Mercúrio pode ter encolhido apenas 4 km — e a culpa é do calor do planeta

Por Danielle Cassita | 05 de Março de 2021 às 18h00
NASA

Mercúrio, o menor e mais interno planeta do Sistema Solar, era um grande mistério até ser visitado pelas missões Mariner 10, que o sobrevoou em 1973, e Messenger, que entrou na órbita do planeta em 2011. Os dados obtidos pelas sondas revelaram estruturas parecidas com escarpas por lá, que podem ter sido causadas pelo resfriamento do interior do planeta, causando uma grande redução em seu diâmetro. Agora, ao analisar os dados da missão mais recente, o cientista Thomas R. Watters verificou que a contração pode não ter sido tão grande assim.

Essas formações geológicas observadas podem alcançar 3 km de altura e até 1 km de extensão. O modelo mais aceito para explicar a origem delas propõe que o interior do planeta perdeu calor, o que fez com que Mercúrio se encolhesse e sua crosta ficasse “enrugada”. Apesar disso, ainda não havia definições sobre, de fato, quais foram as dimensões deste encolhimento acentuado, mas alguns estudos sugerem que o planeta sofreu uma “supercontração”, que teria reduzido seu diâmetro total em 14 km, ou até mais.

Indicação das escarpas de Discovery Rupes na imagem da esquerda, e as de Beagle Rupes na da direita (Imagem: Reprodução/NASA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Carnegie Institution of Washington/Smithsonian Institution)

Por outro lado, não foi isso que Watters observou em seu estudo. Ele analisou as imagens orbitais e dados topográficos coletados pela missão Messenger para criar um modelo desta redução do diâmetro do planeta, e inseriu apenas as formações geológicas que tinham evidências claras de relação com falhas geológicas relacionadas ao interior de Mercúrio. Ele descobriu que o planeta reteve mais calor primordial do que pensava, o que pode explicar por que a Messenger identificou pequenas escarpas com menos de 50 milhões de anos.

Para o autor, o planeta vem mostrando um caminho evolutivo diferente: “planetas rochosos podem reter o calor em seu interior e passar por menos contrações globais”, diz. Com um mapa global das formações geológicas com as melhores imagens obtidas pela missão, ele estima que a redução do diâmetro do planeta foi de, no máximo, 4 km. Como essa mudança, que é relativamente pequena, no diâmetro dos últimos 4 bilhões de anos sugere que Mercúrio resistiu ao encolhimento por manter seu calor interior, é possível que o planeta tenha calor o suficiente para preservar seu núcleo em estado líquido, seu antigo campo magnético e atividades tectônicas recentes ou até mesmo atuais.

O planeta pode ter mantido seu calor primordial por ter "mega regolito" em sua estrutura, que seria uma camada de rochas-matriz fraturadas sob a poeira, solo e rochas da superfície. Além disso, mesmo Mercúrio esteja esfriando desde quando se formou, a camada porosa que desenvolveu pode reter uma quantidade significativa do calor. Assim, se planetas pequenos como nosso vizinho — e até corpos menores — puderem reter o calor e se manter geologicamente ativos depois de bilhões de anos, é possível que pequenos exoplanetas rochosos sigam um caminho evolutivo semelhante.

O artigo com os resultados do estudo foi publicado na revista Communications Earth & Environment.

Fonte: Space.comSmithsonian 

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