Crítica O Beco do Pesadelo │ Entre homens e monstros

Crítica O Beco do Pesadelo │ Entre homens e monstros

Por Durval Ramos | Editado por Jones Oliveira | 23 de Janeiro de 2022 às 20h30
Divulgação/Searchlight Pictures

O que diferencia o homem de uma fera? Para o diretor Guillermo del Toro, a resposta está justamente na incapacidade dessa besta de resistir a seus instintos. De maneira quase animalesca, é um ser que existe apenas para satisfazer um desejo, ainda que tenha que abrir mão de sua dignidade e de sua humanidade para isso. E o seu O Beco do Pesadelo é um retrato dessa decadência, da transformação do indivíduo nessa coisa.

Trata-se de um voo de Ícaro moderno — ou quase, já que a história se passa na década de 1940, mesma época em que o livro que deu origem à história foi lançado —, focando na figura do ambicioso ajudante de circo Stanton Carlisle (Bradley Cooper) e na sua vontade de voar próximo ao sol do poder e do dinheiro. Movido por esse instinto de lucrar o máximo possível, ele não se preocupa com os riscos que esse desejo cego pode trazer às suas frágeis asas de cera.

E por mais que essa alegoria não seja a mais original do mundo, o modo como del Toro nos apresenta essa história faz a viagem valer a pena.

Ao adotar uma estética noir que casa muito bem com a sujeira desse mundo dos gananciosos e com a ambientação desse mundo pré-guerra, o diretor abre mão de alguns elementos já típicos de sua cinematografia, saindo de sua zona de conforto. Ao invés de apelar para as criaturas estranhas ou da estética mais fantasiosa, ele apresenta uma trama bem mais pé no chão e focada naquilo que há de mais aterrorizante: o próprio ser humano.

Da lama ao caos

Apesar do título sugerir a existência de um elemento sobrenatural ou mesmo de terror, O Beco do Pesadelo traz uma história bem mundana sobre essa decadência humana.

Ambientada em um circo itinerante, vemos Carlisle surgir como um zé-ninguém de passado mal explicado que sabe do seu carisma e usa isso a seu favor para conquistar as pessoas à sua volta e se tornar um charlatão de primeira. Essa sua habilidade é rapidamente usada para tirá-lo da vida em meio à lona e a lama para fazê-lo alçar voos maiores em meio à alta sociedade de Nova York.

Bradley Cooper é esse homem ambicioso que vai passar por cima de todas as regras para conseguir mais poder e dinheiro (Imagem: Divulgação/Searchlight Pictures)

Ainda assim, há algumas pitadas aqui e ali que sugerem essa relação com o fantástico, ainda que de forma simbólica e relacionada com essa degradação que o filme aborda. Del Toro insiste na temática religiosa em vários momentos.

Ao mesmo tempo que exploram a miséria humana, os donos do circo evocam a todo o instante a figura de Deus, da mesma forma que Carlisle lembra de seu pai como um religioso que se entregou à ilusão da fé. E há a figura dos pecados capitais sendo constantemente relembrados como essa extrapolação desses limites morais do homem.

Só que é no próprio personagem de Bradley Cooper que esses instintos descontrolados mais se manifestam e a gente vê a fera realmente aparecendo. Porque suas motivações não são baseadas apenas na vontade de deixar aquela espelunca em que vive, mas de se tornar poderoso mais e mais, passando por cima de todos à sua volta e de todas as regras que lhe são impostas. A fera é, acima de tudo, essa besta descontrolada que se entrega a seus instintos e que não sabe quando parar.

A relação de Carlisle e Lilith é o início de uma espiral descendente (Imagem: Divulgação/Searchlight Pictures)

E é aí que entra Lilith Ritter (Cate Blanchett), uma psicóloga igualmente ambiciosa em quem Carlisle vê uma aliada para aplicar golpes ainda maiores: a partir das informações que ela oferece sobre seus pacientes, o charlatão constrói o espetáculo perfeito para enganar pessoas vulneráveis se passando por médium, vendendo esperanças para almas machucadas.

