Movimento afirma que o formato da Terra não é redondo nem plano: é convexo

Por Patrícia Gnipper | 03 de Abril de 2018 às 13h54
Dakila Pesquisas

O ano é 2018 e, mesmo com décadas de exploração espacial, nos permitindo ver a Terra do espaço, o movimento que defende a Terra Plana ainda tem sua expressão. Mas os chamados terraplanistas não são os únicos a rejeitar o formato redondo do nosso planeta: tem gente que acredita que a Terra é oca (havendo humanoides vivendo ali dentro, sem contato com o mundo exterior), e também existe a pesquisa Terra Convexa – cujos experimentos acabam de ser disponibilizados em um documentário.

Foram sete anos de investigações com experimentos realizados por pesquisadores brasileiros do Dakila Pesquisas, junto ao Centro Tecnológico Zigurats (CTZ), contando, ainda, com profissionais de países como os Estados Unidos, Rússia, Chile, Holanda e Espanha. Segundo o grupo, os resultados comprovam que a Terra não é esférica.

Um dos sete experimentos realizados (o geodésico), constituiu em medir distâncias entre as bases e os topos de um prédio no Rio Grande do Sul e outro no Rio Grande do Norte, usando o nível do mar como referência. Segundo Urandir de Oliveira, um dos autores do projeto, "as medidas foram iguais" e "se a Terra fosse redonda, a medida da distância entre as bases deveria ser inferior à medida das partes superiores dos prédios, porque elas estariam acompanhando a curvatura da Terra".

Participe do nosso GRUPO CANALTECH DE DESCONTOS do Whatsapp e do Facebook e garanta sempre o menor preço em suas compras de produtos de tecnologia.

Os demais testes seguiram mostrando medidas que, segundo o grupo, refutam o formato esférico do nosso planeta, pois os resultados não indicam a curvatura da superfície. Já nas águas, foram usados equipamentos de radiofrequência para verificar sua planicidade. Antenas parabólicas foram posicionadas no nível da água, estabelecendo uma comunicação de grande distância de maneira que a curvatura do planeta supostamente impediria essa comunicação.

Também foram usados telescópios refratores e refletores para supostamente comprovar que os barcos não "desaparecem" na linha do horizonte, mas, sim, que perdemos a capacidade de observá-los devido a um fenômeno óptico. O estudo também acredita que a gravidade não existe, "pois o comportamento físico das águas é o de buscar o nivelamento, ou seja, a planicidade". De acordo com Urandir, o que nos mantém firmes ao solo é a combinação de magnetismo, densidade, pressão e luz.

Indo além, esses pesquisadores sugerem que foi descoberto um novo continente, chamado de "Norte Maior", separado por uma grande massa de gelo. Os pesquisadores basearam suas pesquisas, também, na trajetória do Sol, Lua e das estrelas do céu observável, afirmando que os dados coletados por meio de câmeras e filmadoras instaladas em todos os continentes mostraram diversas anomalias que não condizem com o formato esférico da Terra, permitindo, portanto, um reposicionamento dos continentes e da geografia do planeta.

De acordo com o estudo, este seria o real formato da Terra: convexa nos continentes e plana nas águas (Imagem: Dakila Pesquisas)

O pessoal disponibilizou o documentário que mostra os resultados de seu estudo no site Terra Convexa, e um livro com a compilação da pesquisa completa será lançado em breve.

Especialista rebate a ideia da Terra Convexa

Conversamos, então, com Salvador Nogueira – jornalista de ciência e autor de 11 livros, além de ser sócio-fundador da Associação Aeroespacial Brasileira e autor do blog Mensageiro Sideral, com um canal homônimo no YouTube –, para saber como a comunidade científica está recebendo a notícia do estudo que visa comprovar que a Terra é convexa.

