Deuses da astronomia | Como os gregos interpretavam os astros

Por Nathan Vieira | 13 de Setembro de 2020 às 10h00
Reprodução, Edição/Canaltech

Uma coisa que a humanidade sempre fez, independentemente de seu período, foi depositar a sua fé em alguma entidade superior. Na antiguidade, para os seres humanos, tudo era justificado com base nos deuses: desde os fenômenos da natureza até as emoções. E como grandes fãs da astronomia que somos, nós do Canaltech desenvolvemos a série "Deuses da Astronomia", justamente para entender de que maneira os astros eram justificados pelas antigas civilizações. Nessa primeira parte, falamos sobre como os indígenas brasileiros interpretavam o que viam no céu e, nesta segunda matéria, você descobre como era tudo isso para os gregos da antiguidade.

O filósofo e teólogo Valdecir Ferreira, professor de Antropologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), aponta que a atribuição de muitas explicações a fenômenos naturais e até mesmo de realidades humanas, como os sentimentos ou ainda os males e as pestes que eventualmente surgiam em determinados povos, fez emergir algo que chamamos de mitologia.

"O ato de explicar ou justificar algo que não conseguiam por vias intelectuais, com expressões empíricas, gerou uma busca por respostas aparentemente fantasiosas, que por séculos garantiram uma espécie de satisfação de conhecimento. Muitos povos conheceram esta epistemologia e alimentaram-se dela", afirma o especialista. Sendo assim, podemos dizer que foi uma primeira forma de conhecimento mais sistemática, mesmo que não científica. "Os deuses surgem da necessidade de encontrar significado e que estes fossem convincentes, diante daquilo que não havia respostas", acrescenta o professor.

O rompimento com esta estrutura de conhecimento aconteceu através da filosofia (e de todas as ciências oriundas da filosofia). A amostragem de conhecimento mais próxima de nós, ocidentais, é a grega. Atesta-se que Tales de Mileto, talvez, seja um dos primeiros a fazer esta transição. "Podemos dizer que a mitologia ainda continuava a fazer parte do contexto dos pensadores. Pouco a pouco, foi-se desvinculando as indicações fantasiosas de explicação para algo mais racional e lógico", explica o especialista.

Podemos dizer ainda que muito da mitologia ainda está presente em nosso meio. E quando se fala de mitologia, a grega é, de fato, uma das mais marcantes. Mesmo hoje em dia, várias palavras de nosso cotidiano carregam essa origem, como "fobia", que faz referência a Fobos, o deus do medo, ou "morfina", que faz referência a Morfeu, o deus dos sonhos.

"Contemplar o infinito, através dos astros, foi algo que acompanhou grandes povos, desde as primeiras narrativas que temos contato. As mudanças climáticas, o posicionamento dos astros no céu, as fases da lua, os eclipses e tantas outras modalidades, são expressões de uma sede de infinito que o ser humano tem, bem como de descobrir quem é o próprio ser humano. O pano de fundo de todos esses surgimentos, é na verdade, a aventura de descobrir-se e de perceber-se diante do universo que circunda a humanidade", explica o professor de antropologia. Os astros representados na mitologia grega são os seguintes:

Céu

Na mitologia grega, o céu era personificado pela divindade Urano (Imagem: Stefanos Kogkas/Unsplash)

O céu sempre foi alvo de interesse do ser humano, independente do período histórico. Na Grécia Antiga, isso não era diferente, então é claro que essa civilização tinha em mente uma divindade a quem atribuir. Primeiramente, uma coisa que é importante saber a respeito da mitologia grega, é que ela é dividida em gerações diferentes: a dos primordiais, que são aqueles que deram início ao mundo; a dos titãs e, por fim, a dos deuses.

Tendo isso em mente, a divindade grega que personificava o céu era Urano. Ele foi gerado espontaneamente por Gaia, a personificação da terra, e casou-se com ela. Mas aí vem outro detalhe importante sobre os mitos gregos: as famílias eram um pouco problemáticas. Urano odiava os próprios filhos, e aprsionava-os no interior da própria Gaia. Revoltada, ela conspirou com os descendentes (os chamados Titãs) para destruir o deus primordial. Urano foi castrado por seu caçula, o Cronos, titã do tempo (sim, por isso falamos "cronológico", "cronograma", etc).

