Crítica | Três Verões é um tratado íntimo sobre as diferenças de classes

Por Sihan Felix | 16 de Setembro de 2020 às 19h00
Vitrine Filmes

É sempre muito bem-vindo quando o cinema traz uma abordagem intimista para um tema mais amplo. A partir de personagens alheios à estrutura que move o todo, esses filmes demonstram o quanto algo tão distante pode ser, ao mesmo tempo, tão próximo. É o caso, por exemplo, de Boi Neon (de Gabriel Mascaro, 2015), que trata de um recorte da vida de um vaqueiro que sonha em ser estilista e, com isso, comenta sobre um meio que oprime e desvirtua, como se fosse algo inconcebível. E é assim com Três Verões.

Claro que existem diversos filmes que trazem esse mesmo contraste entre aquilo que somos e aquilo que o mundo permite que sejamos. Não é novidade, por exemplo, uma governanta que, aparentemente, faz parte da casa (ou da família), como a Val, interpretada pela própria Regina Casé, em Que Horas Ela Volta? (de Anna Muylaert, 2015), mas, na verdade, é uma serviçal e lá no fundo (ou não) é tratada como inferior.

Atenção! Esta crítica contém spoilers sobre o filme!

A decomposição

Por mais que Madalena (Casé) aparente sempre estar de bem com a vida e tenha um sorriso fácil, talvez não seja difícil perceber o peso que a personagem carrega. O gestual acelerado, a voz quase imparável... Madá é a síntese de uma ansiedade plantada e regada, alguém que faz de tudo para agradar, não porque gosta ou somente porque é o seu ofício, mas porque desagradar lhe traz culpa, medo.

O sorriso fácil de Madá. (Imagem: Vitrine Filmes)

Casé, nesse sentido, é absoluta com sua personagem. A cena em que ela, convocada para ser filmada, desaba não é potente somente pelo relato de uma mulher que perdeu marido e filha devido a um deslizamento de terra, mas porque, logo na sequência, ela parece engolir o choro e voltar a tentar agradar com sua fala, com seu sorriso. Madá é o reflexo de uma classe pobre que aprendeu a se sujeitar e a estar submissa. Ela demonstra sempre estar preocupada com o que vão pensar dela, algo que se reflete até na cena em que, levada coercitivamente pela Polícia Federal, tenta explicar para o porteiro do condomínio o que está acontecendo.

A direção de Sandra Kogut utiliza toda a habilidade de sua atriz protagonista para construir uma narrativa crítica a partir de um tom de humor cotidiano. É tudo aparentemente leve, mas, ao mesmo tempo, existe uma degradação que é tanto visual quanto emocional. Distribuindo Três Verões em, justamente, três finais de ano, Kogut faz a euforia dos brindes na virada de ano, da casa cheia e da festa transformarem-se na mansidão da mansão vazia e na impessoalidade de uma filmagem publicitária. Quando chega ao terceiro e último dos verões, nem mesmo a casa existe: é Madá e suas amizades comemorando no apartamento deixado por Lira (Rogério Fróes) para ela.

A deterioração é visível. (Imagem: Vitrine Filmes)

Duplo símbolo

Acontece que até mesmo Lira é um símbolo dessa transformação promovida pela unidade da diretora. Se no início sua relação é distanciada, logo é possível perceber sua proximidade com a personagem de Casé. É como se o lugar fosse sendo descascado das futilidades, da riqueza e de um certo modo de ser e estar e, pouco a pouco, fosse sendo revelado o que importa: a amizade, o carinho, a admiração, o respeito.

Três Verões, por essa perspectiva, parte desse íntimo, das relações entre seus personagens, para ser o retrato de uma sociedade que tende a viver de aparências. Não é à toa que, em um momento, são expostos comentários sobre redes sociais. E é tudo tão bem estruturado por Kogut que essas aparências, inclusive, não são somente do aparentar riqueza, mas englobam a própria vida. Lira, assim, é símbolo duplamente, porque sua morte demonstra o fim de qualquer um. Seja rico, pobre, seja Edgar (Otávio Müller) ou Madá, o corpo deteriora e termina.

Lira, o símbolo duplo. (Imagem: Vitrine Filmes)

Diferenças

A questão, por tudo isso, vai muito além do micro, que é a história de Madá, em meio a uma estrutura que move o todo. Aliás, Kogut, em nenhum momento, trata sua protagonista como uma vítima. Sua linguagem é direta e, a partir dela, Madalena é grande, é uma força da natureza. Na tentativa de inferiorizá-la por, supostamente, ter "cara de pobre", a realeza é ridicularizada a partir da antipatia, de uma postura desumana.

Os planos da diretora são reveladores a esse ponto, permitindo que vejamos Madá de frente, de peito aberto, e, ainda, engrandecendo-a com um leve contra-plongée (filmando-a de baixo para cima) enquanto suas detratoras são vistas de perfil, de costas e de maneira desimportante, como uma nota de rodapé da história.

No final das contas, Três Verões pode até demonstrar os efeitos da Operação Lava Jato e dos escândalos de corrupção e, para isso, utilizar-se de personagens à margem de tudo, mas a forma do cinema de sua diretora é muito mais do que um recorte isolado: é um tratado sobre o quanto podemos ser fortes exatamente por termos lutado e, junto a isso, o quanto uma herança pode ser justa em detrimento de outras que apenas solidificam e aumentam as diferenças de classes.

Três Verões deveria ter estreado nos cinemas do Brasil em março, mas foi adiado devido à pandemia do novo coronavírus. Por isso, o filme foi lançado diretamente no streaming do Telecine.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

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