Crítica Drive My Car │ Sobre se permitir a sentir as próprias dores

Crítica Drive My Car │ Sobre se permitir a sentir as próprias dores

Por Durval Ramos | Editado por Jones Oliveira | 26 de Março de 2022 às 16h30
Bitters End

Drive My Car não é um filme fácil. E não apenas por ser propositalmente longo, com suas quase três horas de duração, mas trazer uma estética bem fora daquela que estamos habituados a conferir no cinema e, principalmente, por carregar uma mensagem pesada que nem sempre estamos dispostos a ouvir e a aceitar.

Tanto que a jornada do longa é justamente sobre isso: sobre um homem que se vê perdido diante do próprio luto e que tenta evitar a dor, se apegando a uma sombra do passado e à culpa para não ter que aceitar seus sentimentos. E não é fácil encarar tudo isso, como a história de Yusuke Kafuku (Hidetoshi Nishijima) bem apresenta.

E por mais que estejamos falando de uma situação tão universal quanto a negação da dor e a fuga de qualquer resquício de sofrimento, o que torna o filme de Ryusuke Hamaguchi tão interessante é justamente esse olhar mais oriental que ele traz para o modo como lidamos com esses sentimentos.

A abertura que o cinema asiático teve ao longo dos últimos anos no Ocidente nos permitiu ver como essas outras culturas encaram e lidam com esses temas que são comuns a todos. E isso é parte do que torna Drive My Car tão rico, já que é esse olhar sobre a própria sociedade japonesa e como ela lida com essas emoções é que fazem com que a viagem de Yusuke e sua bagagem emocional seja tão indigesta.

Dores que não cabem em um porta-malas

A história de Drive My Car é relativamente simples. Yusuke é um ator e dramaturgo que perde a esposa que tanto amava após ela ter um mal súbito. E essa perda repentina deixa um vazio não apenas pela saudade, mas também pela culpa e pelas dúvidas que ele próprio carrega sobre o que era seu relacionamento — e esse misto de apego a lembranças com todos esses sentimentos que ele mesmo não compreende e que tenta empurrar para baixo do tapete que fazem dele esse alguém amargurado.

A relação de Yusuke com o carro vai além do apego material, mas às memórias que ele representa (Imagem: Divulgação/Bitters End)

Só que Yusuke acaba tendo que encarar toda essa dor quando é convidado a participar de uma adaptação da peça Tio Vânia, do russo Anton Tchekhov — que era justamente o seu papel na época da perda da esposa. A partir disso, ele precisa dividir o seu carro com uma jovem motorista com quem passa a se abrir e encarar o mundo para além da sua própria dor.

E é aqui que esse olhar nipônico para a nossa relação com os nossos sentimentos chama a atenção e se difere daquilo que o cinema hollywoodiano está habituado a fazer — a começar pelo ritmo. Por ser uma trama bastante intimista, o longa não tem medo de pisar no freio e adotar um ritmo propositalmente lento para explorar todas as emoções e fazer com que a gente se conecte a Yusuke e toda a bagagem que ele carrega ao longo dos anos.

Exemplo disso é que a primeira meia hora de Drive My Car é inteiramente dedicada a seu prólogo apenas para que entendamos o tamanho do amor do personagem por sua esposa, apesar das suas falhas e incongruências. E isso se estende para outros momentos, sobretudo na relação do protagonista e seu carro. Assim, pode ser que muita gente ache o filme arrastado e até mesmo difícil de encarar, mas a verdade é que a marcha reduzida é mais do que necessária para que possamos mergulhar em quem é Yusuke Kafuku.

Ainda que bastante contida, a entrada da jovem Misaki faz Yusuke encarar a própria dor (Imagem: Divulgação/Bitters End)

E é aí que o carro desempenha um papel mais do que importante. Embora ele tenha uma participação até que bastante discreta na história em si, ele é simbolicamente importante para entender o personagem, pois trata-se da representação desses sentimentos internalizados.

De forma bem direta, o veículo materializa esse apego que Yusuke tem com o passado. É dentro desse Saab 900 que ele ouve incessantemente a voz da esposa declamando falas de Tio Vânia, quase como se fosse uma forma de estar em constante contato com ela, preenchendo esse vazio que ele carrega.

É por essa razão que ele se sente tão incomodado inicialmente com o fato de ter outra pessoa ao volante, pois Misaki Watari (Toko Miura) é uma estranha invadindo seu mundo. Contudo, é essa intromissão que permite que ele encare verdades das quais passou os últimos anos fugindo — por mais que isso tudo estivesse sendo jogado em sua cara a ponto de ele próprio repeti-las como um mantra.

O texto de Tchekhov anda em paralelo e inteiramente entrelaçado na dor do protagonista (Imagem: Divulgação/Bitters End)

Isso porque tanto as falas que Yusuke declama dentro do carro quanto o próprio ensaio com a equipe de atores dialogam diretamente com o que o protagonista sente, mas tenta sufocar. São duas histórias que estão intrinsecamente conectadas, embora Yusuke pareça ser incapaz de notar isso. Mesmo sendo conhecido por sua adaptação da obra de Tchekhov, ele está tão focado em não sentir nada do seu luto e da sua dor que parece ter se tornado surdo para as palavras que ele próprio diz.

Assim, a verdadeira viagem de Drive My Car é para o processo de aceitação e libertação, de entender as próprias cicatrizes e aprender a conviver com elas — e que nem sempre isso é fácil. E o modo como isso é construído na tela, com toda a calma e paciência do mundo para que a gente participe passo a passo desse processo é recompensador. É possível sentir o peso saindo dos ombros de Yusuke quando ele finalmente entende o peso das falas que passou anos declamando de forma robótica e vazia — quando aceita que está tudo bem sofrer.

Sentimentos estão aí para serem sentidos, por mais amargos que sejam. São, afinal de contas, uma viagem necessária.

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