Crítica Eduardo e Mônica | Não existe razão nas coisas feitas pelo coração

Crítica Eduardo e Mônica | Não existe razão nas coisas feitas pelo coração

Por Beatriz Vaccari | Editado por Jones Oliveira | 24 de Janeiro de 2022 às 08h40
Globo Filmes

Quando Renato Russo cantou que não há razão nas coisas feitas pelo coração, ele não estava errado. Eduardo e Mônica é uma canção que inevitavelmente acabou criando dois personagens populares da música brasileira e consequentemente tornou-se referência para o famigerado "opostos se atraem". Finalizada em 2019, a adaptação cinematográfica levou um tempão para ser concluída e ainda mais dois longos anos para chegar às telonas por conta da pandemia da covid-19.

É necessário explicar esse contexto para mensurar a tamanha responsabilidade na hora de trazer dois personagens tão significativos e eternizados na música do Legião Urbana para uma narrativa audiovisual. Uma vez que quanto maior a distância entre a expectativa e realidade, maior a frustração, o diretor René Sampaio mexe com a memória afetiva do brasileiro e também com a cultura nacional entregando uma história sem beirar o surrealismo — e que pode estar acontecendo mais perto do que imaginamos.

"Era nada parecido; ela era de Leão e ele tinha dezesseis"

Eduardo e Mônica é, sobretudo, um filme sobre paixão e para os apaixonados — mas não no sentido de entregar uma comédia romântica repleta de elementos escapistas para dias difíceis.

René Sampaio propõe uma reflexão praticamente universal sobre a romantização das diferenças e como a realidade pode ser um tanto dura para os românticos incorrigíveis. Quando Renato Russo contou uma história sobre duas pessoas absolutamente diferentes uma da outra (seja na faixa etária até a assuntos mais complexos, como posicionamentos sociopolíticos), pouco se pensou o quão difícil seria viver esse romance na prática, e a realidade acaba sendo bem distante do romance que os versos da canção propõem: chega um momento que o amor é o de menos.

Isso pode acabar ressoando em cada um de maneira dolorosa, quase sem pedir licença; mas Sampaio conta essa história de um jeito bem natural e fluido, sem dar margens para aqueles sem decepções amorosas dizerem qualquer coisa sobre a mudança de tom da música. Não existe.

Gabriel Leone e Alice Braga são Eduardo e Mônica (Imagem: Divulgação / Globo Filmes)

Numa realidade, seja em 2022 ou 1986, seja em Brasília ou no Rio de Janeiro, há um momento em que a própria vida exige sintonia nos passos em que damos, e Eduardo e Mônica traz esse momento de consciência de forma sutil e discreta na superfície, mas que arranha no interior — exatamente como acontece na vida real.

Tal como qualquer início de relacionamento, a paixão mascara essas diferenças à princípio, mas depois elas passam a se tornar características gritantes e decisivas para uma eventual ruptura. Eduardo e Mônica não as romantiza por si só, apenas as mostra sendo romantizadas no começo por ambas partes do relacionamento como acontece em qualquer outro.

Tudo está aqui: as falhas de comunicação que indicam o fim e a impaciência para resolver crises minúsculas, mas que mostram serem um acumulado de diversos outros incômodos.

"E todo mundo diz que ele completa ela e vice-versa"

O diretor ainda oferece uma reflexão sobre os paradigmas que nós mesmos criamos quando ouvimos essa história pela primeira vez. Mônica (Alice Braga) é uma mulher com espírito livre, rockeira e muito inteligente — como o músico eternizou em seus versos. Eduardo (Gabriel Leone) de fato está prestando vestibular e não é o melhor aluno em sua turma, porém o interessante de se acompanhar é como Sampaio explora o coração tão puro como o de uma criança de seu personagem, capaz de quebrar as barreiras que Mônica construiu ao seu redor.

O romance escrito por Renato Russo nas telonas brasileiras (Imagem: Divulgação / Globo Filmes)

No final das contas, o tão esperado ensino sobre amadurecimento acaba virando-se como alguém gira um tabuleiro do avesso: a inocência (e até mesmo ingenuidade) de Eduardo mesclado ao seu entusiasmo pelo agora e paixão pela vida acabam dando à Mônica a maturidade que todos acreditavam que ela tinha.

Eduardo e Mônica, nesse aspecto, quebra a ideia de que idade e autonomia são relativos a maturidade emocional; René Sampaio mergulha o longa nessa reflexão e forma um bolo na garganta de cada espectador. A forma como ressoa, no entanto, é muito particular de cada um: seja transbordando em lágrimas nos créditos finais ou tendo vontade de levantar da poltrona e aplaudir para a tela.

"E quem me irá dizer que não existe razão"

No final das contas, Eduardo e Mônica acontece mais perto do que imaginamos. O que se mostrou inicialmente ser uma canção com um conto de fadas moderno sobre opostos acaba se tornando, na prática, uma novela adulta e urbana: com longos expedientes, cansaço mental, parentes repletos de pré-conceitos, grupos de amigos com diferentes costumes e distâncias que são mais díficeis de lidar do que o esperado.

O filme mostra que, na prática, as coisas são diferentes, e mesmo trazendo um final feliz como o próprio Renato Russo propusera, existe aqui a ideia de "pessoa certa na hora errada" ou a vontade de fazer dar certo independentemente de qualquer coisa.

Eduardo e Mônica chega aos cinemas em janeiro (Imagem: Divulgação / Globo Filmes)

Ambientado numa Brasília que se reerguia da Ditadura Militar e mergulhado em clássicos do rock 'n roll e da música oitentista estrangeira, Eduardo e Mônica fecha o ano (ou inicia 2022) celebrando o cinema nacional e dando vigor à uma das mais populares histórias de amor brasileiras.

Eduardo e Mônica está em cartaz nos cinemas de todo o Brasil; garanta seu ingresso na Ingresso.com.

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.