Crítica | Framing Britney Spears humaniza uma celebridade afetada pelo sexismo

Crítica | Framing Britney Spears humaniza uma celebridade afetada pelo sexismo

Por Natalie Rosa | 20 de Fevereiro de 2021 às 09h30
Divulgação: Hulu/The New York Times

O fim dá década de 1990 e o início de 2000 ficou marcado pela ascensão dos grupos de música pop, as famosas boy bands, como Backstreet Boys, N'Sync, Westlife, entre outros. Também surgiram na mesma época grandes cantoras que, até hoje, são referência no gênero musical, como Christina Aguilera e Britney Spears. Entre todos esses artistas, Britney foi quem mais se destacou na época, com uma carreira tão satisfatória quando problemática — mas não por sua culpa.

Nascida em uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos, não demorou para que Britney fosse vista como uma criança prodígio e, anos depois, uma adolescente com um alto potencial para fazer sucesso. Com talento para cantar e dançar, a artista apresentou o famoso programa infantil Clube do Mickey, que revelou outros grandes artistas, como Justin Timberlake, Ryan Gosling e até Christina Aguilera. Alguns anos depois, ela decidiu seguir a carreira solo como uma cantora pop.

Mas a carreira de Britney Spears passou por altos e baixos desde a sua estreia no mundo musical, quando ela tinha apenas 17 anos. E hoje, quase 13 anos depois de ter um surto registrado por câmeras e virar piada no mundo inteiro, a sua vida é controlada pelo seu pai. Muitas pessoas ainda veem a cantora como uma artista de sucesso que "ficou louca", banalizando o termo, e não entende como a sua vida chegou neste ponto. Pensando nisso, o The New York Times, em parceria com o Hulu, produziu um episódio especial sobre a vida da cantora para a série The New York Times Presents.

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Imagem: Reprodução

Atenção: esta crítica contém spoilers do episódio Framing Britney Separs, da série documental The New York Times Presents!

O documentário sobre Britney Spears foca no termo "curatela" que, provavelmente, foi ouvido pela primeira vez por muitos. A palavra é usada quando uma pessoa adulta, geralmente idosa ou com transtornos mentais severos, é incapaz de tomar decisões sobre a sua própria vida, sejam pessoais, profissionais ou financeiras, e precisa de uma espécie de guardião legal, aprovado por um juiz. Britney tem como curador o seu pai, Jamie Spears.

Com o foco definido, o The New York Times faz uma ótima investigação jornalística sobre como o termo está incluído na vida pessoal e profissional da cantora. O documentário, então, trabalha em mostrar o que aconteceu no passado até chegar nesse ponto, e como o assunto vem sendo tratado hoje na justiça e pelos fãs. Os fatores que alimentaram o famoso surto de Britney Spears de 2007 são escancarados com episódios descarados de misoginia, algo que não era debatido na década de 2000.

Em diversas entrevistas, Britney era questionada quanto às suas músicas, letras, danças sensuais e roupas decotadas, mostrando a barriga e as pernas. A artista era até mesmo questionada sobre a ilusão dos pais de que ela tinha responsabilidade pelas crianças que eram suas fãs, que poderiam ver a sua performance como um mau exemplo. Eram comentários duros que, se fossem feitos hoje, jamais seriam aceitos por quem estava assistindo, e os entrevistadores seriam duramente criticados. Mas não era o que acontecia na época, então se tornou um tanto quanto assustador ouvir aqueles depoimentos nos dias de hoje, que faziam a artista chorar em frente às câmeras, sem qualquer possibilidade de conseguir conter a sua fragilidade.

Imagem: Reprodução/Hulu/The New York Times

Framing Britney Spears deixa de lado os bons momentos da carreira de Britney Spears, pois isso todo mundo já conhece, visto que ela é uma das cantoras mais populares do mundo, e foca na perseguição sofrida por ela. Além das entrevistas absurdas, vemos o relacionamento conturbado com Justin Timberlake, em que ele a expôs para que fosse julgada pelo fim do relacionamento, e vemos também quando o seu ex-marido e ex-dançarino, Kevin Federline, transformou a vida dela em um inferno em terra para conseguir a guarda dos dois filhos.

O episódio mostra ainda a constante perseguição de Britney Spears por fotógrafos, os paparazzis, que faturavam quantias milionários por cliques da cantora, e que tiveram participação em todo o processo que danificou a sua saúde mental. O que na época era visto como engraçado e com a justificativa de que "ser famoso é uma escolha", hoje acaba assustando. Todos estavam sedentos para conseguir fotos comprometedoras de Britney, o que aconteceu muitas vezes, como quando ela foi vista dirigindo com o filho bebê no colo. Um prato cheio para que as críticas continuassem sendo alimentadas.

Hoje, anos depois de ter enfrentado todos esses problemas, Britney luta pela liberdade de poder tomar as suas próprias decisões, como uma mulher adulta mentalmente capaz. Isso é mostrado através de depoimentos de advogados envolvidos no caso, pessoas que conhecem Jamie, o pai, e não entendem o motivo de ele ainda querer estar nesse controle. A produção ainda dá visibilidade ao movimento FreeBritney, criado por fãs, que estão sempre acompanhando as sessões nos tribunais que estão decidindo o futuro da cantora.

Ao contrário do que acontecia nas décadas passadas, hoje Britney consegue mostrar quem é através do Instagram, algo que não existia na época, assim como chance de ela se defender e acompanhar o apoio dos fãs. Na internet, ela não fala sobre seus problemas, mas consegue ser ela mesma, seja postando vídeos de exercícios, com os filhos e com o namorado, diversas mensagens motivacionais, e recebendo comentários diários de adoração. A série mostra que, claramente, a cantora não teve ao seu lado pessoas que poderiam colaborar para que ela aguentasse a pressão e o controle da sua sanidade, e que se tudo acontecesse nos dias de hoje a situação seria diferente.

Imagem: Reprodução/Instagram/Britney Spears

Framing Britney Spears não mostra simplesmente o lado difícil da fama, mas também humaniza uma das artistas mais renomadas dos últimos anos, trazendo uma empatia não só para quem já acompanha a carreira da cantora, como também quem não fazia ideia da pressão constante sofrida por ela. No dia 17 de fevereiro de 2007, Britney, em um pedido velado de ajuda, quebrou as janelas do carro de um fotógrafo e raspou a própria cabeça em um salão de beleza, tudo documentado pelos paparazzis, dando início a uma série de piadas que circulam na internet até hoje, mesmo que a saúde mental tenha se tornado tema de discussões atuais.

O episódio chega ao fim com uma pequena vitória de Britney Spears na justiça, mas o caso segue em andamento e a cantora continua buscando pela liberdade de tomar suas próprias decisões.

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