Prévia Ms. Marvel | Quando o Homem-Aranha encontra a Pixar

Prévia Ms. Marvel | Quando o Homem-Aranha encontra a Pixar

Por Durval Ramos | Editado por Jones Oliveira | 07 de Junho de 2022 às 15h00
Marvel Studios

Ms. Marvel chega ao Disney+ com uma proposta bem simples: trazer uma história mais leve e descompromissada para o Universo Cinematográfico da Marvel (MCU, na sigla em inglês). Depois de vermos o mundo quase ser destruído uma dúzia de vezes, é bom colocar o pé no chão e acompanhar as desventuras de uma menina que precisa esconder seus novos poderes da família.

Parece algo banal — e é, assim como é um bom e divertido gibi. E a nova série encarna isso muito bem ao levar para o MCU esse clima mais leve que sempre foi o forte da Marvel nos quadrinhos. Ainda que o tom aventuresco ainda esteja presente, o cerne da trama ainda é a descoberta dessa garota perdida entre dois mundos e que é, acima de tudo, uma fã como nós.

E esse é o grande segredo da série. Ainda que o roteiro gire em torno da origem das habilidades de Kamala Khan (Iman Vellani), fica claro que o grande poder da Ms. Marvel é a identificação — assim como foi nas HQs com um certo escalador de paredes.

Ms. Marvel de volta ao lar

A comparação com o Homem-Aranha não é despropositada. Quando surgiu nos quadrinhos, a heroína logo foi apelidada de Peter Parker dos novos tempos, visto o quanto a estrutura geral de suas histórias reproduzia a mesma dinâmica que Stan Lee e Steve Ditko haviam criado em 1962. E isso também se repete no MCU.

Os dois primeiros episódios de Ms. Marvel replicam muito bem essa essência do Homem-Aranha, dessa vez aquela que vimos nos cinemas. E não apenas pela leveza da história, que mistura uma desventura escolar com problemas típicos da adolescência com esse contorno super-heróico, mas por Kamala ser uma personagem com quem a gente se identifica muito facilmente.

Kamala Khan é puro carisma e inocência. Kevin Feige, proteja essa criança a todo custo (Imagem: Divulgação/Marvel Studios)

E essa comparação com Peter Parker não é demérito algum, tampouco indica uma falta de criatividade da Marvel. O paralelo entre esses personagens é algo que já era apontado nas HQs e ver isso presente na série torna-se um ponto muito positivo e que faz com que fique ainda mais fácil gostar de Kamala.

Até porque Vellani faz uma ótima adolescente confusa entre dois mundos e que tenta encontrar seu lugar. Ela é divertida e carismática, o que faz com que a gente passe a se importar imediatamente com ela. De quebra, ela é tão apaixonada por esse universo de super-heróis quanto o público que acompanha a série, entregando não só diálogos que fazemos enquanto vemos os filmes como reações bastante genuínas de um fã diante de seus ídolos.

E é isso que faz com que Ms. Marvel seja tão divertido. Embora a trama de Kamala tenha algumas nuances muito específicas por causa de suas origens, o ponto central da personagem deslocada que se descobre especial — e que, mesmo assim, precisa lidar com problemas mundanos. É a fórmula que fez muito sucesso com o Homem-Aranha ao longo das décadas e que está presente aqui também.

A dinâmica de Kamala com seus poderes e seus amigos lembra muito o Homem-Aranha (Imagem: Divulgação/Marvel Studios)

Tanto que esses episódios iniciais servem justamente para apresentar esses dilemas da heroína e fazê-la passar pela descoberta de seus poderes. Nesse sentido, Ms. Marvel bebe muito da fonte tanto do Homem-Aranha de 2002 quanto de De Volta ao Lar.

A sequência de Kamala testando e descobrindo seus poderes é praticamente a mesma de Tobey Maguire entendendo o que ele era capaz de fazer. E até mesmo piadas e brincadeiras com outros heróis nesse sentido. Enquanto Peter brinca com a ideia de ser um Shazam, Ms. Marvel tenta ser cada um dos Vingadores — incluindo o Homem-Formiga. E são nessas pequenas brincadeiras que a brincadeira ganha muito charme.

Ao mesmo tempo, o seriado aposta bastante na dinâmica escolar de Kamala. Ela é aquela adolescente que todo mundo vê como estranha e que parece não se encaixar em lugar algum, tendo apenas alguns poucos amigos à sua volta — assim como o Peter Parker de Homem-Aranha: De Volta ao Lar.

Primeiros episódios são centrados na descoberta dos poderes e lembra muito o Homem-Aranha de 2002 (Imagem: Divulgação/Marvel Studios)

E, mais uma vez, a fórmula é bem replicada, com a jovem tendo um amigo inventor ao seu lado e sabendo seu segredo enquanto tenta lidar com o bullying e a falta de atenção na escola. Ela tem até mesmo a sua própria Flash Thompson, uma garota popular que esnoba Kamala, mas que se torna apaixonada pela Ms. Marvel quando a heroína aparece pela primeira vez.

