Cratera em Vênus sugere que planeta não teve placas tectônicas como a Terra

Por Danielle Cassita | 02 de Fevereiro de 2021 às 19h20
NASA/JPL-Caltech

Em algum momento entre 300 milhões e 1 bilhão de anos atrás, um grande objeto se chocou contra a superfície de Vênus e deixou uma cratera com mais de 200 km de diâmetro, que hoje é conhecida como cratera Mead. Ao modelar a formação da cratera, uma equipe de pesquisadores da Brown University investigou também a possibilidade de o planeta ter tido placas tectônicas como aquelas presentes em nosso planeta, e perceberam que dificilmente Vênus tinha placas se movendo pelo manto no período do impacto.

A cratera Mead é considerada a maior bacia de impacto presente em Vênus. Essa cicatriz deixada pelo impacto é cercada por dois "anéis" que lembram fendas rochosas, sendo que, aparentemente, não mudaram ao longo do tempo. Ao utilizar modelos computacionais para recriar o impacto responsável pela cratera, os pesquisadores observaram que, para que essas formações ocorrerem onde estão hoje em relação à cratera central, seria necessário que a litosfera — ou seja, a camada rochosa mais externa do planeta — fosse mais espessa que a da Terra.

Quer ficar por dentro das melhores notícias de tecnologia do dia? Acesse e se inscreva no nosso novo canal no youtube, o Canaltech News. Todos os dias um resumo das principais notícias do mundo tech para você!

“Isso nos mostra que Vênus provavelmente tinha uma 'camada estagnada' no momento do impacto”, explica Evan Bjohnnes, graduando da universidade e principal autor do estudo. “Diferentemente da Terra, que tem placas em movimento, Vênus parece ter sido um planeta de uma só placa pelo menos até o período do impacto”, completa ele.

A cratera Mead (Imagem: Reprodução/NASA)

No caso do nosso planeta, a maior parte dos vulcões fica nos limites das placas tectônicas, e quase 90% das erupções ocorrem quando essas placas se movem umas sobre as outras, ou quando se separam. Contudo, esse é um aspecto bastante difícil de ser estudado em Vênus por causa da atmosfera densa que envolve o planeta. Assim, embora dados coletados por sondas orbitais tenham revelado formações geológicas que podem ser de placas tectônicas, é difícil ter certeza devido à atmosfera, que impede interpretações mais definitivas.

Em um estudo anterior, o professor Brandon Johnson publicou um artigo onde explicava que a posição final das formações venusianas está relacionada ao gradiente térmico da crosta, ou seja, a taxa com a qual a temperatura das rochas aumenta de acordo com a profundidade. Então, o estudo de Bjonnes adaptou a técnica de Johnson para Mead, e percebeu que, para os “anéis” estarem na posição atual, a crosta teria que ter um gradiente térmico relativamente baixo, o que sugere que a litosfera do planeta é bem espessa.

Com os cálculos, eles perceberam que o gradiente é bem baixo e a litosfera é mais espessa do que se espera em um planeta geologicamente ativo. Na prática, isso significa que Vênus não teria placas tectônicas na época estimada para o impacto causador da cratera. Para Alexander Evans, professor assistente e co-autor do estudo, as descobertas da cratera são consistentes com outras formações de Vênus: “penso que a descoberta destaca o lugar único que a Terra, e seu sistema de placas tectônicas globais, tem ao meio dos nossos vizinhos planetários”.

O artigo com os resultados do estudo foi publicado na revista Nature Astronomy.

Fonte: Brown University, Universe Today

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.