Usar armas nucleares para aquecer Marte seria uma boa ideia?

Por Patrícia Gnipper | 16 de Setembro de 2019 às 07h43
Getty

Um tema que vem sendo debatido por entusiastas da exploração espacial nos últimos tempos é a ideia de bombardear Marte com armas nucleares para aquecer o planeta a ponto de torná-lo relativamente confortável aos futuros exploradores humanos. Elon Musk, CEO da SpaceX, se mostrou um defensor desta ideia, falando várias vezes em seu Twitter sobre "nuke Mars" — "nuke" é uma abreviação de "nuclear weapon", que significa "arma nuclear".

Essa ideia vem sendo explorada por Musk desde 2015, na verdade, quando ele explicou durante uma entrevista na televisão norte-americana que a vaporização das calotas de gelo em Marte seria uma boa maneira de aquecer o planeta o suficiente para que humanos vivessem ali.

Desde então, o CEO da SpaceX vez ou outra fala no assunto de novo por aí, em especial em seu Twitter — e recentemente o fez de novo, quando falou sobre "nuke Mars" no sentido de "criar sóis artificiais", mas garantindo que isso não tornaria Marte mais radioativo.

Em outro tweet, ele segue dizendo que "precisamos descobrir a maneira mais eficaz de converter massa em energia, pois Marte está um pouco distante do reator de fusão do Sistema Solar (o Sol)", ao responder a um seguidor que o questionou sobre riscos associados a uma terraformação marciana por meio de bombas nucleares.

Spoiler: não é uma boa ideia

Assim poderia ser a aparência de uma Marte terraformada

Phil Plait, astrônomo do blog Bad Astronomy, refletiu a respeito da ideia de "nuke Mars" e, dando um spoiler, bombardear Marte com armas nucleares para aquecer o planeta não é uma boa ideia. Ele começa sua reflexão lembrando que, de todos os planetas do Sistema Solar, Marte é o mais parecido com a Terra quando se pensa na capacidade de habitabilidade, enquanto Vênus é o mais próximo de nós em termos de tamanho e massa. Mas Marte tem apenas 0,6% da pressão atmosférica da Terra e, portanto, permanecer em sua superfície sem um traje pressurizado seria o equivalente a respirar 30 km acima da superfície da Terra, e essa pessoa sufocaria antes de congelar até a morte nas temperaturas geladas do Planeta Vermelho.

Agora vem a questão de como aquecer Marte e resolver parte do problema: o planeta tem calotas polares onde há boa concentração de dióxido de carbono (CO2) e vapor de água (H2O), então descongelar as calotas polares para liberar essas substâncias, criando um efeito estufa, liberaria CO2 e H2O suficientes para tornar Marte habitável? A ideia (defendida por Elon Musk por meio de bombas nucleares) parece interessante à primeira vista, mas Plait garante que essa é uma ideia que não é viável realisticamente falando, e nos lembra de um estudo publicado na renomada revista Nature no ano passado: os pesquisadores investigaram a quantidade de gás que precisaria ser adicionado à atmosfera marciana para que a água líquida pudesse existir em sua superfície, e onde esse gás poderia ser encontrado.

"Eles observaram que, embora o vapor de água seja um gás de efeito estufa, ele simplesmente congela de volta à atmosfera se descongelado conforme as coisas mudam. Portanto, é preciso haver dióxido de carbono suficiente liberado na atmosfera para aquecer as coisas primeiro antes que a água possa ser útil", explica Plait. Agora vem a questão relacionada à pressão atmosférica, que tem papel importante nessa ideia de aquecer Marte.

Polo norte de Marte (Foto: SA/DLR/FU Berlin, NASA)

A pressão atmosférica é medida em unidades chamadas bars, e a pressão atmosférica da Terra ao nível do mar é de 1 bar. Em unidades métricas, são aproximadamente 1 kg de ar pressionando cada centímetro quadrado da Terra. Em Marte, a pressão atual é de 6 milibares; ou seja, tem cerca de 15 gramas de CO2 por centímetro quadrado. Para chegar a 1 bar, que é a pressão necessária para sustentar a água na superfície, seria preciso cerca de 2.500 gramas por centímetro quadrado. Sendo assim, seria preciso muito CO2 para tal, algo mais de 150 vezes o que existe agora.

Então o astrônomo diz o seguinte: "Aí está o problema. Não há tanto CO2 congelado nas calotas polares de Marte. Os autores da pesquisa [da Nature] descobriram que, se você descongelar completamente as duas calotas, você adicionará apenas cerca de 9 milibares de pressão ao ar, o que ainda é de apenas 15 milibares. Isso está muito longe dos mil milibares necessários! Lembre-se, as camadas de gelo seco nas calotas são finas, com apenas alguns metros de espessura, e no verão relativo a maioria sublima (transforma-se em gás) de qualquer maneira. Obviamente, isso não ajuda muito, então descongelar as duas calotas ao mesmo tempo ainda é apenas uma gota no balde".

Plait continua, dizendo que "as calotas polares de Marte têm centenas de quilômetros de diâmetro, e seria necessário um grande número de armas detonadas para liberar todo esse CO2 (lembrando que o degelo da água não ajudaria; ela apenas congelaria novamente), e há também a questão da radiação persistente, que tornaria os polos inabitáveis ​​por séculos". Desanimador, não?

