Crítica | Coda é sobre a fragilidade da existência

Por Sihan Felix | 11 de Agosto de 2020 às 10h13
1976 Productions

Coda pode não ser um filme que resistirá na memória. Talvez, seja somente um filme passatempo, desses que tentam emocionar – e até conseguem –, mas que logo são soterrados por novas experiências e acabam sendo esquecidos. Por outro lado, raramente me volto para questões pessoais ao escrever uma crítica, ainda mais em filmes recentes, mas, neste caso, eu não seria verdadeiro se optasse pelo distanciamento da temática.

A história, dirigida pelo estreante Claude Lalonde, segue Henry Cole (Patrick Stewart), um pianista famoso que, após dois anos longe dos palcos, retorna aos concertos, sendo acompanhado por constantes crises de ansiedade. Sua inspiração para continuar acaba sendo uma jornalista, Helen Morrison (Katie Holmes), que se integra à sua vida de maneira muito presente.

Atenção! Esta crítica contém spoilers sobre o filme!

Assim começa

“Nietzsche uma vez disse que, sem a música, a vida seria um erro. Filósofos alemães costumam exagerar, mas isso faz sentido. Eu sei que, sem a música, a minha vida teria sido incompleta de uma maneira fundamental, como se eu não tivesse amigos ou lembranças. Até já tentei ser pianista uma vez, até perceber a fragilidade que é tocar piano..."

A narração da personagem de Holmes, que abre o filme, me gelou. Por alguns momentos, eu não sabia se aquela fala era do filme ou se minha cabeça já estava revivendo algumas memórias. “Sem a música, a minha vida teria sido incompleta, como se eu não tivesse amigos ou lembranças”. Essa frase ficou ecoando aqui dentro por algum tempo, e sempre finalizada do mesmo jeito: “Até já tentei ser uma pianista, até perceber a fragilidade que é tocar piano...”

Henry e Helen. (Imagem: 1976 Productions)

Eu comecei a estudar música aos sete anos de idade, piano aos nove. Eu era da periferia de Recife e não tinha a menor condição de ter sequer um teclado. Meu pai, que era representante-vendedor autônomo de peças de trator, criativamente, desenhou as teclas de um piano em um papelão e colou na mesa. Eu estudava ali, sem som. Só descobria a sonoridade de tudo nos sábados pela manhã, quando tinha aula.

Quando completei 13 anos, já havia ganhado um piano antigo de um cliente do meu pai. Nele, dava aulas para ajudar em casa. No mesmo ano (1998), toquei em um concurso internacional em Curitiba (enviado com patrocínio da Universidade Federal de Pernambuco – diretamente pelo reitor, que, ironicamente, chamava-se Mozart) e, nos anos seguintes, fui concertista em várias apresentações. Algumas vezes, fugi da escola para ir buscar uma sala vaga no conservatório e conseguir estudar em um bom piano. Meu foco, por inteiro, era dedicado à música.

Acontece que, ainda criança, eu havia quebrado o meu braço direito de um jeito bem grave e, quando adolescente, foi a vez do esquerdo. Em 2001, as dores para tocar já eram companheiras. Passei muito tempo lutando uma luta perdida e, então, depois de trocar o bacharelado em piano pela licenciatura em música mais de uma vez, fui diagnosticado com depressão.

A ansiedade e seu poder destruidor. (Imagem: 1976 Productions)

Coda, nesse sentido, poderia ser um gatilho para desencadear uma crise forte sobre algo que, intimamente, eu sinto que superei – e comentar sobre isso abertamente já não é muito difícil. De todo modo, o filme, sem fazer muito esforço, construiu relações entre aquele pianista e quem eu sou que vão além do instrumento e do ofício.

Por essa perspectiva e em paralelo, enquanto a calma daquele homem que luta contra si mesmo parece constantemente prestes a sumir (e até some rapidamente durante uma partida de xadrez), sempre escutei de alunos, colegas e amigos sobre quão grande é a minha paciência. A ansiedade, então, vem para minar essa provável qualidade de uma forma que ela (a paciência) é exterminada. Acontece que a única que acaba de verdade é aquela consigo mesmo.

