Documento da CIA revela que agência espionava comunicação mundial há 50 anos

Por Rafael Rodrigues da Silva | 11 de Fevereiro de 2020 às 18h14
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Uma reportagem conjunta entre o jornal The Washington Post e o canal de televisão alemão ZDF revelou uma trama que parece saída diretamente de um filme de espiões: durante cerca de meio século, os Estados Unidos foram os donos secretos do que era considerado mundialmente como a melhor empresa de criptografia do mundo, e ele estava lucrando milhões todos os anos para ler todas as mensagens secretas enviadas por cerca de 120 países.

A história começa com a Crypto AG, uma companhia suíça que iniciou suas atividades desenvolvendo máquinas para o exército dos Estados Unidos que permitiam uma comunicação totalmente criptografada entre as tropas na Europa e o comando de guerra em Washington D.C. A partir daí, o relacionamento entre a companhia e os Estados Unidos sempre foi bastante estreito, e durante o período da Guerra Fria a CIA fez uma parceria com a BND (o braço de espionagem da Alemanha Ocidental) para que todos os aparelhos de criptografia vendidos pela Crypto AG tivessem uma “backdoor” que daria tanto aos Estados Unidos quanto à Alemanha total acesso às mensagens enviadas por esses dispositivos.

Além disso, ambos os países utilizaram o crédito que tinham na comunidade internacional para vender a ideia de que a Crypto AG era a responsável por criar as melhores barreiras criptográficas do mundo, o que fez com que mais de uma centena de países se tornassem clientes da empresa suíça — e, assim, fizesse com que todas as suas comunicações secretas ficassem completamente expostas à CIA e ao BND. E, como ambas as agências eram sócias majoritárias secretas da Crypto AG, o lucro obtido pela companhia pela venda de equipamentos era dividido entre ambas as agências de espionagem, e revertido para outras operações. De acordo com o próprio relatório da CIA, esse esquema era o golpe de inteligência perfeito, pois a agência não apenas tinha o acesso irrestrito às comunicações internacionais de diversos países do mundo (incluindo alguns na lista de inimigos dos Estados Unidos), como ainda era paga para isso.

Essa operação, que inicialmente foi chamada pela CIA de “Thesaurus”, mas que anos depois teve o nome mudado para “Rubicon”, permitiu que a CIA tivesse o acesso irrestrito a todas as mensagens secretas enviadas por cerca de 120 países durante praticamente toda as décadas de 1970, 1980 e 1990, e foi desse monitoramento que o governo dos Estados Unidos obteve informações sobre a crise dos reféns americanos no Irã em 1979, descobriu que foram oficiais do exército da Líbia os responsáveis pelo bombardeio de uma discoteca de Berlim em 1986, e passou para a Inglaterra informações sobre toda a movimentação do exército argentino durante a Guerra das Malvinas.

O programa só não foi um sucesso maior porque tanto a China quanto a União Soviética se recusaram a fechar contratos com a Crypto AG, desconfiadas das relações que a empresa tinha com o governo dos Estados Unidos desde a Segunda Guerra. Mas, mesmo assim, os espiões americanos conseguiram usar o programa para obter uma grande gama de informações sobre o que acontecia nesses países através de mensagens enviadas por aliados deles, que muitas vezes não acatavam à sugestão e acabavam contratando a Crypto por conta de sua comprovada qualidade nas encriptações.

Claro, toda essa operação não ocorreu sem a desconfiança internacional, e durante todo esse período a operação quase foi exposta em mais de uma oportunidade. No começo da década de 1990 o risco era tão grande que a BND resolveu sair do esquema, o que fez com que toda a operação da Crypto ficasse nas mãos somente da CIA. O esquema continuou funcionando bem até os anos 2000, quando o advento dos smartphones acabou tornando a empresa praticamente irrelevante, pois qualquer pessoa poderia ter um criptografia de qualidade nos próprios celulares pessoais com os apps de mensagens corretos, não sendo mais necessário efetuar a compra de um aparelho apenas para esse tipo de comunicação.

A marca foi vendida em 2018 para Andreas Linde, goleiro reserva da seleção de futebol da Suécia e que atualmente joga pelo Molde (time norueguês da cidade de mesmo nome) e, de acordo com um comunicado oficial em seu site, a atual empresa não possui qualquer tipo de ligação com a que durante décadas foi comandada pela CIA (a nova companhia manteve a marca que já era conhecida no mercado de criptografia, mas mudou todo o corpo de diretores e gerentes) e alega não ter sido avisada sobre qualquer conexão com a CIA e o BND durante o período de aquisição.

Além de espionar durante décadas as mensagens secretas de outros países, a Operação Rubicon foi também o berço da NSA, a agência de segurança digital que, em 2013, foi exposta pelo ex-analista Edward Snowden por tentar fazer o mesmo tipo de monitoramento de mensagens secretas do mundo todo através da internet. Desde que Snowden expôs toda a operação, o governo dos Estados Unidos publicamente extinguiu a NSA mas, de acordo com o que diversas fontes anônimas já revelaram para a imprensa ao longo dos anos, ela continua operando com outro nome sob a tutela da CIA — e deixa claro que os Estados Unidos estão prontos para condenar qualquer pessoa pega utilizando a internet para compartilhar segredos de estado (como o caso da filha do presidente da Huawei) porque eles acreditam que essa é uma prática exclusiva das agências de inteligência do país.

Fonte: The Washington Post

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