Outra ideia: desviar cometas para Marte

Talvez uma ideia melhor do que bombardear Marte com armas nucleares numa tentativa de aquecer o planeta seria desviar a rota de cometas e asteroides rumo aos polos marcianos. Na visão de Plait, "esmagar cometas nos polos é uma ideia muito melhor, já que não há radiação, e eles geralmente são compostos por quantidades substanciais de água congelada e CO2".

Só que desviar a rota de cometas e asteroides não é uma tarefa fácil, ainda que a NASA e a ESA estejam trabalhando em missões espaciais com este objetivo.

Enquanto a agência espacial dos EUA vai lançar a missão DART (Double Asteroid Redirection Test) em 2021, rumo ao asteroide Didymos e sua lua Didymoon, com o objetivo de se chocar contra a pequena lua e, assim, tentar alterar sua órbita a uma velocidade aproximada de 6 km/s, a agência espacial europeia enviará, em 2024, a missão Hera ao mesmo asteroide binário, com o objetivo de mapear a superfície dos objetos e analisar a cratera gerada pelo impacto da DART. A DART deve chegar ao destino em 2022 e a Hera o fará em 2026.

"Isso nos dará uma boa estimativa da transferência de momentum do impacto e, portanto, sua eficiência como uma técnica de deflexão", conforme explicou Michael Küppers, cientista do projeto Hera na ESA, pois "estes são parâmetros fundamentais para permitir a validação de modelos numéricos de impacto necessários para projetar futuras missões de deflexão de asteroides". Ou seja: com as duas missões, a ciência saberá se essa técnica pode mesmo ser usada para alterar a órbita de asteroides, e terá informações para prever se será eficaz em objetos maiores, também.

É que Didymos é um objeto pequenino, com apenas 780 metros de diâmetro, enquanto a lua Didymoon mede apenas 160 metros e leva só 12 horas para completar uma órbita ao redor do corpo maior. Se a NASA obtiver sucesso com a missão DART, desviando ligeiramente a órbita do corpo menor, teremos então a comprovação de que é sim possível, com as tecnologias atuais, desviar asteroides — a ideia dessas missões, na verdade, é proteger a Terra contra objetos que eventualmente podem se chocar contra nosso planeta, mas se estamos "viajando" na ideia de esmagar cometas e asteroides nos polos marcianos para aquecer o planeta, primeiro será preciso aprender como tirá-los do lugar, certo?

E se Elon Musk estiver mesmo comprometido com o aquecimento de Marte, a SpaceX poderia se beneficiar com esse conhecimento das agências espaciais no que diz respeito a alterar a órbita de objetos espaciais e, quem sabe, desistir da ideia de enviar bombas nucleares para o Planeta Vermelho.

Mas há um outro possível empecilho: Plait ressalta que seria necessário um grande número de cometas e asteroides se chocando nos polos marcianos para derreter as calotas polares. Ainda, isso também "poderia colocar muita poeira na atmosfera, o que esfriaria o planeta, e não o aqueceria" e, além disso, "o grande número de impactos que seriam necessários também mudaria drasticamente a superfície de Marte". De acordo com os autores do estudo publicado na Nature, até "poderíamos imaginar redirecionar asteroides para atingir Marte e liberar voláteis, mas a distribuição global do gás exigiria a cobertura de Marte com crateras de impacto, e, isso não é viável na prática".

Continuando essa reflexão toda, Plait diz que "o melhor que provavelmente podemos fazer é triplicar a pressão sobre Marte, e isso ainda é muito, muito aquém do que é necessário" para aquecer o planeta o suficiente a ponto de torná-lo mais habitável.

E, de qualquer maneira, os autores do estudo da Nature concluem o seguinte: "Não há CO2 suficiente em Marte em nenhum reservatório conhecido e facilmente acessível, se mobilizado e colocado na atmosfera, para produzir qualquer aumento significativo de temperatura ou pressão. Mesmo que houvesse CO2 suficiente disponível, não seria possível mobilizá-lo; fazer isso exigiria o processamento de uma grande fração da superfície para liberá-la na atmosfera, o que está além da tecnologia atual. Portanto, a terraformação de Marte não é possível no futuro previsível, utilizando os recursos de CO2 disponíveis no planeta".

Musk também pensa em satélites refletindo a luz solar

(Imagem: Zach Rogers)

Depois de muita repercussão quanto a suas ideias de bombardear Marte com bombas nucleares, o próprio Elon Musk, também no Twitter, levantou outra possibilidade: a de usar satélites que refletiriam a luz do Sol em Marte para, assim, aquecer sua superfície.

No entanto, para um aquecimento significativo, seria necessário contar com milhares de satélites refletores. Mas vamos lembrar que a SpaceX, de Musk, já começou a lançar uma constelação de satélites Starlink à órbita da Terra (com objetivo de levar internet de alta velocidade a todo o planeta), então a ideia de a empresa lançar milhares de satélites a Marte não parece tão "maluca" assim. Ainda, esse tipo de projeto poderia acontecer gradualmente (tal qual está acontecendo com o Starlink, que está enviando dezenas de satélites por lançamento até que a constelação de quase 13 mil esteja completa), então ajustes poderiam ser feitos no meio do caminho.

Bom, se a terraformação de Marte é algo viável ou não, só o futuro nos dirá. "Não estou descartando completamente essa ideia; talvez no futuro mais métodos venham à tona. Mas a ideia de caminhar em Marte com apenas uma máscara de oxigênio pode não ser viável por séculos, se é que algum dia será", encerra Plait.

Com informações de Space.com e Syfy/Bad Astronomy

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