A pandemia pode nos preparar para lidarmos com a ameaça de um asteroide?

Por Natalie Rosa | 16 de Junho de 2020 às 08h32
Daily Sabah

A chegada da pandemia do novo coronavírus deixou o mundo inteiro em estado de alerta e, com isso, cientistas vêm trabalhando constantemente para descobrir tratamentos, curas e métodos de prevenção da COVID-19. No entanto, o resultado catastrófico da disseminação global da doença traz novos avisos para a humanidade e a ciência: estaríamos preparados para lidarmos com um possível impacto de um perigoso asteroide em nosso planeta?

As consequências da pandemia, de acordo com cientistas especializados no assunto, precisam ser a inspiração de lições importantes sobre a defesa planetária, desencadeando um estado de alerta ainda maior com foco em emergências tão graves quanto.

Reprodução: Родион Журавлёв

Evitando erros

Thomas Jones, ex-astronauta da NASA e presidente do Association of Space Explorers' Near Earth Objects Committee, diz que o novo coronavírus é um bom estudo de caso sobre erros que precisam ser evitados na hora de planejar a prevenção de impactos de asteroides. Jones diz que, apesar da cooperação da Organização Mundial de Saúde (OMS), a organização das informações liberadas à população deixa a desejar, principalmente pelo atraso desse processo. O ex-astronauta conta também que diversas nações escolheram os caminhos a seguir de forma independente, suprindo seus próprios interesses de recursos e fabricação.

"Isso é compreensível, mas não é uma boa forma de lidar com a ameaça de impacto de um asteroide. Uma resposta fragmentada, cambaleante e desigual a uma ameaça de impacto é a receita para atraso e inação, impedindo opções para desviar o asteroide. Precisamos de compartilhamento transparente de todas as observações do objeto e a verificação internacional de todas as previsões de impacto", diz Jones, afirmando que o sucesso de um desvio só será possível com o apoio internacional e o compartilhamento contínuo de informações sobre todas as etapas da missão.

Para Jones, sem essa confiança no momento de compartilhar as informações, as nações vão se defender de forma unilateral, trazendo como consequência a perda de tempo, o desperdício de recursos e o aumento das chances de falhar. "Cooperações abertas nos dão uma melhor oportunidade de avaliar a ameaça de forma adequada, montar uma série de missões confiáveis de desvio e afastar um impacto catastrófico", complementa.

Detecção precoce

Para Lindley Johnson, oficial de defesa planetária da NASA e executiva do Planetary Defense Coordination Office, existem alguns paralelos entre a pandemia (e suas consequências no mundo todo) com as preocupações com asteroides perigosos. O primeiro fator a ser estudado, segundo ela, é a importância de detectar uma ameaça muito antes que ela se torne verdadeiramente perigosa. "Quanto mais cedo você detectar uma ameaça, mais chances existem para tomar ações de prevenção antes que possa haver um impacto significativo", diz.

Reprodução: urikyo33/Pixabay

Além disso, de acordo com Johnson, é preciso se preparar para o inevitável, tendo ciência de que o impacto de um asteroide devastador eventualmente vai acontecer, assim como uma nova pandemia, e que a questão é apenas sobre quando isso acontecerá. Com isso em mente, torna-se importante preparar ações prudentes, como testar diversas medidas de desvio de asteroides. É preciso também de um financiamento de, pelo menos, US$ 200 milhões ao ano — o que, segundo ela, é uma quantia menor do que o necessário para a preparação contra uma pandemia.

Linda Billings, consultora do programa de astrobiologia da NASA, conta que há anos a comunidade científica vem apontando a necessidade de um telescópio espacial para a pesquisa de objetos que se aproximam da Terra, afirmando também ser preciso obter melhores sistemas de observação terrestre, usados para prever o desvio. Para ela, na área de comunicação é preciso de mensagens claras, concisas e consistentes, o que não acontece na situação da pandemia, por exemplo. Com essas tecnologias em mãos, as estratégias e planos de ação conseguem estabelecer quem estará no comando em casos de ameaça de objetos espaciais perigosos próximos da Terra.

É hora de começar a se importar

A comparação entre a pandemia de COVID-19 com o impacto de um asteroide também é feita por David Ropeik, instrutor em Harvard. "Pandemias e o potencial impacto de um asteroide demonstram que eventos de baixa probabilidade e alta consequência raramente trazem importância e preparação para as pessoas. Sabemos dos dois há muito tempo, mas conhecer e se importar são duas coisas diferentes", conta.

Em outras palavras, por se tratarem de eventos raros e com um longo intervalo de tempo entre ocorrências, as ameaças acabam perdendo o seu valor emocional, segundo Ropeik, que afirma ainda que o perigo se transforma em uma ideia abstrata e longe da realidade.

Fonte: Space.com

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