço é oferecido a Booker o perdão de todas suas dívidas. Durante a aventura vemos que, diferente dos protagonistas anteriores - e da grande parte dos personagens de FPS -, Booker não é um Rambo silencioso. Muito pelo contrário, a todo momento o personagem faz comentários que vão do sarcasmo ao piegas, conforme o personagem conhece a fundo o que há por trás de toda beleza, harmonia e fanatismo religioso de Columbia.

Por trás do "Éden", a cidade abriga um sem número de cidadãos considerados de "segunda classe" pela elite xenofóbica e branca, como imigrantes negros e irlandeses. Algo muito parecido com os fatos ilustrados em Gangues de Nova York.

São essas pessoas os protagonistas do principal movimento de luta de classes contra Comstock, os Vox Populi, que também desempenham um papel importante na trama de Infinite. Aliás, neste ponto o jogo evade o mundo do entretenimento e faz forte crítica à própria sociedade norte-americana do século XX, que é, de certa forma, representada através de Columbia.

A história de Infinite também permanece tão envolvente quanto as de seus antecessores e é um dos pontos mais altos do jogo. Contada, em sua maior parte, através dos Voxphones espalhados pelas diversas áreas de Columbia, ela realmente vale o investimento do jogador para explorar ao máximo o mundo construído pela Irrational - e, principalmente, para ajudar na compreensão do final.

Outra parte deslumbrante que ajuda na imersão do jogador é a fantástica trilha sonora, que reúne tanto faixas compostas para o próprio título, quanto músicas de diferentes gêneros, visitando faixas como o hino gospel do começo do século passado, Will the Circle Be Unbroken, Lacrimosa, do Réquiem de Mozart, e clássicos do Rock, como Fortunate Son, da banda Creedence Clearwater.

Vigores, munições, ganchos e magnetismo

Conforme Booker avança com Elizabeth na tentativa de escapar, uma legião de fanáticos religiosos fará de tudo para impedir a fuga daquela que é tida como a próxima profetisa de Columbia. A inteligência artificial destes lunáticos tem bom nível estratégico resultando em situações de pressão com cercos e até mesmo ações kamikazes.

Junto a eles, uma série de inimigos chamados de "heavy-hitters", ou "pesos pesados", serão encontrados e podem ser considerados mini-chefes. Entre eles, estão os temidos Motorized Patriots, robôs com rosto de George Washington que carregam metralhadoras do tipo "gattling", e os Handyman, uma espécie de brutamontes "ciborg" steampunk.

Para avançar, DeWitt conta com a ajuda de elementos marcantes da série Bioshock, reinventados para o universo de Columbia. Desta vez são os vigores e não os plasmídeos, os responsáveis por dar ao protagonista uma série de poderes para enfrentar os adversários. Para utilizá-los, Booker consome "Sais", que são os novos EVE de Infinite. E o personagem conta ainda com o auxílio de um escudo próprio regenerável (de maneira semelhante ao de games como Borderlands) e diversos equipamentos que podem aumentar sua capacidade bélica - que fazem o papel dos tônicos de Bioshock e Bioshock 2.

Aliás, o sistema de lutas é outra das principais mudanças para os jogadores dos antigos títulos da série. O protagonista agora só pode carregar duas armas por vez em seu inventario, sendo obrigado a deixar alguma para trás sempre que determinada situação pedir por alguma arma diferente. Se a escolha dos desenvolvedores adiciona um ponto positivo para a imersão e realismo, por outro lado pode deixar alguns jogadores irritados com o fato de terem que deixar para trás uma favorita. Mas não se preocupe, são várias as situações em que é possível pegar uma nova arma e dificilmente o jogador ficará muito tempo sem reencontrar alguma específica.

Mas a grande novidade de Infinite é o novo sistema do "skyhook", ou gancho aéreo. Este equipamento serve tanto para combate corpo a corpo quanto para se locomover nos diversos trilhos aéreos que ligam regiões de Columbia. Em combates externos (e são vários deles) os ganchos têm papel estratégico, permitindo ao jogador sair de uma situação complicada rapidamente ou mergulhar em investidas fumegantes. O sistema é bem simples e intuitivo e, após poucas tentativas, macacar nas “arvores” de metal será a diversão do jogo.

Outra mudança no combate que pende para o realismo - não que isso seja essencial em um mundo como o de Bioshock - é que kits de primeiros socorros e reservas de "mana" não podem mais ser carregados pelo jogador e usados a qualquer momento quando a coisa fica fora de controle. Isso faz com que o famoso "scavenging" (ou a exploração atrás de itens) seja muito mais importante para o jogador, já que não será mais possível se abastecer de vida e mana sempre que encontrar alguma máquina de venda.

Bioshock Infinite

Elizabeth, sua linda!

É exatamente no momento da exploração e da condução do enredo que entra a figura mais importante da trama de Bioshock Infinite, uma das personagens mais deslumbrantes já criadas em um vídeo game. Elizabeth é uma peça rara, uma joia, que todos os desenvolvedores buscam criar. Uma personagem coadjuvante com ar de protagonista, envolvente e com atributos que contribuem tanto para o enredo quanto jogabilidade.

Em momento algum ela age apenas como uma companheira inativa, como a irritante Ashley, de Resident Evil 4. Elizabeth sabe se cuidar sozinha. Em momento algum ela precisará de uma babá - o que pode ocorrer, na verdade, é exatamente o contrário.

Durante as cenas de combate e até mesmo em situações de exploração, a personagem vasculha tudo ao redor, buscando por informações, itens, sais, dinheiro e munição para jogar a DeWitt em diversas oportunidades. Ela é ainda responsável por destrancar diversas portas e cofres que só podem ser abertos com lockpicks encontrados durante o jogo.

Elizabeth também é responsável pela criação de "fendas" dimensionais em diversas situações do jogo. As fendas agem transportando, de uma realidade a outra, elementos como paredes para dar cobertura, torres automáticas para peneirar inimigos na bala e até caixas com kits de primeiros socorros e munição.

Um novo clássico?

Sim! São poucos os fatores que podem aborrecer jogadores, mas alguns ainda estão lá. O fato de poder salvar livremente o jogo e a ausência de um equivalente das antigas "Vita-Chambers", que indicavam onde o personagem iria reviver, podem fazer alguma diferença para quem gosta de jogar com um pouco mais de segurança. No combate, a repetitividade de inimigos e o arsenal pequeno e sem muita variação são pontos negativos.

Alguns pequenos glitches também aparecem, principalmente após longos períodos de jogo, como o cabelo de Elizabeth desaparecer repentinamente, ou ficar loiro, e a personagem se "teletransportar" de um lugar para outro, sem caminhar junto a DeWitt.

Mas de maneira geral, Bioshock Infinite é um game onde criticas são bem-vindas e elogios, obrigatórios. A qualidade geral do jogo e a capacidade dos desenvolvedores de reinventar um universo já consagrado, mantendo elementos memoráveis e criando um cenário fantástico, tudo aliado a um sistema de combate dinâmico faz jus ao peso que a franquia carrega. Certamente, um game que passa a fazer parte dos clássicos da indústria.

Notas:

Enredo: 95

Arte: 93

Audio: 92

Jogabilidade: 91

Conjunto: 95

Nota Final: 93

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