O que veríamos no céu se a Terra tivesse anéis como os de Saturno?

Por Daniele Cavalcante | 06 de Novembro de 2019 às 10h29
Kevin Gill

Saturno é tido por muitos como um dos planetas mais belos e interessantes do Sistema Solar, e muito disso se deve ao fato de que ele ostenta anéis ao seu redor. Olhar para ele à distância já é de tirar o fôlego, mas já imaginou como seria ver o céu de Saturno caso fosse possível pousar em algum tipo de superfície? Ou, melhor ainda, como seria o nosso céu se a Terra tivesse anéis parecidos com os de Saturno?

Algo similar já deve ter acontecido em um passado muito longínquo, quando a Lua começou a se formar. A hipótese mais aceita sobre a formação do nosso satélite natural é de que um protoplaneta chamado Theia colidiu com a Terra, resultando em um monte de poeira e detritos rochosos na órbita do nosso planeta. Esse material ficou por ali formando um anel (ou de repente até anéis próximos uns dos outros), até tudo se aglutinar com o passar do tempo e formar a Lua. Se esse suposto anel da Terra ainda existisse, ou se por alguma outra razão novos anéis se formassem na órbita da Terra, a visão deles daqui de baixo variaria bastante: tudo dependeria da sua latitude e da direção para a qual você estivesse olhando.

Alguns artistas digitais já criaram imagens daquilo que eles imaginam que seria o céu do nosso planeta com anéis ao redor, com belos resultados para alimentar a nossa imaginação. Abaixo, você vê algumas imagens do tipo, e descobre como seria a visão do céu em diferentes regiões do planeta.

Anéis seriam rochosos

(Imagem: Kevin Gill)

No caso de Saturno, os anéis são compostos principalmente por gelo, que permanecem em estado sólido porque o planeta está muito longe do Sol, em uma região literalmente congelante. A temperatura por lá é baixa o suficiente para que o material dos anéis se mantenha estável. Como a Terra está bem mais próxima do Sol, os nossos anéis, para "sobreviver", teriam que ser compostos por rocha ou qualquer outro material que não se desfizesse com o calor solar.

Outra característica que tornaria nossos anéis diferentes dos de Saturno é a luminosidade. Os anéis saturnianos são mais luminosos por causa das propriedades reflexivas do gelo, então os anéis terrestres feitos de rocha não teriam a mesma aparência exuberante. Exemplo disso sãos os anéis de Júpiter e Netuno, que são feitos de poeira e pedaços de rocha e, portanto, pouco luminosos.

Sombras e interferências

Mesmo que anéis como os de Saturno sejam muito finos, com menos de 1 km de espessura, eles criariam uma grande sombra nas regiões mais distantes do Equador, principalmente se compostos por materiais rochosos que refletem pouca luz solar. Essa sombra percorreria lentamente do norte ao sul, e depois do sul ao norte, conforme a Terra percorre sua órbita ao redor do Sol — da mesma forma que acontece com as próprias estações do ano.

É difícil estimar quanta luz deixaríamos de receber, mas as consequências seriam catastróficas. Nos hemisférios norte e sul, haveria uma queda drástica de temperatura durante praticamente todo o inverno, atrapalhando a agricultura. Também teria efeito nas correntes marítimas e no ciclo das chuvas.

Nossos anéis também poderiam atrapalhar as atividades humanas no espaço. A Estação Espacial Internacional estaria a salvo porque ela orbita a Terra a uma distância bem mais próxima — 420 km acima do nível do mar. No entanto, os satélites geoestacionários, que ficam 36 mil km acima da superfície, não poderiam orbitar a linha do Equador.

Espetáculo noturno

Apesar de refletir pouca luz, os nossos anéis compostos por objetos rochosos ainda poderiam proporcionar uma bela vista noturna no céu. Afinal, a Lua também é feita de material rochoso e “brilha” o suficiente para a apreciarmos durante a noite — ainda que muito desse brilho seja resultado da alta reflexão do regolito, que cobre a superfície lunar.

No caso dos anéis, eles teriam um formato no céu diferente dependendo da latitude do local onde você estivesse. Por exemplo, na linha do Equador, eles passariam bem acima de nossas cabeças. O ilustrador de ficção científica Ron Miller criou imagens magníficas de como os céus da Terra apareceriam se nosso planeta tivesse anéis gigantes.

Na linha do Equador, veríamos apenas uma linha bem fina cruzando o céu (Imagem: Ron Miller)

Voltando à observação do céu a partir da linha do Equador, como os anéis da Terra estariam alinhados com essa região, veríamos apenas essa fina linha reta partindo do horizonte. Além disso, os moradores na linha do Equador sofreriam bem menos com a sombra dos anéis durante o dia.

Quanto mais longe você estivesse da linha do Equador, mais a aparência dos anéis mudaria. Eles se tornariam mais largos e, em alguns lugares, pareceriam bem próximos do horizonte. Moradores da América Central, próximos à Guatemala, teriam uma visão bem interessante dos anéis no céu.

Na América Central, os anéis seriam mais visíveis (Imagem: Ron Miller)

Já na altura dos Estados Unidos, eles ficariam mais próximos da linha do horizonte, e veríamos muito mais de sua largura. Além disso, eles poderiam ter alguma luminosidade durante o dia, também.

Na América do Norte, os anéis seriam bem mais espessos e mais próximos do horizonte (Imagem: Ron Miller)

Uma visão mais curiosa teriam os que estivessem em algum lugar da Polinésia, no Trópico de Capricórnio. O panorama de 180° abaixo dá uma ideia de como seria a visão magnífica dos anéis. A ruptura escura e ovalada no meio do anel é a sombra da Terra sobre a estrutura em sua órbita. Ao longo de todas as noites, seria possível ver essa sombra passar sobre o anel de um lado até o outro. Na imagem, é meia-noite, com a sombra em sua extensão máxima.

No Trópico de Capricórnio, a sombra da Terra apareceria nitidamente sobre os anéis durante a noite (Imagem: Ron Miller)

Por fim, no Círculo Polar Ártico, os anéis quase não seriam vistos. O brilho poderia ser perceptível, mas veríamos apenas numa pequena parte deles no céu, bem próximos da linha do horizonte. Em Nome, no Alasca, os anéis iluminam a paisagem pouco mais do que uma Lua cheia faria. No entanto, os anéis estariam sempre visíveis, de dia ou à noite, sempre exatamente no mesmo lugar.

No Círculo Polar Ártico, uma pequena parte dos anéis seriam sempre visíveis no mesmo lugar (Imagem: Ron Miller)

Ron Miller é ex-diretor de arte do Planetário Albert Einstein do Museu Nacional do Ar e Espaço, e produziu ilustrações para quase todas as revistas científicas de renome. Ele também desenhou selos postais dos EUA, traduziu obras de Jules Verne e trabalhou como ilustrador na produção de Dune e Total Recall. Também é autor de vários livros.

Vale reforçar que, apesar de ele ter usado seu conhecimento em astronomia nas ilustrações acima, elas são meramente especulativas. Ainda assim, algo bem fascinante, não é mesmo?

Fonte: Futurism, io9

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