Perde-se, assim, o autoequilíbrio. Este, por sua vez, consome a autoestima – “Você realmente gostou do concerto?”, Henry pergunta para Maya (Letitia Brookes) quando ela lhe pede um autógrafo. O fim do amor-próprio, finalmente, acaba por ser uma parcela do que de pior pode acontecer para o desenvolvimento pessoal.

Assim parece

A direção de Lalonde não busca intensificar o que quer que seja. Existe um tom quase banal demais na relação do diretor com tudo aquilo que ele filma. O peso dramático do roteiro de Louis Godbout (de Monster – filme de 2019), aliás, pode não demorar a ser escondido pela exposição praticamente televisiva, com os cortes rápidos da montagem de Claude Palardy (de Mont Foster, 2019) buscando espaço para inexistentes comerciais e algumas cenas potencialmente simbólicas sendo subaproveitadas.

Sem muito espaço para respirar, as sensações de Henry começam a ser normalizadas, o que não aconteceria se os momentos sãos fossem aproveitados com um ritmo menos acelerado. Isso, ainda, pode ser sintomático de um filme que parece buscar uma sobrevivência comercial evitando ser menos apressado.

Quando Coda finalmente começa a aproveitar suas cenas e relaxar – o que acontece nos minutos finais –, pode ser tarde demais. Encostado na enorme pedra com milhões de anos de existência, a personagem de Stewart parece em outro filme. A natureza, enfim, é muito maior e, especialmente, muito mais duradoura do que aquele homem. A rocha, desprezada pela maioria mesmo estando presente ali desde sempre, acaba tendo um significado que transcende a situação.

Um significado que transcende. (Imagem: 1976 Productions)

Por isso, sentado para observar aquela formação, Henry não só fundamenta a simbologia daquilo tudo, mas retorna ao início do filme e à narração daquela que o fez, justamente, parar naquele local: "Sem a música, a minha vida teria sido incompleta, como se eu não tivesse amigos ou lembranças". A música – o piano especificamente – é quem possui as melhores memórias de quem tanto se doou para ser o que é. E chega um momento em que elas (as boas memórias) são o universo mais necessário para que a vida siga seu caminho.

Assim termina

Eu nunca saberia dizer se a vida seria um erro sem a música. Talvez Nietzsche tenha postulado essa afirmação como uma hipérbole do quanto a primeira de todas as artes está presente em nossas vidas. Hoje, minha vida musical está restrita às aulas que continuo lecionando, ao ofício de compositor e ao de ouvinte cotidiano. Mas foi a música que me voltou para o cinema, quando, há 14 anos, criei um blog para escrever, entre poemas e textos aleatórios, críticas musicais (ou algo parecido). Logo, aliado a um passado de muitos filmes (algo que comentei na crítica sobre O Poderoso Chefão), acabei me voltando para o cinema, passando a exercer a função de crítico da área em 2008.

No final das contas, é óbvio que nunca cheguei ao nível de Henry. Acredito que eu estava em um caminho parecido com o de Daniel (filho de Maya – interpretado por Drew Davis), admirando em êxtase quando conhecia os maiores. Cheguei a ter aula com Paul Rutman e Eric Huebner, já em uma fase que as dores eram companheiras que eu ocultava. O ano era 2003 e eu, com 18 anos, não sabia (ou não queria saber) que parar sem esquecer poderia ser o melhor caminho.

Henry em concerto. (Imagem: 1976 Productions)

Logo, Coda, enquanto filme, pode sumir de minha memória muito em breve. Na prática, nada da forma pensada por Lalonde consegue ter força para prolongar por muito tempo a minha experiência enquanto espectador. Mesmo assim, as palavras iniciais de Helen ficarão bem marcadas em mim: “Até já tentei ser uma pianista uma vez, até perceber a fragilidade que é tocar piano...”.

Acaba que a maior fragilidade é existir.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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