Nada de supernova: o brilho da estrela Betelgeuse voltou ao normal; entenda

Por Patrícia Gnipper | 28 de Fevereiro de 2020 às 11h12
ESO/L. Calçada

No final do ano passado, uma discussão tomou conta do meio científico e da mídia em geral: afinal, o que estaria acontecendo com a estrela Betelgeuse? O brilho da supergigante vermelha começou a apresentar uma redução chamativa nos meses anteriores e, por isso, iniciou-se uma especulação geral de que ela estaria, enfim, explodindo como uma supernova. Com muita discordância no meio, astrônomos diversos se concentraram em observar com ainda mais afinco o comportamento da estrela desde então e, agora, bateu-se o martelo de que Betelgeuse ainda não está virando uma supernova, pois seu brilho já voltou ao normal depois de apresentar uma série de instabilidades anormais.

Acontece que Betelgeuse é uma estrela variável semirregular, o que significa que seu brilho varia com certa periodicidade, ainda que eventualmente irregular. Supergigantes vermelhas como esta são estrelas massivas que estão nas últimas etapas de suas "vidas", consumindo seu combustível rapidamente por mais alguns milhões de anos até sua "morte". Betelgeuse possivelmente já consumiu todo o hidrogênio de seu núcleo, que passou a se contrair pela ação da gravidade. Resultado desse processo é a expansão das camadas externas da estrela, enquanto seu núcleo, quando deixar de fundir hélio, começará a fusão de elementos cada vez mais pesados, como carbono e silício, até que se torne um núcleo de ferro — este que sofrerá um gigantesco colapso, gerando uma supernova.

Isso deve acontecer em algum momento dentro dos próximos 100 mil anos, logo depois que a estrela iniciar a queima de carbono em seu núcleo e, então, progredir para a queima dos elementos mais pesados citados acima. Só que o momento exato em que isso acontecerá é incerto, pois depende de sabermos qual é estado atual da evolução de tal estrela — o que nos é um tanto quanto desconhecido, pois ainda há incertezas a seu respeito incluindo medições como massa, distância e rotação. Ainda, modelos computacionais sugerem que, se Betelgeuse tiver rotação e massa mais elevadas do que estimamos, ela pode ainda evoluir para uma supergigante azul antes de explodir, ainda assim gerando uma supernova, mas demorando muito mais tempo do que o estimado atualmente.

Hoje, Betelgeuse tem entre 8 e 8,5 milhões de anos, e seus últimos dias como uma estrela considerada jovem aconteceram cerca de 1 milhão de anos atrás. Naquela época, ela era uma estrela muito mais quente e luminosa, emitindo uma luz branco-azulada, e tinha cerca de 10 a 25 vezes a massa do Sol. Mas estrelas com massa equivalente à de Betelgeuse, apesar de "viverem" intensamente, têm uma vida útil relativamente curta — nosso Sol, por exemplo, que não é massivo o suficiente para explodir como uma supernova, tem 4,6 bilhões de anos, e ainda deverá sobreviver em seu estado atual por mais 5 bilhões de anos, aproximadamente. Betelgeuse esfriou e se tornou uma supergigante vermelha cerca de 40 mil anos atrás.

A variabilidade no brilho de Betelgeuse foi percebida pela primeira vez por pelo astrônomo britânico John Herschel em 1836 e, desde então, a comunidade científica segue observando a estrela, ansiosa pelo momento em que ela explodirá como uma supernova. Quando isso acontecer, ela brilhará no céu tanto quanto Rigel, a estrela mais brilhante da constelação de Orion e a sétima mais brilhante para nós. Mas, antes disso, a estrela terá seu brilho reduzido cada vez mais, durante o processo de colapso, até que a explosão finalmente aconteça — e, justamente por isso, a brusca redução no brilho de Betelgeuse causou tanto alarde. Seu escurecimento recente foi muito mais profundo do que qualquer outro observado anteriormente: entre setembro de 2019 e janeiro de 2020, seu brilho apresentou uma redução de 25%.

Contudo, como adiantamos no início deste texto, o brilho de Betelgeuse voltou ao normal nos últimos dias, jogando um balde de água fria em todos que estavam esperando testemunhar uma supernova. Agora, quanto aos motivos que explicam o notável escurecimento da estrela nos últimos meses, isso ainda está um tanto confuso mesmo.

As possibilidades para explicar o misterioso comportamento recente na variação de brilho de Betelgeuse estão sendo investigadas, com alguns astrônomos considerando um resfriamento na superfície da estrela como o "culpado". Outra ideia é a de que uma nuvem gigantesca de gás e poeira estaria sendo ejetada da estrela em nossa direção, pois supergigantes vermelhas comumente expelem grandes quantidades de material muito antes de se tornarem supernovas — e imagens em infravermelho já mostraram que Betelgeuse está cercada por nuvens de poeira, como esta que você vê abaixo, divulgada pelo ESO (European Southern Observatory) há alguns dias:

Obtida pelo Very Large Telescope, a foto mostra em infravermelho nuvens de poeira ao redor de Betelgeuse (Imagem: ESO/P. Kervella/M. Montargès/Eric Pantin)

Essas duas explicações são consistentes com o escurecimento registrado em Betelgeuse nos últimos meses, mas ainda é cedo para afirmar que qualquer uma das duas é a explicação definitiva. Novos estudos e mais observações ainda vão "pipocar" por aí até que este ainda misterioso episódio protagonizado pela supergigante vermelha seja desvendado.

Fonte: Science Alert, Bad Astronomy, ESO

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