Toda essa mistura de elementos já conhecidos faz com que a nova série do MCU seja bastante familiar, mas sem soar repetitiva ou pouco inspirada. Na verdade, ela parte dessa estrutura já estabelecida para construir outros arcos e outras relações a partir das origens da heroína. Isso sem falar que o carisma de Iman Vellani como Kamala Khan é tão incrível que você rapidamente deixa de se importar com essas semelhanças para curtir aquilo que Ms. Marvel tem de melhor: o clima descompromissado de uma boa e divertida história em quadrinho.

Crescer é uma fera

Só que Ms. Marvel também se aproxima de uma outra história bastante recente da Disney. Enquanto o lado heroico da personagem bebe da fonte do Homem-Aranha, a dinâmica familiar ecoa muito daquilo que vimos há pouco tempo na animação Red: Crescer é uma Fera.

A jovem dividida entre os dois mundos é o ponto central da trama (Imagem: Divulgação/Marvel Studios)

O porquê disso é óbvio: tanto Kamala quanto a protagonista da animação são filhas de imigrantes orientais que precisam se dividir entre duas realidades distintas e carregar o peso desses mundos nas costas, com os poderes sendo apenas uma metáfora para a descoberta da própria identidade. E isso está muito bem representado nesses episódios iniciais e que ganha reforço pela própria estética da série, que traz não só cores vibrantes, mas toda uma linguagem tipicamente adolescente.

Apesar de ser muito divertido ver a garota se tornar uma heroína e brincar com seus poderes, a parte mais interessante de Ms. Marvel é ver o embate com seus pais. Não apenas por ser uma questão geracional, mas há toda uma carga cultural que deixa isso ainda mais rico. Assim como Red já apresenta, Ms. Marvel também traz essa protagonista que quer ser só uma jovem comum, mas tem que lidar com todas as projeções e cobranças de seus pais, que entendem o que é ser um estrangeiro.

E todo esse elemento étnico da série é muito bem trabalhado e de forma bastante orgânica. O roteiro explora bem o fato de Kamala ser filha de paquistaneses e todas as tradições e dinâmicas da própria comunidade são costuradas na trama. Até mesmo pontos históricos, como a dominação inglesa da Índia e a formação do Paquistão na década de 1940, são abordados de forma bem inteligente e conectados à origem tanto de Kamala quanto da própria Ms. Marvel.

Herança cultural da personagem está muito bem inserida no roteiro e dá identidade totalmente nova à série (Imagem: Divulgação/Marvel Studios)

Aliás, a tão comentada mudança nos poderes da heroína é algo que ainda segue em aberto. Isso porque, embora as habilidades realmente sejam outras — ela cria uma espécie de luz sólida ao invés de ser transmorfa, como nos quadrinhos, a origem disso tudo ainda pode ser bem fiel.

Digo isso na condicional porque os episódios divulgados pelo Disney+ não revelam isso e a corrida por respostas é algo que deve ser o centro de toda a trama da temporada. O que fica claro é que há algo de especial em Kamala e em sua família que permitem que ela seja especial.

Sendo inumana ou não, isso é algo que somente as próximas semanas vão responder. Contudo, o pouco que foi mostrado já mostra o quanto Kamala Khan é realmente especial e uma grande adição ao MCU. Divertida, carismática e recorrendo a referências que funcionam muito bem tanto do lado gibi quanto no aspecto cultural, a estreia da heroína adolescente era aquilo que a Marvel precisava em seu universo cinematográfico: um pouco de pé no chão e uma aventura simples e banal para a gente acompanhar sorrindo. Igual um bom gibi.

Ms. Marvel é tão divertido quanto um bom gibi (Imagem: Divulgação/Marvel Studios)

Assim, temos um acerto em cheio na construção da Ms. Marvel. No entanto, a gente sabe que isso não é o suficiente e é nesse ponto que resta a maior dúvida sobre a série. Com uma temporada de seis episódios, os dois primeiros servem apenas para introduzir Kamala e o mundo à sua volta, sobrando pouco espaço para apresentar o arco maior que ela vai ter que encarar.

Há algumas sugestões aqui e ali do que está por vir, mas a preocupação é se esses dois terços restantes de história vão ter o que contar ou se o MCU vai tropeçar mais uma vez em um roteiro com ótimos personagens, mas pouca sustância. Foi o calcanhar de Aquiles de Cavaleiro da Lua e que pode se repetir com Ms. Marvel. Esperamos que não, pois Kamala Khan merece um futuro muito mais brilhante.

Ms. Marvel estreia no Disney+ nesta quarta-feira, 8 de junho.

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