A Lua está enferrujando? Estudos revelam oxidação misteriosa nos polos lunares

Por Daniele Cavalcante | 04 de Setembro de 2020 às 09h54
Shuai Li

Alguma coisa realmente estranha está acontecendo na Lua e deixando cientistas um tanto intrigados. É que foi detectada por lá a presença de hematita, uma forma oxidada de ferro que, ao menos aqui na Terra, precisa de ar e água líquida para se formar, coisas que não são encontradas na Lua com tanta facilidade.

É por causa da hematita que Marte é chamado de Planeta Vermelho. Em 2004, a NASA confirmou a grande presença desse mineral na superfície marciana, o que deu uma coloração marrom avermelhada à paisagem. Por isso, quando vemos o planeta no céu noturno, ele apresenta uma cor avermelhada.

Mas a presença desse óxido de ferro na Lua é estranha, ainda mais considerando o fluxo de hidrogênio dos ventos solares que atingem o nosso satélite natural. O hidrogênio é um agente redutor que deveria ser o suficiente para impedir a oxidação de qualquer coisa que pudesse “enferrujar” na Lua, de acordo com os pesquisadores. “É muito intrigante”, disse o cientista planetário Shuai Li, da Universidade do Havaí em Manoa. “A Lua é um ambiente terrível para a formação de hematita”.

Mapa aprimorado da hematita no polo norte lunar (Imagem: Reprodução/Shuai Li)

A descoberta veio através dos dados coletados pela missão indiana Chandrayaan-1, que conta com o instrumento Moon Mineralogy Mapper (M3). Trata-se de um espectrômetro de imagem capaz de realizar uma análise altamente detalhada da composição mineral da superfície lunar. Foi com o M3 que Li e sua equipe conseguiu encontrar gelo ao redor dos polos lunares em 2018, por exemplo.

Também foi enquanto analisava esses mesmos dados sobre as regiões polares que Li notou “algumas características e padrões espectrais” diferentes do esperado. “Eu estava curioso para saber se é possível que haja reações de água e rocha na Lua. Após meses de investigação, descobri que estava vendo a assinatura da hematita”, conta Li.

Outra curiosidade é que a hematita lunar está mais presente no lado próximo da Lua, ou seja, a face que está constantemente voltada para a Terra. “Mais hematita no lado lunar próximo sugere que ela pode estar relacionada à Terra”, disse Li. É que, talvez, o oxigênio da parte superior da atmosfera da Terra tenha sido soprado para a superfície lunar através do vento solar. Isso realmente pode acontecer, de acordo com as descobertas da missão japonesa Kaguya. “Portanto, o oxigênio atmosférico da Terra pode ser o principal oxidante para a produção de hematita”, de acordo com Li.

Mas há outras possibilidades. Por exemplo, a forma como a hematita está distribuída na superfície lunar indica que ela pode estar relacionada com os vestígios de água descobertos anteriormente e associados a impactos. Pode ser que o gelo pode ter se misturado com o regolito lunar e acabou derretendo durante impactos de asteroides. A nova água líquida poderia então ter colaborado com a formação da hematita.

As cores azuis representam a água congelada nos polos lunares, com a oxidação mais escura aparecendo nos extremos (Imagem: Reprodução/ISRO/NASA/JPL-Caltech/Brown University/USGS)

Outro fator que deve ser considerado é que durante a lua cheia nosso satélite está na cauda magnética da Terra, que fica do lado oposto do Sol. Com isso, nosso campo magnético acaba protegendo a Lua, impedindo que mais de 99% do vento solar atinja nosso satélite natural. Assim, há um intervalo de tempo para que a hematita se forme sem a interferência do hidrogênio intrometido.

Talvez a hematita seja resultado de uma combinação desses três fatores — ou não. Ainda há alguma hematita no lado afastado da Lua, e isso não pode ser explicado pelos ventos solares carregando nosso oxigênio. Mesmo o lado afastado é exposto aos raios solares, recebendo assim o hidrogênio, então é possível que haja algum outro agente não identificado que trabalha a favor da oxidação lunar.

Curiosamente, a hematita, que teoricamente não deveria existir na Lua, pode nos contar muito sobre a evolução e até mesmo sobre a formação do nosso satélite natural, principalmente se pudermos coletar algumas amostras dessa formação para analisar os isótopos de oxigênio de diferentes idades. “Esta descoberta vai remodelar nosso conhecimento sobre as regiões polares da Lua”, disse Li, afirmando que “a Terra pode ter desempenhado um papel importante na evolução da superfície da Lua”.

Fonte: NASA, Science Alert

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