Crítica | Mentira Nada Inocente mostra o que nos torna mentirosos

Por Sihan Felix | 13 de Agosto de 2020 às 09h43
Film Forge Productions

Se Mentira Nada Inocente é focado, de fato, em uma farsa gigante, tentei partir de um caso pessoal para entender mais de perto o tamanho de tudo. Quando eu era criança, lembro de ter contado uma mentira que meus pais fingiram acreditar por dois minutos. Eu disse que a tia da escola havia pedido para desenharmos (eu e meus colegas) em uma cartolina. Mesmo sendo fora do orçamento da família, ganhei uma linda cartolina branca e fiz meu melhor desenho, colorido, uma praia. Mas, como a professora não tinha pedido nada disso, eu tive que dobrar tudo e colocar dentro da mochila quando fui levar para a escola... claro que amassou.

Mesmo assim, escondido, coloquei a nota máxima no canto daquele papel e escrevi o nome da professora. Feliz, mostrei para meus pais (com a cartolina mais parecendo um origami que deu errado): “Tirei 10.” Eles sorriram e fui para meu quarto. Dois minutos depois, minha mãe foi até mim e me deu uma das maiores lições de minha vida. A sensação daquela bronca – a mais amorosa das broncas – permanece em mim até hoje e me faz tentar trazer o máximo de verdade tanto no meu trato com os outros quanto comigo mesmo (criando até alguns paradoxos).

A questão é que paralelizar dois fatos que partem da mesma premissa (uma mentira) só teria o mesmo efeito real se eles tivessem a dimensão semelhante. No meu caso, a relação é quase contrária. Colocar uma mentira inocente de uma criança ao lado de um caso que envolve milhares de dólares e que brinca com as boas intenções das pessoas me serve somente para dimensionar a questão e perceber o grau doentio do que Katie Arneson (Kacey Rohl) elabora.

Katie (Rohl) em cena de Mentira Nada Inocente. (Imagem: Film Forge Productions)

Atenção! Esta crítica contém spoilers sobre o filme!

A mentira como necessidade

Por outro lado, existe uma síndrome desenvolvida por Katie que pode deixar suas atitudes mais claras e, simultaneamente, mais complexas. Em alguns momentos do filme, ela comenta que inventou estar doente pela primeira vez quando, ainda criança, perdeu a mãe. Nesse sentido, pode ficar explícito o início de um transtorno psiquiátrico: a síndrome de Münchausen, que surge após um trauma e faz os indivíduos simularem estar doentes para conquistarem atenção e simpatia.

Mentira Nada Inocente, aliás, não se limita a contar a história. Enquanto o roteiro, escrito por Yonah Lewis e Calvin Thomas (parceiros desde o início da carreira com Amy George – filme de 2011), relata as situações com o máximo de naturalidade possível, a direção dos próprios Lewis e Thomas investe em uma tensão crescente. Por essa perspectiva, ao mesmo tempo em que é possível criar alguma repulsa sobre as atitudes de Katie, também existe uma sensação de urgência que pode plantar um nervosismo crescente no espectador.

Isso acontece a partir da escolha de planos racional da dupla. A formalidade dessa decupagem vai desde os closes que extraem lágrimas possíveis de causar empatia às cenas em que, distanciada da protagonista, a câmera parece colocar quem assiste ao filme como um voyeur, como alguém que observa tudo aquilo clandestinamente e, obviamente, nada pode fazer.

Na visita aos pais de Jennifer (Amber Anderson), permanecemos como voyeurs. (Imagem: Filme Forge Productions)

Além disso, a trilha sonora de Lev Lewis (também de Amy George e dos demais filmes da dupla) causa, no mínimo, alguma agitação. O trabalho percussivo do compositor chega a ser irritante. Essa irritação, porém, consegue construir uma simbologia justamente com as situações expostas, como se a música coubesse na vida assim como a mentira cabe na mente da personagem de Rohl. Ou seja: a mentira se instalou como necessidade a partir de um trauma e a música, por sua vez, invade White Lie (título original) com a necessidade de, de repente, causar a mesma sensação doentia sofrida por Katie, unindo tudo em um conceito de unidade sólido.

Uma prisão no passado

No final das contas, nem consigo imaginar a distância da minha mentira infantil para a cometida por Katie. Junto a isso, sendo um transtorno psiquiátrico o que a acomete, a mentira dela não pode ser a base da significação de caráter. Não se trata de um traço moral, mas de uma condição médica. Lá no fundo – e o final do filme talvez deixe bem claro –, alguém que, ainda criança, perde a sua principal fonte de amor e carinho de maneira traumática pode passar a carregar uma sensação de vazio e solidão bem complicada.  

O título nacional, então, não poderia deturpar mais a história, porque não se trata de uma mentira nada inocente: é uma mentira infantil – dessas que são inventadas quando não se quer ir à escola – que permanece como uma doença, invadindo a vida adulta e, no fim de tudo, consumindo outras vidas. Como sempre, o que acontece quando somos crianças influencia quem nos tornamos como adultos, podendo, inclusive, prender-nos ao passado.

Doug (Martin Donovan): o pai que não supriu as necessidade emocionais da filha. (Imagem: Film Forge Productions)  

Felizmente, não sofri um trauma como o de Katie quando era criança, minha caligrafia não era das melhores para escrever o nome da tia da escola e meus pais sabiam que não se faz origami com cartolina. Tudo isso (e muito mais) deve ter formado quem eu sou hoje, assim como cada um de nós deve ter uma história sobre mentira para contar.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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