Cientistas da NASA propõem missão para estudar Tritão, maior lua de Netuno

Por Patrícia Gnipper | 19 de Março de 2019 às 22h30
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Durante uma conferência de ciências planetárias que aconteceu nos Estados Unidos, cientistas representando o Jet Propulsion Laboratory (JPL) da NASA apresentaram o conceito de uma missão para estudar Tritão, a maior lua de Netuno, que ainda é um tanto quanto desconhecida, mas que pode abrigar um oceano subterrâneo, sendo este um dos poucos satélites naturais do Sistema Solar que é geologicamente ativo.

Acredita-se que Titão seja um objeto do Cinturão de Kuiper que, há bilhões de anos, foi capturado pela gravidade do gigante gasoso, e caso se confirme que o pequeno mundo tenha mesmo um oceano, é possível que ali existam os ingredientes necessários para o surgimento da vida. Outras luas do nosso sistema que também têm tal possibilidade são Encélado (de Saturno) e Europa (de Júpiter).

A proposta imagina uma espaçonave chamada Trident, que seria bem menos cara do que outras naves enviadas para estudar objetos do Sistema Solar, com os cientistas da missão afirmando que seu custo seria mais ou menos o de uma pequena missão para a Lua. Geralmente, as visitas ao Sistema Solar externo custam bilhões de dólares, mas missões mais econômicas e de menor duração podem ajudar a avançar a ciência planetária. Podemos tomar como exemplo o que vem acontecendo em Marte: nenhuma única missão reuniu todos os dados que sabemos do Planeta Vermelho, com nosso conhecimento sobre ele sendo resultado de várias missões ao longo de muitos anos, contando com sondas orbitais, sondas estacionárias e robôs exploratórios.

Fotografia que a sonda Voyager 2 tirou de Tritão na década de 1980 (Foto: NASA)

Por isso, os cientistas que apostam na missão para Tritão com sua nave Trident estão buscando apoio no meio científico, com o objetivo de apresentar, formalmente, a proposta para a NASA no final deste mês. Mas como a agência espacial depende de orçamentos fornecidos pelo governo dos Estados Unidos, é preciso esscolher a prioridade de futuras missões espaciais, sendo que esta de Netuno tem como concorrentes iniciais uma missão para visitar Io (lua de Júpiter) e outra que pretende estudar o planeta Vênus. Contudo, a equipe espera que a possibilidade de explorar o planeta mais distante do Sistema Solar sem gastar bilhões de dólares seja um fator a seu favor.

Outro fator que pode reforçar positivamente a missão para Tritão é o tempo, que não está a nosso favor, à medida em que Netuno faz sua órbita ao redor do Sol. "Para ver as plumas que a Voyager 2 viu em 1989, temos que encontrar Tritão antes de 2040", conforme explica o Dr. Karl Mitchell, cientista que faz parte da proposta. Caso não o façamos até esta data, por conta das posições dos objetos em suas órbitas, Tritão não será iluminada novamente por mais de oitenta anos.

A última vez em que estudamos Netuno e suas luas de pertinho foi em 1989, com o breve sobevoo da Voyage 2, nave que registrou a primeira (e até então única) imagem próxima do oitavo planeta do Sistema Solar. A sonda também capturou dados indicando possíveis plumas de água sendo ejetadas do interior de Tritão (mais ou menos como acontece em Encélado e Europa), e por isso esta lua é outra forte candidata a abrigar algum tipo de vida extraterrestre, ainda que microbiana.

Registro que a Voyager 2 fez quando passou pertinho de Netuno (Foto: NASA)

"Tritão mostra sugestões tentadoras de ser um mundo ativo e ter um oceano. É um alvo três em um, porque você pode visitar o sistema de Netuno, descobrir este interessante oceano e também visitar um objeto do Cinturão de Kuiper sem ter que ir até lá", explica a Dra. Amanda Hendrix, do Instituto de Ciências Planetárias do Arizona. Estudar o oceano de Tritão pode nos ajudar a entender como oceanos se originam e se mantêm em outros mundos — por exemplo, a água de Tritão pode ser muito mais fria do que o ponto de congelamento usual, mas a presença de amônia poderia preservá-la em estado líquido. Então, tais pistas podem ajudar a ciência a buscar com ainda mais afinco a existência de vida além da Terra.

Até pouco tempo atrás, a ciência se limitava a buscar indícios de vida apenas nas chamadas zonas habitáveis de estrelas com sistemas planetários, mas essa noção de onde a vida poderia surgir vem se expandindo bastante. Netuno está trinta vezes mais distante do Sol do que a Terra, e a recente descoberta de um oceano subterrâneo em Encélado e Europa derrubou a ideia de que a zona habitável do Sistema Solar acabaria em Marte — lugares mais distantes, mesmo não sendo aquecidos suficientemente pelo Sol, podem abrigar água líquida por conta de outros fatores, como atividades geológicas e atração gravitacional. E se uma missão como a da nave Trident confirmar que existe mesmo um oceano líquido em Tritão, isso significará que o Sistema Solar tem mundos ainda mais distantes capazes de sustentar algum tipo de vida.

A lua Tritão está a cerca de 4.500 milhões de quilômetros do Sol e foi descoberta pelo astrônomo inglês William Lassell em 1846, sendo esta a única grande lua do Sistema Solar com uma órbita retrógrada, no sentido oposto à rotação do planeta. Ela tem 2.700 km de diâmetro e é o sétimo maior satélite natural do nosso sistema, tendo a maior parte de sua superfície composta por nitrogênio congelado. Como consequência de ter atividade geológica, Tritão tem uma superfície relativamente jovem, com crateras de impacto esparsas e uma complexa história geológica que é revelada por criovulcões e terrenos tectônicos. Por conta de tudo isso, é um objeto que vale a pena ser estudado de pertinho — resta saber se os "cabeças" da NASA acharão o mesmo.

Fonte: NY Times

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