"O mais difícil às vezes é parar de rir", declarou, logo de cara. Ele segue a entrevista propondo uma reflexão: "vamos pensar comigo: se as medições que eles fizeram estão corretas, não seria difícil tirar uma foto de um prédio em Natal e um prédio em Porto Alegre; afinal de contas, se a distância é a mesma na base e no topo, como eles dizem, ambos estão no mesmo plano, e não há impedimento entre raios de luz – viajando sempre em linha reta – que partam do topo de um dos prédios e cheguem a outro".

Nogueira, então, convida os pesquisadores a fazerem um experimento ainda mais simples do que os citados: "subir no prédio mais alto de Porto Alegre e fotografar o prédio mais alto de Natal. "Podem usar o telescópio mais potente que tiverem, mas, se eles são incapazes de fazer isso, como então podem ter medido com precisão a distância entre o topo dos edifícios?", questiona.

Ele lembra que o método mais eficiente e preciso de medição de distância envolve justamente o disparo de um laser e a captação de seu reflexo. "É como medimos a distância até a Lua, por exemplo, e a altitude de voo em aviões modernos, com altímetros a laser", explica.

Quanto ao experimento do grupo realizado nas águas, Nogueira explica que "comunicações desimpedidas pela curvatura são feitas por rádio-amadores praticamente desde que inventaram o rádio" e, portanto não há novidade alguma nisso. "Faltou estudar a ionoesfera aí, mas deixo isso como lição de casa para os teóricos da conspiração", provoca.

Já o experimento citado usando telescópios refratores e refletores foi o "favorito" de Salvador Nogueira. Ele diz: "Não ouça o que se diz a esse respeito, seja eu ou qualquer outra pessoa. Vá até a praia mais próxima munido de um binóculo e repare por si mesmo o que acontece com os barcos no horizonte. Não é difícil observar e constatar o que acontece. Você não precisa de teóricos conspiracionistas para ver o fenômeno por si mesmo e tirar suas conclusões".

E o que falar sobre a ideia de que não existe a força da gravidade? Nogueira explica que "a lei da gravidade formula com precisão como se dá a queda de corpos; aprendemos a fórmula na escola e podemos testá-la de forma simples, com experimentos com os que Galileu fez com planos inclinados lá no século XVII". "Século XVII, minha gente!", enfatiza. O especialista pede aos pesquisadores que refutam a lei da gravidade, atrelando-a a magnetismo, densidade, pressão e luz, que mostrem a fórmula para esse novo cálculo. "Ciência não é dizer 'eu acho isso ou aquilo', você precisa amparar qualquer hipótese com uma descrição física exata, que permita contrastar teoria e experimento e testar sua teoria", continua, pedindo, ainda, que os pesquisadores da Terra Convexa também descrevam "com exatidão os movimentos dos corpos celestes, e não apenas os da queda de objetos na Terra".

Por fim, sobre a "descoberta" de um novo continente, Nogueira é categórico: "Vamos fingir por um momento que Fernão de Magalhães não fez a circunavegação do globo no século XVI com base em observações celestes e bússola, retornando ao ponto de partida depois de viajar sempre na direção do oeste. Vamos também fingir que não se pode hoje tomar um avião para qualquer parte do mundo por uma rota consistente com uma Terra esférica, inclusive sobrevoando a Antártida. Vamos fingir que não podemos saber a qualquer momento quando um satélite em órbita vai passar sobre sua cabeça e vê-lo cruzar o céu com nossos próprios olhos. Vamos fingir que o sistema de GPS, baseado em satélite, não funciona e não está à nossa disposição em qualquer celular. Vamos fingir que não aprendemos como os planetas se movimentam a ponto de sermos capazes de mandar espaçonaves até lá. Tudo isso só acontece porque a Terra é esferóide e a gravidade obedece às leis da física estabelecidas. Mas vamos fingir que continuamos tão ignorantes quanto éramos na Idade da Pedra. E aí talvez – apenas talvez – possamos entreter essas sandices. Uma pena que ainda tenha gente no Paleolítico em termos de mentalidade científica, mas essa é uma triste verdade de nossa época. A ignorância se espalha de forma muito mais eficiente que o conhecimento."

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.