Índia destrói satélite em órbita e se autointitula "uma potência espacial"

Por Patrícia Gnipper | 28 de Março de 2019 às 14h15
Dotted Yeti/Shutterstock.com

Nesta semana, a Índia lançou um míssil em direção a um satélite que estava na órbita da Terra, destruindo-o completamente. Após o feito, Narendra Modi, primeiro-ministro indiano, fez um pronunciamento transmitido pela televisão para declarar o sucesso de seu projeto anti-satélite (ASAT). Ao elogiar a manobra, que fez parte da Missão Shakti, Modi disse que o feito foi uma "conquista sem precedentes" e ainda colocou seu país como "uma potência espacial".

Modi disse também que "até agora, apenas EUA, Rússia e China poderiam reivindicar o título; a Índia agora é o quarto país a alcançar esse objetivo". Vale ressaltar que o satélite destruído era de propriedade indiana. Contudo, a missão já causa polêmica, tanto envolvendo questões políticas, quanto militares e científicas.

Focando no lado científico da coisa, destruir o satélite obviamente gerou detritos, que agora flutuam no espaço. Tais peças têm o potencial de colidir com espaçonaves e outros satélites, danificando os equipamentos e potencialmente representando riscos a eventuais tripulações. Além de satélites essenciais para o funcionamento da sociedade moderna (imagine se um detrito destrói satélites de GPS, por exemplo, ou ainda de telecomunicações?), devemos lembrar que seis pessoas vivem na Estação Espacial Internacional (ISS) neste momento, e um pedaço de satélite "voando" na órbita, ao atingir alguma parte da estação, pode colocar a saúde ou até mesmo a vida dos astronautas em risco — sem falar na integridade da própria estação espacial.

A ISS está a aproximadamente 400 km de altitude, cerca de 100 km mais alto do que os 300 km de altitude onde estava o satélite indiano destruído. Só que essa diferença não é tão grande assim e há chances de que alguns destroços possam subir a órbitas mais elevadas e, assim, ameaçar a ISS. Vale lembrar que, no final desta semana, dois astronautas da NASA farão uma caminhada espacial para trocar baterias do lado de fora da estação.

Ou seja: agora, rastrear os detritos é essencial. Nos EUA, quem rastreia e cataloga objetos que estão na órbita do planeta é o 18º Esquadrão de Controle Espacial da Força Aérea, que faz parte do Departamento de Defesa. O órgão disse já estar ciente do lançamento do ASAT indiano e declarou que a equipe responsável já está "rastreando e monitorando ativamente a situação".

China já deu um exemplo negativo

Em 2007, um teste ASAT feito pela China mostrou quanta dor de cabeça um abate de satélites do tipo pode gerar. O país asiático fez o mesmo que a Índia: lançou um míssil para pulverizar um satélite meteorológico de 340 quilos, o que gerou uma nuvem com mais de 2.300 pedaços rastreáveis de detritos, com esses pedaços tendo tamanhos a partir das dimensões de uma bola de golfe. Outras 35 mil peças menores do que uma unha também foram observadas. Na época, o teste chinês foi chamado de "o maior evento gerador de detritos da história".

Esses detritos do abate chinês ainda são encontrados por operadores de satélites e também pela NASA, mesmo 12 anos depois.

O perigo do lixo espacial

Além do risco potencial para a ISS e outros satélites, as preocupações quanto ao "abate" do satélite indiano envolvem também o perigoso acúmulo de lixo espacial na órbita da Terra. Qualquer colisão no espaço cria uma nuvem de detritos de tamanhos variados sendo despejados em altas velocidades — cada peça se move a cerca de 28 mil km por hora, velocidade média necessária para se manter um satélite na órbita baixa do planeta e mais de 10 vezes mais rápida do que o tiro de uma arma de fogo.

E a uma velocidade tão rápida, até mesmo um chip, ao se chocar contra um satélite, pode desativar suas operações por completo. Ainda, uma colisão espacial gerando essa nuvem de detritos acaba gerando outras colisões, no processo que ficou conhecido como "síndrome de Kessler" — em homenagem ao astrofísico ex-NASA Donald J. Kessler, que descreveu esse tipo de evento pela primeira vez em 1978. O raciocínio é o seguinte: uma colisão espacial cria uma nuvem de detritos, com esses pedaços eventualmente se chocando uns com os outros, o que, por sua vez, gera ainda mais detritos, levando a um efeito descontrolado chamado de "cascata de colisão". E de acordo com cálculos de Kessler, à medida em que o lixo espacial vai se acumulando cada vez mais, chegará um momento em que será arriscado demais lançar qualquer nova espaçonave ou satélite à órbita, até que nós consigamos limpar a órbita para torná-la segura novamente.

O lixo espacial é um problema ainda mais grave do que isso, pois mesmo sem mísseis destruindo satélites, muitos detritos são gerados regularmente como consequência de nossas operações no espaço. Exemplo: cada lançamento de foguete deposita algum lixo na órbita, e satélites antigos e desativados simplesmente não desaparecem após o encerramento de suas atividades — eles continuam ao redor da Terra e passam a ser parte do lixo espacial. E tudo isso pode entrar em rota de colisão com outros satélites operacionais, ou representar riscos quando naves forem lançadas, seja à ISS, seja à Lua ou além.

Em 2009, aconteceu um acidente do tipo: um satélite de comunicações russo, já desativado, se chocou contra um satélite de comunicações dos EUA, o que criou milhares de novos destroços, com boa parte deles ainda estando em órbita.

Teste indiano deverá impactar menos do que o chinês

Voltando à comparação entre o abate de satélite feito pela Índia com o experimento chinês de 12 anos atrás, vale dizer que a Missão Shakti da Índia na verdade foi menos perigosa do que a chinesa. A uma altitude de 300 km, o artefato e seus detritos acabarão caindo gradativamente na órbita, até que serão queimados ao reentrar na atmosfera terrestre.

Segundo a Reuters, a Índia "garantiu que não haveria detritos remanescentes no espaço", e previu que essa queima na reentrada da atmosfera acontecerá "dentro de semanas". Contudo, por mais cálculos precisos e estimativas que se faça, não se pode descartar a possibilidade de o choque ter projetado algum pedaço para altitudes mais elevadas, com esse detrito não caindo na órbita e, portanto, representando os perigos que descrevemos acima.

Ainda, qualquer mínimo erro de cálculo pode levar a problemas devastadores e duradouros que prejudicariam o mundo inteiro por várias gerações. Então, é bom que os indianos estejam bem certos de seus cálculos e projeções para que, no futuro, a humanidade não sofra as consequências dessa ambição.

Fonte: Science Alert

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