O que veríamos no céu se a Terra tivesse anéis como os de Saturno?

O que veríamos no céu se a Terra tivesse anéis como os de Saturno?

Por Daniele Cavalcante | Editado por Patrícia Gnipper | 17 de Setembro de 2021 às 10h25
Kevin Gill/Creative Commons

Saturno, conhecido como "joia do Sistema Solar", faz bastante jus ao apelido. Se olhar para ele com telescópios simples é uma experiência de tirar o fôlego, imagine como seria ver o céu deste planeta caso pudéssemos pousar em sua superfície! Ou, melhor ainda, como seria o nosso céu se a Terra tivesse anéis parecidos com os de Saturno?

Algo relativamente similar já deve ter acontecido em um passado muito longínquo, quando a Lua começou a se formar. A hipótese mais aceita sobre a formação do nosso satélite natural é de que um protoplaneta chamado Theia colidiu com a Terra, resultando em um monte de poeira e detritos rochosos na órbita do nosso planeta. Esse material ficou por ali formando um anel, até tudo se aglutinar com o passar do tempo para formar nossa Lua.

(Imagem: Reprodução/Kevin Gill/Creative Commons)

Se esse anel hipotético ainda existisse ao redor do nosso planeta, ou se por alguma outra razão novos anéis se formassem na órbita da Terra, como seria a visão do céu para nós? Bem, isso dependeria de um fator muito importante: a latitude e a direção para a qual você estivesse olhando.

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Alguns artistas digitais já criaram imagens daquilo que eles imaginam que seria o céu do nosso planeta com anéis ao redor, com belos resultados para alimentar a nossa imaginação. Abaixo, você vê algumas dessas imagens, descobre como seria a visão do céu em diferentes regiões do planeta e confere um pouco da ciência por trás dessas possibilidades.

Anéis da Terra seriam rochosos

Em Saturno, os anéis são compostos principalmente por gelo, que permanecem em estado sólido porque o planeta está muito longe do Sol, em uma região literalmente congelante. A temperatura por lá é baixa o suficiente para que o material dos anéis se mantenha estável. Como a Terra está bem mais próxima do Sol, os nossos anéis, para "sobreviver", teriam que ser compostos por rocha ou qualquer outro material que não se desfizesse com o calor solar.

(Imagem: Reprodução/Kevin Gill/Creative Commons)

Isso não seria tão difícil, já que a colisão entre a jovem Terra e o planeta hipotético Theia teria resultado em um anel feito de destroços rochosos. Do mesmo modo, qualquer outro material que viesse em nossa direção para somar ao nosso anel terrestre imaginário — como pequenos asteroides — seria muito provavelmente rochoso.

Outra característica que tornaria nossos anéis diferentes dos de Saturno é a luminosidade. Os anéis saturnianos são mais luminosos por causa das propriedades reflexivas do gelo, então os anéis terrestres feitos de rocha não teriam a mesma aparência exuberante. Exemplo disso sãos os anéis de Júpiter e Netuno, feitos de poeira e pedaços de rocha e, portanto, pouco luminosos.

Sombras e interferências

Mesmo que anéis planetários sejam muito finos, com menos de 1 km de espessura, eles criariam na Terra uma grande sombra nas regiões mais distantes do Equador, principalmente porque seriam compostos por materiais rochosos que refletem pouca luz solar. Essa sombra percorreria lentamente do norte ao sul, e depois do sul ao norte, conforme a Terra percorre sua órbita ao redor do Sol — da mesma forma que acontece com as próprias estações do ano.

(Imagem: Reprodução/Kevin Gill/Creative Commons)

É difícil estimar quanta luz deixaríamos de receber, mas as consequências seriam catastróficas, caso os anéis se formassem nos tempos atuais (caro, se os anéis estivessem lá desde o início, teríamos nos adaptado ao cenário). Nos hemisférios norte e sul, haveria uma queda drástica de temperatura durante praticamente todo o inverno, atrapalhando a agricultura. Também teria efeito nas correntes marítimas e no ciclo das chuvas.

Nossos anéis também poderiam atrapalhar as atividades humanas no espaço. A Estação Espacial Internacional estaria a salvo porque ela orbita a Terra a uma distância bem mais próxima — 420 km acima do nível do mar. No entanto, os satélites geoestacionários, que ficam 36 mil km acima da superfície, não poderiam orbitar a linha do Equador.

Espetáculo noturno

Apesar de refletir pouca luz, os nossos anéis compostos por objetos rochosos ainda poderiam proporcionar uma bela vista noturna no céu. Afinal, a Lua também é feita de material rochoso e “brilha” o suficiente para a apreciarmos durante a noite — ainda que muito desse brilho seja resultado da alta reflexão do regolito, que cobre a superfície lunar.

No caso dos anéis, eles teriam um formato no céu diferente dependendo da latitude do local onde você estivesse. Por exemplo, na linha do Equador, eles passariam bem acima de nossas cabeças. O artista e especialista em processamento de imagens científicas Kevin Gill criou imagens magníficas de como seriam os céus da Terra, se nosso planeta tivesse anéis gigantes.

A partir do Equador, como os anéis da Terra estariam alinhados com essa região, veríamos apenas uma linha reta e totalmente vertical, partindo do horizonte e cruzando o céu até o lado oposto. Seria como se o céu estivesse dividido no meio por uma linha branca. Além disso, os moradores na linha do Equador sofreriam bem menos com a sombra dos anéis durante o dia.

(Imagem: Reprodução/Kevin Gill/Creative Commons)

Quanto mais longe você estivesse da linha do Equador, mais a aparência dos anéis mudaria. Eles se tornariam mais largos e, em alguns lugares, pareceriam bem próximos do horizonte. Moradores da América Central, próximos à Guatemala, teriam uma visão bem interessante dos anéis no céu.

Já na altura dos Estados Unidos, eles ficariam mais próximos da linha do horizonte, e veríamos muito mais de sua largura. Além disso, eles poderiam ter alguma luminosidade durante o dia, também.

Uma visão mais curiosa teriam os que estivessem em algum lugar da Polinésia, no Trópico de Capricórnio. A ruptura escura e ovalada no meio do anel, na imagem acima, é a sombra da Terra sobre o disco em sua órbita. Ao longo de todas as noites, seria possível ver essa sombra passar sobre o anel de um lado até o outro.

(Imagem: Reprodução/Kevin Gill/Creative Commons)

Por fim, no Círculo Polar Ártico, os anéis quase não seriam vistos. O brilho poderia ser perceptível, mas veríamos apenas uma pequena parte deles no céu, bem próximos da linha do horizonte. Em Nome, no Alasca, os anéis iluminam a paisagem pouco mais do que uma Lua cheia faria. No entanto, os anéis estariam sempre visíveis, de dia ou à noite, sempre exatamente no mesmo lugar.

*Esta matéria foi publicada originalmente em 06/11/2019, sendo atualizada e republicada em 17/09/2021

Fonte: Futurism, io9, Universe Today

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