Conheça a cratera Jezero, antigo lago de Marte onde podem existir bioassinaturas

Por Daniele Cavalcante | 29 de Julho de 2020 às 22h00
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O rover Perseverance, que será lançado a Marte nesta quinta-feira (30) como parte da missão Mars 2020, investigará uma região muito específica do Planeta Vermelho: a cratera Jezero, um local que intriga cientistas desde que foi visto pela primeira vez, há 16 anos, por um estudante de pós-graduação.

Na cratera, havia um canal sinuoso e seco, que parecia muito ter sido o leito de um rio extinto há muito tempo. O canal está ligado a um dos lados da cratera, que parece ter sua borda desmoronada, como se tivesse sido varrida por água corrente. Hoje, essa parte é uma espécie de cânion, que parece ter sido esculpido pelo rio que passou por ali. Do lado oposto da cratera, há outro canal, por onde o rio parecia entrar para encher o lago.

O lago

Imagem: NASA/JPL

Entre essas características geológicas, havia uma grande depressão circular. A única maneira disso ter se formado tão geometricamente perfeito, é se um lago houvesse existido ali, de acordo com Caleb Fassett - aquele estudante de pós-graduação que identificou as características na foto. Hoje, ele é cientista planetário do Marshall Space Flight Center da NASA em Huntsville, Alabama.

É por causa dessas características que o local se chama Jezero - a palavra significa “lago” em várias línguas eslavas, como o croata, o tcheco, o sérvio, e o esloveno. Este lago extinto é hoje uma cratera de 500 m de profundidade e 48 km de diâmetro, e sua água esteve ali entre 3,5 bilhões e 3,9 bilhões de anos atrás, circulando para dentro e para fora da cratera.

A grande pergunta que fica é: poderia ter existido formas de vida neste lago? Há boas chances de que a resposta seja positiva. Afinal, a água foi o berço da vida aqui na Terra. Claro, tudo começou com vida microbiótica, e é isso o que os cientistas esperam encontrar em Marte. Ou melhor, registros antigos de que houve seres vivos unicelulares no fundo deste lago.

Mas como seriam as evidências desta vida antiga? Bem, isso é algo difícil de encontrar até mesmo aqui na Terra. Mas os cientistas acreditam que podem detectar padrões em rochas e na argila de Jezero, criados por micróbios que “andaram” por ali.

Sinais de vida - ou não

Quando observou a foto, Fassett viu um leque de sujeira e lama que teria sido “vomitado” pelo rio na cratera. De acordo com Kennda L. Lynch, cientista do Instituto Lunar e Planetário de Houston, “esses tipos de depósitos preservam produtos orgânicos”. Por ali, onde parece ser o litoral, há depósitos de carbonatos, minerais que podem ser semelhantes ao calcário da Terra e normalmente se forma a partir de sedimentos do fundo do mar. Geralmente é repleto de fósseis.

Esses carbonatos podem ter sido criados por processos bioquímicos - ou não. Ainda é difícil dizer a origem desses minerais, por isso a região deve ser estudada com bastante cuidado. Os sedimentos podem ter sido um lar feliz para pequenos marcianos ou apenas parte de um sistema fluvial inabitado e estéril.

Bem, em um planeta como a Terra, onde a vida está literalmente por toda a parte, sabemos que um local como Jezero estaria repleto de micróbios. Em lugares assim, camadas de vida microbiana podem se formar se se manter juntas pelo lodo secretado pelos organismos. Por isso, também sabemos que se algo assim viveu dentro de em Jezero, as camadas teriam se formado, uma em cima da outra, e deixado padrões ondulados nas rochas.

Mas não basta apenas ver esses padrões. Isso não seria o suficiente para saber se é uma bioassinatura ou se foi algo modelado pela erosão. É preciso ter as texturas, obter a composição química, a mineralogia e a distribuição do carbono orgânico. Analisando tudo, os cientistas podem começar construir um cenário em que essa rocha poderia ter se formado sob a influência da vida.

Os instrumentos do Perseverance

Imagem: NASA

Para realizar essa tarefa, o rover carrega consigo uma câmera e um microscópio, capazes de ver esses padrões. Outro instrumento vai disparar um feixe de raios X na rocha para medir os elementos dentro de cada camada. Isso ajudará a descobrir se as tais camadas consistem de minerais diferentes.

Além disso, o Perseverance vai coletar pedaços de rochas, que serão trazidos à Terra por outra nave espacial. Em seguida, os cientistas poderão examinar essas amostras com muito mais precisão, buscando por sinais de vidas passadas.

Em fevereiro, os cientistas praticaram como usar o Perseverance para procurar sinais de vida em Marte, enquanto se preparavam para a missão. Eles usaram o Walker Lake, em Nevada, que secou parcialmente dezenas de milhares de anos atrás, servindo assim de substituto para a cratera Jezero. Eles não levaram o rover até lá. Uma equipe de cientistas fez o papel do Perseverance, tirando fotos, enquanto outro time fazia análises.

Partes do lago Walker são repletas de estromatólitos - estruturas bulbosas que contêm padrões ondulados. Eles são uma espécie de rocha fóssil, formada por atividades de microrganismos em ambientes aquáticos acumulados no fundo de mares rasos. Então, os cientistas que faziam as análises das fotos enviaram instruções para a “equipe Perseverance” se dedicasse àquela área.

Para imitar o rover, a equipe usou uma ferramenta de raio-X portátil para gerar dados, bem parecido com o que o Perseverance fará em Marte. As equipes identificaram bem as rochas que mereciam uma análise mais detalhada. Assim, eles puderam aprender muito sobre o que o rover deve procurar e como as rochas contendo bioassinaturas poderiam se parecer, sem perder nenhum detalhe, por menor que seja.

Com seus instrumentos de alta precisão e um alvo promissor como Jezero, a Mars 2020 pode ser uma missão histórica, a primeira com boas chances de encontrar bioassinaturas em Marte. Caso isso aconteça, enfim teremos uma resposta positiva para a pergunta que há muito tempo intriga a humanidade: a vida já surgiu em outro planeta além da Terra? E, bem, caso nada seja encontrado, certamente a busca por sinais de vida em outros mundos continuará.

Ansioso pelo lançamento? A contagem regressiva começa às 8h (horário de Brasília)desta quinta-feira (30), com transmissão ao vivo sendo realizada pela NASA. O lançamento de fato está previsto para as 8h50. O Canaltech acompanhará tudo em tempo real; portanto, fique ligado em nosso site para conferir todos os detalhes!

Fonte: The New York Times

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