Viagem para Marte | Como astronautas deverão ser tratados caso fiquem doentes?

Viagem para Marte | Como astronautas deverão ser tratados caso fiquem doentes?

Por Fidel Forato | 13 de Fevereiro de 2021 às 15h00
NASA/Pat Rawlings, SAIC

Para os primeiros humanos chegarem ao Planeta Vermelho, existe um longo percurso, e tecnologias estão em desenvolvimento para permitir essa viagem ainda inédita. Hoje, pesquisadores e cientistas desenham, testam e constroem inúmeras soluções para as necessidades humanas em Marte, inclusive como tratar os astronautas, caso fiquem doentes. Por enquanto, não existem planos de uma "farmácia marciana", mas a ideia é o cultivo de uma "horta de remédios".

Desde 2017, um projeto de pesquisa da NASA busca alterativas para o eventual tratamento de astronautas que podem adoecer em Marte. Para essa missão, a agência espacial norte-americana fundou o Centro de Utilização da Engenharia Biológica no Espaço (Cubes). Especialistas da área concordam que desenvolver estratégias para cuidar da saúde de uma tripulação é tão importante quanto prover os astronautas de oxigênio ou de comida.

Para Marte ser habitável, cientistas pensam formas de produzir medicamentos de forma local (Imagem: Reprodução/ ESA /DLR /FU Berlin /Bill Dunford)

É viável levar remédios para Marte?

Talvez, a ideia mais simples seja levar medicamentos da Terra para Marte. No entanto, os astronautas não saberiam, com antecedência, todas as doenças que poderiam desenvolver no planeta vermelho. Outro porém aqui são os altos custos de se transportar uma "imensidão" de medicamentos entre os planetas. Afinal, seria necessário despachar todos os tipos de remédio conhecidos pela humanidade e em altas quantidades para garantir que o tratamento fosse viável, caso toda a tripulação necessitasse. Essa carga extra ocuparia um espaço significativo na espaçonave, sem nenhuma garantia de uso, já que são produtos perecíveis e, em algum momento, seriam descartados.

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Por outro lado, os astronautas não poderiam depender de remessas enviadas da Terra, de acordo com a necessidade de cada paciente. Isso porque a viagem é longa entre os planetas e o tempo poderia ser fatal para o tratamento de alguma doença mais grave. Por exemplo, o rover Perseverance foi enviado no dia 30 de julho de 2020 e só chegará na próxima quinta-feira (18), ou seja, mais de 200 dias depois. Em outras palavras, não é viável aguardar tanto tempo por medicamentos ou suprimentos urgentes.

Para tratar doentes em Marte, enviar intermináveis lotes de medicamento não é uma opção (Imagem: Reprodução/ Christina Victoria/ Unsplash)

Fabricação de remédios sob demanda

No lugar de manter um estoque finito e caro de medicamentos, os cientistas do Cubes tentam viabilizar a ideia de que os próprios astronautas possam fabricar os medicamentos em Marte. Para isso, a equipe foca seus esforços no estudo da biologia sintética, um campo científico que procura "construir" novos organismos biológicos sob demanda. “Se pudéssemos construir algo que pudesse ser cultivado, essencialmente, como uma fábrica [de remédios], poderíamos reduzir os custos e aumentar a eficiência e resiliência quando você [estiver em Marte]”, explicou Adam Arkin, diretor do CUBES, para a revista Astornomy.

Parte das iniciativas do CUBES, a Food and Pharmaceuticals Synthesis Division (FPSD) está explorando métodos para melhor aproveitar organismos editados geneticamente para a produção farmacêutica. Por exemplo, sementes de uma planta modificada e que pode produzir uma molécula chave para um medicamento. Nesse caso, as sementes seriam enviadas para espaçonave e, quando a colônia estivesse estabelecida, elas seriam cultivadas.

Em Marte, a solução para tratar astronautas doentes pode estar no alface (Imagem: Reprodução/ Mutia Rahmah/ Unsplash)

Quanto ao uso do potencial terapêutico, poderia ser feito de duas formas: o consumo do próprio vegetal in natura; ou a partir da extração do componente medicinal e a posterior formulação de um medicamento. Para desenvolver essas sementes especiais, a FPSD utiliza uma bactéria, conhecida pelo nome de Agrobacterium tumefaciens, que introduz um novo gene na planta, ou seja, edita o DNA vegetal para quele el produza uma proteína terapêutica. Além dessa técnica, outros métodos podem ser adotados pelos cientistas.

“Quando você está falando sobre biologia sintética, uma das coisas poderosas sobre ela é que você pode sintetizar o DNA para uma variedade de propósitos [incluindo os terapêuticos]. Então, desenvolver uma forma de síntese de genes no planeta, penso que seria uma ferramenta muito valiosa”, explica Karen McDonald, chefe do FPSD e professora de engenharia química na Universidade da Califórnia.

Verduras como remédio?

Por enquanto, um dos principais projetos da divisão é produzir proteínas, potencialmente terapêuticas, a partir de um pé de alface, cultivado em Marte. A ideia é que uma molécula introduzida em seu código genético possa auxiliar, como um remédio, no tratamento da osteopenia e da osteoporose. Além dele, a equipe procura outras verduras, como o espinafre, como plataformas potenciais para o desenvolvimento de drogas.

Uma pergunta válida é o porquê de se optar pelo uso de alface e de outras verduras. De acordo com os cientistas, esses vegetais apresentam um bom índice de colheita, ou seja, a maior parte das plantas cultivadas podem ser consumidas como alimento — e em uma missão espacial, no futuro, como remédios. “Como engenheiros, trabalhamos com projetos de sistemas sob restrições”, comenta McDonald. “Mas as restrições com as quais estamos lidando aqui na Terra não são nada como as restrições que você pode ter em uma missão a Marte”, explica sobre os desafios de transpor esses cultivos para o planeta vermelho. Para isso, também são estudas formas de extração baratas e seguras das moléculas potencialmente terapêuticas dos vegetais.

Pode ser que, um dia nas próximas décadas, as pesquisas realizadas pelo Cubes modifiquem, radicalmente, a maneira como consumimos e cultivamos os vegetais na Terra. Com certeza, essa seria uma revolução em como a espécie humana interage com os alimentos e com a natureza, mas ainda são necessários muitos estudos científicos para que isso aconteça.

Fonte: Astronomy.com  

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