O braço da Via Láctea onde vivemos pode ser mais longo do que se pensava

Por Danielle Cassita | Editado por Patrícia Gnipper | 23 de Março de 2021 às 15h20
NASA/JPL-Caltech/R. Hurt (SSC/Caltech)

Já sabemos que nossa galáxia é do tipo espiral e que possui quatro braços principais, mas, mesmo assim, ainda não está claro como esses braços são — e isso inclui o Braço de Órion, nosso lar. Em um novo estudo, duas diferentes equipes de astrônomos trabalharam com dados recentes obtidos pela missão Gaia, da Agência Espacial Europeia, e perceberam que a nossa região da espiral seja diferente do que pensávamos.

Uma das maiores dificuldades no mapeamento dos detalhes da Via Láctea é o fato de estarmos no interior dela — para entender melhor, imagine como se você estivesse dentro de um avião e quisesse descobrir qual é o modelo da aeronave somente com base no que consegue observar através das pequenas janelas. Além disso, a forma de ver a galáxia depende do que está sendo observado: alguns estudos mediram ondas de rádio, enquanto outros mapearam o hidrogênio ionizado. 

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A missão Gaia deverá realizar o mapeamento da Via Láctea mais completo de todos (Imagem: Reprodução/ESA)

Com tantos métodos diferentes sendo empregados, os estudos também trazem diferentes resultados sobre o comprimento e ângulo dos braços da Via Láctea. Felizmente, a missão Gaia está trazendo grandes contribuições para o conhecimento da nossa galáxia por meio do mapeamento de um bilhão de estrelas, que define suas posições e movimentos. Com os dados, duas equipes independentes investigaram a estrutura da espiral local. Uma delas foi liderada por Ye Xu, que junto de seus colegas, usou os dados mais recentes da missão para selecionar quase 10 mil estrelas de diferentes tipos.

Eles trabalharam com estrelas massivas e brilhantes, que têm pelo menos 20 milhões de anos e não estão muito afastadas de onde nasceram. Já a pesquisadora Eloisa Poggio e seus colegas mapearam mais de 750 mil estrelas de sequência principal, quase 700 aglomerados de estrelas recém-nascidas e quase 2 mil jovens cefeidas variáveis. Essa equipe está trabalhando com mais objetos e, por isso, consegue dados estatísticos melhores. Por outro lado, essas estrelas são mais velhas, de modo que estão mais afastadas do local em que nasceram. Assim, elas já estão mais afastadas de onde nasceram, o que resulta em uma visão mais emaranhada da estrutura. 

Mesmo com as diferenças, os estudos mostraram que o braço em questão tem de 23 mil a 25 mil anos-luz de extensão; embora ainda não esteja claro qual seria a forma dele, isso já sinaliza que seria maior do que se pensava. Com os dados, é possível que esta região seja, na verdade, uma grande estrutura espiral ou até um braço de tamanho completo. A equipe de Xu propõe que esta região está torcida na direção interna da Via Láctea, enquanto a de Poggio sugere que a estrutura siga quase uma linha reta. Para o radioastrônomo Mark Reid, o braço local pode ter uma grande abertura, o que torna ainda mais difícil de entender as partes que o formam. 

A equipe de Xu se voltou para as estrelas do tipo O e B, indicadas em vermelho, que sugerem que o braço local é maior do que se esperava e parece se inclinar para a esquerda (Imagem: Reprodução/Xu et al./Astronomy & Astrophysics 2021)

Segundo ele, “os braços espirais parecem ter se formado a partir de segmentos em diferentes ângulos”, explica. Para os astrônomos, os braços da galáxia se formaram conforme as estrelas que circulavam pelo centro galáctico começaram a se acumular em “caminhos” em espiral, parecidos com as faixas de trânsito. Muitas das estrelas nasceram ali, mas elas se moveram em algum momento — contudo, a faixa continua no lugar. 

Por outro lado, a Via Láctea pode ter passado por um cenário diferente, em que grupos de estrelas nasceram e se espalharam pelos braços, alongando-os e criando outros. Então, conforme a missão Gaia trouxer novos dados sobre a posição das estrelas na Via Láctea, os astrônomos vão poder entender melhor os detalhes da nossa região, bem como das demais que formam a galáxia.

Os artigos com os resultados dos estudos foram publicados na revista Astronomy & Astrophysics e no repositório online arXiv, este sem revisão de pares.

Fonte: Sky and Telescope

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