Crítica | Judas e o Messias Negro é direto e sem verniz

Crítica | Judas e o Messias Negro é direto e sem verniz

Por Sihan Felix | Editado por Jones Oliveira | 04 de Março de 2021 às 21h00
Warner Bros.

Por mais que seja possível escrever sobre os Panteras Negras e o quanto a luta antirracista pelos direitos civis continua sendo necessária, a questão em Judas e o Messias Negro não é a história em si. O que pode chamar mais atenção no filme é como essa história é contada e por quais meios, sejam internos ou externos, a direção de Shaka King (de Newlyweeds — filme de 2013) instala as sensações.

Isso porque o drama biográfico sobre o assassinato de Fred Hampton não traz exatamente surpresas mesmo para quem não conhece os acontecimentos — o que já pode ser assustador. O que é visto é algo trazido à tona até mesmo pela Marvel e seu Pantera Negra (de Ryan Coogler, 2018). Inclusive, Coogler, aqui, trabalha como produtor e parece ter investido em aspectos nos quais pode ter encontrado travas naquele blockbuster pela enorme necessidade de abrangência comercial. Dando carta branca a King, não é de se espantar o peso social muito mais direto no filme em questão.

Daniel Kaluuya como Fred Hampton em cena do filme. (Imagem: Divulgação/Warner Bros.)

Atenção! Esta crítica pode conter spoilers sobre o filme!

Quer ficar por dentro das melhores notícias de tecnologia do dia? Acesse e se inscreva no nosso novo canal no youtube, o Canaltech News. Todos os dias um resumo das principais notícias do mundo tech para você!

Mais assustador

Mesmo nos filmes mais politicamente engajados, o racismo da lei dos EUA dificilmente é posto na mesa de maneira direta. O citado Pantera Negra, por exemplo, em alguma medida, às vezes pode dar a entender um certo abrandamento nas situações. O desejo por amenizar, nesse caso, acaba por relegar a Erik Killmonger (Michael B. Jordan) o papel de vilão, mesmo que, em alguma medida, ele possa ser o mais lúcido e, no caso, um Pantera Negra de fato.

Em Judas e o Messias Negro não existem essas medidas cautelosas. King, que também é corroteirista do filme junto ao estreante em longas-metragens Will Berson, expõe a guerra suja que o FBI e a polícia em sua totalidade travam contra qualquer tipo de ascensão da comunidade negra. Aliás, é uma batalha infindável que não parte da linha de frente policial, mas de um sistema que pouco ou em nada abre espaço para o progresso do diferente.

O diretor, então, não enverniza as situações, não busca a suavidade. Ao mesmo tempo em que, visualmente, ele opta por uma Chicago de sombras frias, quase azuladas, tornando o universo do filme turvo, a clareza real está em sua moralidade. Esta, no caso, faz-se presente desde a primeira sequência do filme, quando o efeito é causado pela montagem de Kristan Spague (de Nonajoler Kabbo). Ele (Spague) passa por imagens de arquivo dos Panteras até chegar a Bobby Seale, cofundador do Partido, que comenta sobre os programas sociais realizados para o povo e para crianças da comunidade. Logo depois, emenda na encenação de Martin Sheen como J. Edgar Hoover (o primeiro diretor do FBI) dizendo ser, os Panteras, a "maior ameaça à segurança interna do país".

Desde esse princípio, para King, não existe um lado a ser escolhido; não existem pensamentos supostamente intrincados e filosofias baratas sobre qualquer dualidade das situações. Essa postura está até mesmo na figura do informante Bill O'Neal (LaKeith Stanfield), que acaba se envolvendo com o agente Roy Mitchell (Jesse Plemons) a partir de um roubo de carro. Acontece que o tal roubo é realizado utilizando um distintivo, não uma arma. Mais tarde, seria explicado mesmo que já estivesse suficientemente claro: "Um distintivo é mais assustador do que uma arma."

O'Neal e Mitchell no ambiente esverdeado. (Imagem: Divulgação/Warner Bros.)

A incursão de O'Neal como delator é rica não somente para fomentar o personagem em si, que parece perceber o tanto de poder que recebe ao passar de um negro com roupas de Humphrey Bogart e distintivo falso a um auxiliar do FBI com boina de um Pantera. Isso, claro, é a camada mais fina, superior, porque a atuação de Stanfield enche de dúvidas suas atitudes e, com isso, contrasta com o núcleo branco do elenco, que é definitivamente unidimensional nas questões raciais. O ambiente esverdeado das aparições de Mitchell e Hoover, inclusive, acrescentam o aspecto do nojo às relações tramadas por eles.

A busca pelo ponto de partida

É por meio da visão de O'Neal, inclusive, que Hampton (Daniel Kaluuya) é apresentado. As angústias do então Judas alimentam a grandeza daquele que é o Messias. Nesse sentido, Kaluuya desempenha uma função que é, simultaneamente, grandiosa e humilde, como que para deixar clara a vulnerabilidade de sua personagem. A timidez, contestada por Deborah (Dominique Fishback), cede ainda mais complexidade a um homem que tem no ímpeto da oratória seu forte. A própria Deborah não é coadjuvante no crescimento de Hampton, sendo importante até mesmo para que ele pense e repense seus discursos com menos rispidez.

Por essa perspectiva, a cena do assassinato de Hampton fundamenta todo o aparato estético e moral de Judas e o Messias Negro. Isso porque ela (a cena) é uma síntese do próprio filme: acontece por meio de uma delação, é cruel, sem qualquer chance de reação e enquanto se está dormindo. O contraste fica pela imagem em primeiríssimo plano de Deborah, que, de costas para o fato, escuta policiais atirando no seu companheiro já morto sem derramar uma lágrima. É uma ação que acontece ao fundo, em último plano, desfocada, porque não importa mais a impossibilidade de reação de um homem morto, assassinado de maneira covarde; o que importa é a expressão dela (de Deborah), grávida, que, a partir daquele momento, pode alimentar a necessária rebelião antirracista.

Deborah é a chave. (Imagem: Divulgação/Warner Bros.)

No final das contas, Judas e o Messias Negro é um filme que, de repente de um jeito muito claro, está muito mais disposto a um embate contra o sistema distorcido que assassina Georges por lá e Evaldos por aqui do que em abraçar biograficamente seus personagens. Não que isso não aconteça, mas King, como dito, não está interessado nos elementos turvos — como ao desfocar os tiros em um Hampton já morto —, mas na moralidade. E esta, finalmente, só pode ser alcançada em sua plenitude através de um mundo que parta da equidade. A revolução por igualdade começa na percepção de que, para ela, é necessário alcançar um ponto de partida de iguais condições.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.