Conexão entre neurônios é alterada após longas viagens espaciais, diz estudo

Conexão entre neurônios é alterada após longas viagens espaciais, diz estudo

Por Fidel Forato | Editado por Patrícia Gnipper | 21 de Fevereiro de 2022 às 12h40
Roscosmos

O cérebro pode mudar e se adaptar ao longo da vida humana, dependendo das circunstâncias pelas quais o indivíduo passa. A partir deste fato, cientistas buscaram entender quais são os efeitos da microgravidade no cérebro de cosmonautas, após longos períodos em um ambiente microgravidade. Os resultados mostram que, aparentemente, a comunicação entre os neurônios pode ser modificada de forma duradoura.

No caso da tripulação espacial, as modificações neuronais têm relação com as funções sensoriais e motoras do cérebro, o que pode ser uma das formas do organismo se adaptar a um ambiente com microgravidade. No entanto, ainda não se sabe se essas mudanças podem ter algum efeito negativo no futuro dos cosmonautas.

Publicado na revista científica Frontiers in Neural Circuits, o estudo é o primeiro a analisar as mudanças estruturais de conectividade que acontecem no cérebro após voos espaciais de longa duração. Segundo os pesquisadores, as análises demonstraram pequenas alterações no cérebro dos tripulantes.

Longas viagens espaciais podem alterar a conexão entre neurônios no cérebro (Imagem: Reprodução/Inmicco/Envato)

A pesquisa foi liderada pelo cientista Floris Wuyts, da Universidade de Antuérpia, na Bélgica. Além disso, contou com a colaboração da Agência Espacial Europeia (ESA) e a da agência espacial russa Roscosmos.

Mudanças no cérebro após voo espacial

Nas análises, “encontramos mudanças nas conexões neurais entre várias áreas motoras do cérebro”, explicou Andrei Doroshin, um dos autores do estudo e pesquisador da Universidade Drexel, nos Estados Unidos, em comunicado.

“As áreas motoras são centros cerebrais onde os comandos para os movimentos são iniciados. Na microgravidade, um astronauta precisa adaptar suas estratégias de movimento drasticamente, em comparação com a Terra. Nosso estudo mostra que o cérebro deles é reconectado, por assim dizer”, detalhou Doroshin. Isso porque alguns neurônios podem ser novamente conectados. Fora do ambiente espacial, novas conexões também podem ser formadas.

“De estudos anteriores, sabemos que essas áreas motoras mostram sinais de adaptação após o voo espacial. Agora, temos uma primeira indicação de que isso também se reflete no nível de conexões entre essas regiões”, complementou o pesquisador Wuyts.

Entenda o estudo sobre os efeitos da microgravidade

No estudo, a equipe acompanhou as modificações de no cérebro de membros de uma tripulação espacial. "Doze cosmonautas, que passaram uma média de seis meses [cerca de 180 dias] a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS), foram escaneados por um scanner de ressonância magnética antes do voo, 10 dias após o voo e em um ponto de acompanhamento sete meses após o voo", detalham os autores da pesquisa.

Microgravidade pode causar modificações duradouras no cérebro (Imagem: Reprodução/ILexx/Envato)

Especificamente, os cosmonautas passaram por uma ressonância magnética ponderadas por difusão (dMRI). Isso permitiu que pela primeira vez, segundo os autores, fosse utiliza a técnica conhecida como tractografia na medição dos efeitos do voo espacial. Em resumo, eles obtiveram uma imagem em 3D de tratos (conexões) de neurônios.

"Essas mudanças microestruturais podem refletir diferentes fontes de efeitos do voo espacial no cérebro, incluindo efeitos de mudança de fluido, mudanças anatômicas do cérebro e neuroplasticidade", afirmam os autores. No momento, ainda não é possível estabelecer como as modificações afetam (ou não) o funcionamento saudável do cérebro.

Embora fosse possível identificar um movimento de reversão em algumas desas "mudanças microestruturais", outras ainda eram visíveis após sete meses do retorno ao planeta Terra. Dessa forma, mais estudos sobre os efeitos da microgravidade no cérebro são necessários e serão fundamentais para que, um dia, a ida ao planeta Marte seja viável.

Fonte: Frontiers NewsFrontiers in Neural Circuits  

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