Cronos passou por uma situação bem parecida com seu pai: também temia ser destronado pelos filhos e por isso os devorava, mas foi derrotado pelo caçula, Zeus (aquele deus barbudo frequentemente representado segurando um raio). Depois de destronar o pai e garantir a vitória dos deuses, Zeus se tornou o deus do céu e dos raios, e rei do Monte Olimpo, onde os deuses viviam. O dia e a noite tinham seus próprios espaços no panteão grego. Enquanto o dia era personificado pela doce Hemera, a noite era personificada pela misteriosa Nix.

Sol

O Sol foi representado por diversas diivndades na mitologia grega: Hiperião, Hélio e Apolo (Imagem: Paul Gilmore/Unsplash)

Se o céu grego já fez parte de duas divindades diferentes (Urano e Zeus), o Sol em si passou por inúmeros mitos desse panteão. Então vamos lá: o primeiro Sol foi Hiperião, um titã, filho de Urano. Ele foi preso por Zeus e pelos deuses depois que Cronos foi derrotado. Segundo a interpretação de Diodoro Sículo, Hiperião foi o primeiro astrônomo a estudar o movimento do Sol, da Lua e das estrelas, e foi, por isto, chamado de pai destes astros. Da união entre Hiperião e uma titânide, Teia, nasceram outras divindades relacionadas à astronomia. Dentre elas, Eos e Hélio.

Eos é a personificação do amanhecer e do pôr do Sol. Na "prática", essa divindade tem, como principal função, abrir as portas do céu para a carruagem de Hélio, que se tornou a personificação do Sol depois que Hiperião foi preso. Eos é responsável também pelo brilho do Sol e das tonalidades do céu. O poeta Ovídio descreve o Sol como uma biga, puxada por quatro cavalos de fogo.

Outra divindade grega diretamente relacionada com o Sol é Apolo, filho de Zeus e um dos doze olimpianos (os deuses mais importantes, digamos assim). Não apenas do Sol, como também das profecias, da medicina e até mesmo da música, do arco e flecha e da poesia.

Lua

O satélite natural da Terra também passou por representações diversas na mitologia grega, como Selene, Ártemis e Hécate (Imagem: malith d karunarathne/Unsplash)

A Lua, por sua vez, também é um astro representado por várias divindades diferentes ao longo das eras da mitologia grega. Inicialmente, a personificação do satélite natural da Terra é a Selene, irmã de Hélio. Assim como Hélio conduz a biga do Sol até o cair da noite para banhar os cavalos no oceano, Selene termina de banhar os seus e os conduz com a biga da Lua pelos céus até o raiar do dia.

E da mesma forma que o irmão, Selene também foi sendo associada a outra deusa, até que ela de fato a substituísse. Trata-se de Ártemis, a irmã gêmea de Apolo, também uma olimpiana. Diferente de Selene, que teve vários amantes ao longo de seu mito, Ártemis era uma caçadora virgem, que teve um amor só, mas depois passou a ter desprezo pelos homens (mais para frente, em constelações, explicamos o porquê). Sendo assim, é a deusa também da castidade, do parto, do arco e flecha e dos animais selvagens.

Outra deusa associada à Lua é Hécate, principalmente ao brilho lunar, para ser mais exato. No entanto, era mais conhecida por ser a deusa da magia. Hécate era misteriosa e obscura, voltada a encruzilhadas, entradas, fogo, luz, bruxaria, o conhecimento de ervas e plantas venenosas, fantasmas, necromancia e feitiçaria.

Constelações

As constelações, como a de Órion, também têm sua origem justificada pela mitologia grega (Imagem: Joseph Vary/Unsplash)

Várias constelações tiveram sua origem justificada pela mitologia grega, e um dos mitos mais famosos é o da constelação de Órion. A história traz Órion como um gigante caçador que amava Ártemis, e ele chegou a quase se casar com ela. Mas Apolo não aprovava nem um pouco esse relacionamento, e lembra como as famílias da mitologia grega são um pouco problemáticas? O jeito que Apolo encontrou de separar os dois foi enganando a irmã para que ela mesma matasse o seu amado. Ela atirou uma flecha em Órion, enquanto ele fugia de um escorpião. Depois que percebeu o engano que havia cometido, Ártemis pediu para que Zeus colocasse Órion e o escorpião entre as estrelas, dando origem assim a essas constelações.

