Conheça os 3 vencedores do Nobel da Física 2019 que revolucionaram a astronomia

Por Daniele Cavalcante | 08 de Outubro de 2019 às 22h30

Os cientistas James Peebles, Michel Mayor e Didier Queloz são os vencedores o Prêmio Nobel de Física de 2019, graças às suas descobertas em cosmologia teórica e de um novo exoplaneta. O anúncio foi divulgado nesta terça-feira (8) pelo comitê coordenado pela Academia Real de Ciências da Suécia, em Estocolmo, e, de acordo com a instituição, o trabalho dos físicos forneceu uma nova compreensão da história e estrutura do universo.

Em 1995, os suíços Mayor e Queloz mudaram os rumos da astronomia quando, pela primeira vez na história, descobriram um planeta localizado fora do Sistema Solar. Desde então, 4 mil exoplanetas foram descobertos na Via Láctea. Já Peebles, de origem canadense-americana e professor da Universidade de Princeton (EUA), foi premiado por um trabalho teórico que desenvolveu ao longo de duas décadas. Ele construiu as bases para uma concepção moderna da história do universo, desde o Big Bang até o presente.

Peebes levará metade do prêmio de US$ 913 mil. O restante será dividido entre Mayor e Queloz, que realizaram o trabalho de descoberta do exoplaneta em conjunto.

A cosmologia moderna e o Big Bang

Linha do tempo da história do Universo, compreendida pelas estruturas e regras que o governam. As teorias de Peebles, confirmadas mais tarde pelos pesquisadores, foram grande contibuição para apontar evidências de que muitas hipóteses são reais, como o próprio Big Bang. (Imagem: Nicole Rager Fuller / National Science Foundation)

Imaginar e observar o universo significa, muitas vezes, pensar e focar em objetos individuais, como estrelas e galáxias, e nos eventos que acontecem ao redor. No entanto, podemos ir além e pensar na origem, evolução e crescimento de tudo no universo, desde as menores escalas cósmicas até a escala de todo o cosmos. Claro que há muita hipótese que ainda não podemos observar, muito menos confirmar, mas também há muitas teorias que já são reforçadas por evidências descobertas pelos pesquisadores.

Nossa compreensão do universo foi transformada durante o século XX, e com isso foi possível começamos a entender a física que coordena todo o universo. E devemos muito disso aos fundamentos estabelecidos por Peebles. Uma de suas contribuições foi sua previsão sobre a descoberta da radiação cósmica de fundo, uma das maiores evidências de que o Big Bang aconteceu.

A radiação cósmica de fundo são ondas eletromagnéticas na frequência de micro-ondas presentes em todo o espaço e datam da época em que o universo tinha apenas 400 mil anos. As ondas foram emitidas quando os primeiros prótons e os elétrons estavam se combinando para formar átomos, o que acabou por permitir a circulação de luz. Essa luz foi "esticada" pela expansão do universo e hoje sobrevive na forma de ondas de baixa frequência (rádio). Pebbles foi o primeiro a teorizar sobre isso, e sua hipótese foi confirmada por radiotelescópios.

Além de ser uma evidência do Big Bang, a radiação cósmica de fundo também ajuda os cientistas a conhecer mais sobre a cosmologia sem depender mais de muita especulação. Isso acontece porque um teórico que tenha alguma hipótese sobre o universo verificar se ela afetaria a distribuição da radiação cósmica de fundo. O resultado dessa verificação dirá se a hipótese pode ser levada adiante ou não.

Além da radiação cósmica de fundo, Peebles também contribuiu com a base teórica sobre a existência da matéria escura - algo que não podemos ver mas que, estima-se, compõe 85% de toda a matéria do universo.

Com o conjunto da obra de Peebles, o estudiosos da cosmologia têm um método mais sólido. “Suas descobertas mudaram para sempre nossa concepção de universo”, escreveu o Comitê do Nobel. "Abordou o cosmos, com os seus milhares de milhões de galáxias. O seu trabalho teórico, desenvolvido durante mais de duas décadas, é o fundamento da nossa compreensão moderna da história do universo, desde o Big Bang à atualidade", diz a nota publicada.

O planeta 51 Pegasi B

Concepção artística do exoplaneta 51 Pegasi b (Imagem: ESO/M. Kornmesser/Nick Risinger)

Em uma noite de inverno, a observação do então estudante de astronomia Didier Queloz no observatório de Haute-Provence, na França, foi atrapalhada pela chuva. Então, ele decidiu ir à biblioteca para criar um programa capaz de analisar os dados que ele já havia coletado. Era janeiro de 1995 e outros grupos de astrônomos também procuravam o mesmo que ele - um planeta na órbita ao redor de uma estrela que não o Sol.

Seus dados sugeriam que uma estrela brilhante chamada 51 Pegasi tremia ligeiramente, o que era justamente o indício que Queloz estava procurando. Esse movimento estelar poderia indicar a presença de um planeta. A 51 Pegasi, uma estrela localizada na constelação de Pegasus a apenas 47,9 anos-luz da Terra, é visível com o uso de binóculos, ou até mesmo a olho no, em um céu com boas condições. Trata-se de uma anã amarela com 7,5 bilhões de anos, um pouco mais velha que o Sol, e também ligeiramente mais massiva.

Foi no dia 6 de outubro de 1995 que Michael Mayor e Didier Queloz anunciaram a descoberta do exoplaneta, chamado de 51 Pegasi B, na revista Nature. Eles projetaram um instrumento de detecção sensível o suficiente para essa tarefa e o acoplaram a um telescópio, o que permitiu, finalmente, confirmar a existência do exoplaneta.

Eles também colaboraram com o projeto Corot, um telescópio espacial francês lançado em 2007 que conseguiu detectar planetas menores, e a descoberta dos primeiros exoplanetas foi merecedora do Nobel não só pela revolução na astronomia: é que, com a confirmação de que há outros sistemas estelares como o nosso, também vem a implicação filosófica de que talvez não estejamos sozinhos no universo - e consequentemente não somos tão especiais assim.

Mayor e Queloz, segundo o comunicado do Comitê, "exploraram a nossa galáxia, a Via Láctea, à procura de mundos desconhecidos; em 1995, fizeram a primeira descoberta de um planeta fora do sistema solar, um exoplaneta, que orbita uma estrela semelhante ao Sol, a 51 Pegasi".

As demais categorias do Nobel serão anunciadas ao longo da semana. Na segunda-feira (7) foi anunciado o Nobel de Medicina. O de Química será divulgado na quarta (9), enquanto o Literatura e Paz virão na quinta (10) e na sexta-feira (11), respectivamente. O prêmio de Economia será anunciado na próxima segunda-feira (14).

Fonte: Forbes

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