"Toupeira" da sonda InSight encerra suas atividades de escavação em Marte

Por Danielle Cassita | 19 de Janeiro de 2021 às 17h50
NASA/JPL-Caltech

Depois de várias tentativas para enterrá-la no solo, um dos instrumentos principais da sonda InSight, em Marte, chegou ao fim de sua missão: apelidada carinhosamente de “toupeira”, essa sonda vem tentando há dois anos se enterrar no solo marciano para medir a temperatura interna do planeta. Entretanto, o solo marciano não colaborou, não fornecendo a fricção necessária para que conseguisse se enterrar na profundidade necessária — mesmo com as expectativas de que isso pudesse acontecer neste ano.

Parte do instrumento Heat Flow and Physical Properties Package (HP³), a toupeira mede cerca de 40 cm e é conectada ao lander por um fio equipado com sensores de temperatura. Esses sensores foram criados para medir o fluxo de calor do planeta, contanto que ela esteja enterrada a cerca de 3 metros de profundidade. Assim, o instrumento vem tentando se enterrar desde fevereiro de 2019 para coletar dados de temperatura e, com isso, entender o mecanismo que é responsável pela evolução e geologia de Marte.

A equipe até conseguiu afundá-la a cerca de 3 centímetros de profundidade, e resolveu fazer uma última tentativa utilizando a concha no topo do braço robótico como uma pá para escavar o solo, enterrar o instrumento, tapar o buraco e conseguir a fricção necessária — sem ela, o instrumento não consegue avançar e fica “pulando” no lugar. Além da questão da fricção, eles também foram surpresos pelo solo no local do lander, que se mostrou bem diferente daquele observado em missões anteriores.

Confira a toupeira em ação em 9 de janeiro:

No fim, mesmo depois de 500 marteladas feitas no início deste ano, não houve progresso e a equipe decidiu colocar encerrar os esforços: “o que tentamos fazer é sem precedentes, e ter a oportunidade de levar isso até onde conseguimos levar é a maior recompensa”, disse Troy Hudson, cientista e engenheiro que liderou as tentativas de enterrar a toupeira na crosta marciana. Eles tentaram também adaptar o instrumento às circunstâncias que apareceram, mas sem sucesso: “demos tudo o que tínhamos, mas Marte e nossa toupeira heróica não são compatíveis”, finaliza Tilman Spohn, principal investigador do instrumento.

Ele ressalta que, felizmente, foi possível aprender bastante e adquirir conhecimentos para futuras missões que também tentem escavar a superfície — nenhuma missão antes da InSight havia tentado se enterrar no solo marciano antes. Isso é importante porque os futuros astronautas que se aventurarem em missões no Planeta Vermelho podem precisar escavar o solo para acessar água congelada, e a subsuperfície desperta grande interesse científico devido ao potencial que tem de abrigar vida.

Além de saber mais sobre o solo no local, os engenheiros conseguiram também novos conhecimentos com a experiência de controlar o braço robótico ao utilizá-lo de formas que não faziam parte do planejamento. Agora, a bagagem será colocada em prática: a equipe tem planos para usar o braço robótico para enterrar o fio que transfere dados e energia para o lander e o sismômetro. “Estamos muito orgulhosos da nossa equipe, que trabalhou duro para inserir a toupeira do InSight mais profundamente no planeta, e foi incrível vê-los resolvendo problemas a milhões de quilômetros de distância”, disse Thomas Zurbuchen, administrador associado de ciência na NASA.

Vale lembrar que nada disso significa que a missão InSight tenha chegado ao fim, até porque a NASA decidiu estendê-la até 2022 para produzir mais dados sobre os “martemotos” (os abalos sísmicos de Marte). Como a InSight ainda tem bastante ciência a conduzir pela frente, o lander irá trabalhar com um experimento de rádio que está coletando dados para revelar se o núcleo de Marte é líquido ou sólido. Junto dos instrumentos climáticos do rover Curiosity e do Perseverance, que deverá chegar lá no mês que vem, Marte terá em breve a primeira rede meteorológica já instalada em outro planeta.

Fonte: NASA

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