A constelação de Gêmeos também tem sua origem entre os mitos gregos: trata-se de Castor e Pólux que, como já é de se esperar, eram irmãos gêmeos, mas de pais diferentes: enquanto Castor era filho de um mortal, Pólux era filho de Zeus (e por isso, era imortal). Os dois irmãos cresceram inseparáveis. Com a morte do irmão, Pólux, entristecido, pediu para seu pai dar a Castor o mesmo direito de imortalidade, para que pudessem ficar para sempre juntos. Com a intenção de deixá-los para sempre unidos, Zeus os transformou na constelação de gêmeos.

Ursa Maior e Ursa Menor também são constelações representadas nesse panteão. É o mito de Calisto, uma bela jovem caçadora de feras que acabou despertando o interesse de Zeus, e por sua vez, o ciúmes da rainha Hera, a esposa de Zeus. Calisto foi transforma em um urso por causa desse ciúmes. Ainda na forma de um grande urso, foi encontrada por seu filho, Arcas que era um caçador. Antes que o jovem caçador matasse o urso, Zeus interviu e transformou Calisto na constelação da Ursa Maior e o seu filho Arcas na Ursa menor, colocando-os no céu, para ficarem sempre juntos.

Outra constelação representada na mitologia é a de Touro. Na história, Zeus outra vez ficou apaixonado por uma princesa, dessa vez chamada Europa. Para atrair sua atenção, o deus desceu à terra em forma de um touro. Depois de revelar sua forma à mortal, os dois se relacionaram, chegando a ter dois filhos. Zeus prestigiou o céu com as estrelas que formaram a constelação de Touro.

Leão também é uma constelação presente nessa mitologia. Trata-se do Leão de Nemeia, cuja pele era impenetrável. Um dos doze trabalhos de Héracles era matá-lo (e assim o fez, estrangulando-o). Para jamais se esquecerem desse importantíssimo feito, o leão tornou-se uma constelação como símbolo de seu heroísmo.

"Aliada com a matemática, a astronomia teve grande relevo na cultura grega antiga. Foi através de cálculos matemáticos que procurou-se descortinar muitos mistérios relacionados com os astros no céu. É interessante e importante ressaltar que outros povos, como os egípcios e os mesopotâmicos, já tinham feito grandes estudos e descobertas a nível da astronomia", explica o professor de antropologia.

O especialista conclui que torna os gregos promissores na astronomia não é o recolhimento de informações, mas sim o que fizeram a partir disso, dando consistência e sistematização ao foco de conhecimento, e que um dos elementos em destaque é a busca pela centralidade da astronomia conhecida. Verificava-se o formato da lua e da terra, do que era a composição delas, também do sol e das demais estrelas. Acreditava-se que a Terra era o centro do universo. "Os gregos, sem dúvidas, foram grandiosos em suas pesquisas astronômicas e talvez aqui encontra-se, literalmente, a ruptura entre a mitologia e a racionalidade".

Menção honrosa: romanos e planetas

A mitologia grega, aos poucos, foi sendo substituída pela mitologia romana. Tratam-se, basicamente, dos mesmos mitos, das mesmas divindades, só que com nomes diferentes. E você sabia que são essas divindades romanas que dão nome aos planetas do Sistema Solar? Se não sabia, vale conferir essa matéria que o Canaltech fez sobre a origem mitológica dos nomes de planetas e luas do Sistema Solar. Um ponto interessante é que os nomes dos planetas foram escolhidos com base nas próprias personalidades desses deuses. Ou seja, não foi uma escolha aleatória. Por exemplo: Júpiter, o maior dos deuses (o equivalente romano de Zeus), foi escolhido para ser o nome do maior planeta de todos desse sistema.

Essa é só mais uma prova que a astronomia tem uma profunda relação com as mitologias. Nas próximas matérias dessa série, trazemos esse olhar sobre outras civilizações, como os egípcios, anteriormente citados pelo professor de antropologia.

Fonte: Com informações de History, National Geographic

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