Planeta anão Ceres poderia abrigar megasatélite com habitats humanos em órbita

Por Danielle Cassita | 20 de Janeiro de 2021 às 19h40
Reprodução/Rick Guidice courtesy of NASA

Ter humanos vivendo em outros planetas está cada vez mais longe de ser algo visto apenas na ficção científica — Elon Musk, CEO da SpaceX, pensa em povoar Marte com nada menos do que 1 milhão de pessoas até 2050. Apesar do Planeta Vermelho ser um forte candidato quando pensamos em novos lares para a humanidade, o astrofísico Pekka Janhunen propõe, na verdade, a construção de um habitat flutuante na órbita de Ceres, um planeta anão.

Janhunen propõe um “megasatélite” feito de milhares de naves cilíndricas de 10 km de extensão e raio de 1 km, que ficariam todas juntas em uma estrutura em forma de disco que orbitaria o planeta permanentemente; cada cilindro poderia acomodar até 50 mil pessoas, e teria gravidade e atmosfera artificiais. A ideia não é exatamente original: na década de 1970, o físico Gerard K. O’Neill propôs uma colônia espacial que seria constituída por um par de cilindros, onde cada um deles teria áreas arborizadas alternadas com janelas e espelhos para, assim, formar ciclos de dia e noite. No conceito proposto por ele, os cilindros teriam rotação em direções opostas para anular o efeito giroscópico, que dificultasse mantê-lo voltado para o Sol.

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Ceres é o maior objeto presente no cinturão de asteroides (Imagem: Reprodução/NASA)

Ceres fica no cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter, e foi escolhido tanto por ter distância média comparável àquela entre a Terra e Marte, o que tornaria a viagem mais fácil, quanto também pela forte presença do nitrogênio por lá. O astrofísico chama a atenção para o gás porque, como compõe 79% da atmosfera da Terra, seria um elemento crucial para a construção da atmosfera artificial do habitat. Como o raio de Ceres equivale a aproximadamente 1/13 do da Terra, elevadores espaciais poderiam ser usados para transferir materiais do planeta para os habitats e vice-versa. Um aspecto que preocupou Janhunen são os efeitos da baixa gravidade, que poderiam prejudicar o desenvolvimento de músculos e ossos de crianças nascidas em Marte: “portanto, procurei uma alternativa que possa fornecer gravidade semelhante à da Terra em um mundo interconectado”, disse em e-mail ao portal LiveScience.

Essa alternativa ocorreria, na prática, por meio da rotação constante em cada habitat cilíndrico: cada um deles iria completar uma rotação a cada 66 segundos, gerando a força centrífuga necessária para criar gravidade artificial. Nisso, cada cilindro poderia abrigar aproximadamente 57 mil pessoas, e eles seriam posicionados próximos dos demais por meio de ímãs — a grande vantagem aqui é a criação de pontos de interconexão, que permitem adicionar mais habitats e, assim, expandir a colônia indefinidamente. O sistema receberia luz natural refletida por grandes espelhos que iria permitir o cultivo de plantações, e as áreas urbanas dos cilindros teriam que usar luz artificial para simular ciclos de dia e noite.

No conceito proposto por O'Neill, cada habitat teria atmosfera artificial e espaços urbanos e agrícolas (Imagem: Reprodução/Reprodução/Rick Guidice courtesy of NASA)

Janhuen acredita que os primeiros humanos poderiam já partir com destino a Ceres nos próximos 15 anos e que a construção dos habitats seria finalizada 22 anos depois do início da mineração no planeta; entretanto, Manasvi Lingam, professor assistente de astrobiologia no Florida Institute of Technology levanta alguns pontos dessa empreitada que precisam de atenção. Apesar de achar que os habitats cilíndricos sejam uma alternativa plausível, ele questiona como outros elementos essenciais além do nitrogênio seriam obtidos — como o fósforo, que compõe o DNA e RNA —, já que o autor não explica isso no artigo.

Outra dificuldade envolve a tecnologia necessária para obter nitrogênio, já que seria preciso realizar mineração e, provavelmente, haveria a necessidade de utilizar uma frota de veículos autônomos mineradores e satélites. Por fim, o prazo também preocupa o professor, porque concluir a construção do conjunto de habitats em 22 anos considera um aumento exponencial no fornecimento de energia por lá, sem considerar paradas devido a imprevistos. Ele não a considera impossível, mas também não a toma como algo certo: “essa escala pode ser um limite menor sob condições ideais, mas acredito que a escala de tempo real seja bem mais longa”. O autor, por fim, propõe que trabalhos futuros sejam feitos com análises do transporte de pessoas da Terra para Ceres, junto de simulações para descobrir qual seria a órbita estável de maior altitude em torno do planeta.

O artigo com os resultados do estudo foi publicado no repositório online arXiv e ainda não foi revisado por pares.

Fonte: Live Science, Space.nss

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