Distorção em forma de “S” na Via Láctea é resultado de colisão com outra galáxia

Por Daniele Cavalcante | 03 de Março de 2020 às 08h15

A Via Láctea não é um disco plano - ela provavelmente tem as bordas distorcidas, com um lado um pouco curvado para cima e o outro lado para baixo, formando mais um menos uma letra “S” alongada. Embora pesquisas para comprovar isso sejam recentes, astrônomos já sabem disso desde os anos 1950. O que eles ainda não sabem é o por quê.

Varias teorias já tentaram explicar essa distorção, tais como influência do campo magnético intergalático ou uma grande quantidade de matéria invisível que rodeia as galáxias. Agora, dados do satélite Gaia, da Agência Espacial Europeia (ESA), sugerem que a distorção pode ser causada pelo processo contínuo de colisão entre a Via Láctea com outra galáxia menor.

Usando dados da missão Gaia, uma equipe de cientistas confirmou que essa distorção não é estática, mas muda sua orientação ao longo do tempo. Os astrônomos chamam esse fenômeno giroscópico de “precessão”, e ele pode ser comparado à oscilação de um pião à medida que seu eixo gira.

Modelo tridimensional da Via Láctea que mostra as bordas distorcidas da nossa galáxia, de acordo com estudo liderado por Dorota Skowron.

Além disso, a velocidade com que a torção realiza esse efeito é muito mais rápida do deveria caso fosse resultado de uma influência de campo magnético ou matéria escura. A conclusão é que o fenômeno é causado por algo bem mais poderoso, como uma colisão com outra galáxia.

Para sustentar a hipótese, a equipe mediu a velocidade da torção comparando os dados com modelos computacionais. “Com base na velocidade obtida, a distorção completaria uma rotação em torno do centro da Via Láctea em 600 a 700 milhões de anos”, diz Eloisa Poggio, principal autora do estudo publicado na Nature. Isso é muito mais rápido do que a velocidade prevista por outros modelos que usavam as outras possíveis explicações.

No entanto, ainda não se sabe qual galáxia pode estar causando a ondulação que causa esse efeito de precessão na nossa galáxia, nem quando o processo de colisão começou. Uma das candidatas é a Galáxia Anã Elíptica de Sagitário (SagDEG), que orbita a Via Láctea. Os astrônomos cogitam que a SagDEG será gradualmente absorvida pela nossa galáxia, e que este processo já está em curso.

Por mais que a colisão esteja causando uma distorção impressionante em nossa galáxia, não há efeitos negativos na vida em nosso planeta. "O Sol está a uma distância de 26.000 anos-luz do centro galáctico, onde a amplitude da dobra é muito pequena", diz Poggio. "Nossas medidas foram dedicadas principalmente às partes externas do disco galáctico, a 52.000 anos-luz do centro galáctico e além".

Fonte: ESA

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