É nesse ponto que a transformação do homem em besta acontece em definitivo. Sem escrúpulos e entregue totalmente a esse instinto ambicioso, o personagem deixa de ser um humano para ser essa criatura que só se importa em satisfazer seu desejo a ponto de não perceber a própria decadência.

Respeitável público

Nesse ponto, Beco do Pesadelo se torna uma excelente surpresa pelo modo como conduz toda essa história. Ainda que seja exageradamente longo, ele aproveita muito bem o tempo para construir a figura desse jovem que sonha em crescer na vida para, em seguida, subvertê-lo e fazer dele essa criatura que deixou de ser humana.

Carlisle usa sua lábia e carisma para subir nas pessoas e vender falsas esperanças (Imagem: Divulgação/Searchlight Pictures)

E ainda que a trama não seja nada inovadora e surpreendente — na verdade, ela é até bem previsível —, isso não deixa as coisas menos interessantes. Assim como um bom truque de mágica, o longa sabe conduzir o espectador em meio aos simbolismos apresentados e às rimas narrativas que coloca para aprofundar as motivações e o destino de cada personagem, o que funciona muito bem.

Nesse ponto, é mérito total de del Toro que, mesmo fora de sua zona de conforto, consegue criar uma ambientação que te deixa tenso enquanto desenvolve personagens terrivelmente humanos. Envelopado na ambientação noir, tudo isso se torna mais pesado e sombrio, do jeito que a trama exige.

E, como nesse truque de um ilusionista, O Beco do Pesadelo conta até mesmo com aquela distração para desviar nossa atenção do que realmente importa — e isso é a própria Lilith. O filme a vende como a figura dúbia que leva Carlisle à perdição, algo que ela carrega inclusive em seu nome: Lilith, como o demônio devorador de homens da mitologia.

Contudo, apesar de ela ser tão monstro quanto o próprio protagonista, não é ela quem leva o personagem para sua derrocada e são as suas próprias ações as responsáveis por sua transformação nesse ser abjeto.

Mesmo um pouco perdida no roteiro, Cate Blanchett rouba a cena sempre que aparece (Imagem: Divulgação/Searchlight Pictures)

O problema é que isso deixa a personagem de Cate Blanchett muito tempo perdida dentro do roteiro. Ainda que ela seja fundamental para a história que está sendo contada — sobretudo para sua conclusão —, ela passa a maior parte da trama avulsa e deslocada e até mesmo as suas motivações acabam ficando um pouco indefinidas. na tentativa de trabalhar a imagem pretendida para ela, faltou construir melhor a sua base.

Queda de Ícaro

Embora não seja nada surpreendente e o tempo exagerado de tela incomode um pouco, a trama e as atuações de O Beco do Pesadelo prendem o espectador de forma tão magnética quanto um mágico que nos conduz em seus truques. A diferença é que, ao contrário do picadeiro, o roteiro aqui é mais previsível e você até consegue imaginar como as coisas vão acabar já na primeira hora.

mesmo não sendo a melhor coisa de del Toro, Beco do Pesadelo é um ótimo filme (Imagem: Divulgação/Searchlight Pictures)

Isso está longe de ser um problema, mas evidencia como o longa não está à altura de outras produções de del Toro. A falta de sutileza faz com que o filme não seja a fábula que o diretor sabe trabalhar tão bem, mas algo muito mais escancarado e pesado. Mas, ainda assim, acima da média de boa parte dos filmes que chegam aos cinemas, sobretudo pela ótima escalação e entrega de seu elenco.

Cooper transita muito bem entre as personas de seu charlatão, enquanto Cate Blanchett se mostra mais uma vez essa força que atrai olhares e te conquista em poucos segundos. E até mesmo as aparições mais pontuais de Willem Dafoe e Ron Perlman roubam a cena sempre que aparecem.

Assim, por mais que a saída da zona de conforto de del Toro tenha seus contratempos aqui e ali, o saldo ainda é bastante positivo. Pode não ser o voo mais alto do diretor, mas as suas asas ainda continuam intactas.

O Beco do Pesadelo estreia nos cinemas de todo o Brasil em 27 de janeiro; garanta o seu ingresso na Ingresso.com.

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.