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Crítica Belfast | A inocência que sobrevive em tempos sombrios

Por| Editado por Jones Oliveira | 22 de Março de 2022 às 20h20

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Focus Features
Focus Features

Embora Belfast seja um filme muito específico, quase como um fragmento de memória do diretor e roteirista Kenneth Branagh sobre sua infância na capital da Irlanda do Norte no fim da década de 1960, há um componente tão universal nessa história que é realmente impossível não se encantar. Afinal, independentemente do local e da época, crianças são crianças — mesmo quando a dura realidade à sua volta tenta lhes roubar isso.

Para isso, o longa recria o conturbado ano de 1969, quando a capital Belfast foi convulsionada pelos conflitos entre católicos e protestantes e que forçou a saída de centenas de famílias do país e, de quebra, ajudou a mergulhar a mergulhar a economia em uma dura crise. E é no meio de todos esses problemas que acompanhamos Buddy (Jude Hill).

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O modo como esse garoto lida com todas essas questões que insistem em invadir o seu mundo infantil é o grande charme do filme. Afinal, para um menino de sete ou oito anos, pouco importa se o seu país faz parte ou não do Reino Unido ou de como está a situação socioeconômica da nação. Para uma criança, as urgências são outras. E é aí que a mensagem se torna universal.

Embora o recorte seja realmente muito específico dessa infância de Branagh, esse olhar da inocência é algo que não se resume apenas a quem cresceu na Irlanda do Norte nos meados do século 20. Temos crianças tentando ser crianças agora no Brasil, na Ucrânia, na Palestina, na Venezuela e em tantos outros cantos do planeta.

Belfast nos lembra que há pequenos Buddys preocupados com o primeiro amor da escola, com as notas de matemática ou aprontando na vendinha da esquina em qualquer lugar do mundo e em qualquer ponta da história, independente do que aconteça à sua volta. Por mais caótica que seja essa realidade — e que ela sempre insista em macular esse olhar leve e simples da vida —, a perspectiva infantil carrega uma simplicidade que a gente perde com os anos.

E é por isso que olhar para trás é sempre tão gostoso, mesmo que esse saudosismo nos faça esquecer do quão duros foram aqueles anos.

Duas perspectivas

Essa abordagem mais lúdica para um momento tão conturbado é o que faz de Belfast um filme muito gostoso de assistir. Embora estejamos falando de um momento da História bastante complexo e que parte desse peso seja muito bem recriado em tela — como a pequena vila que rapidamente se transforma em um campo de batalha, com barricadas e constante vigilância e a formação de milícias —, nada disso realmente importa para Buddy, que segue envolto na simplicidade da infância.

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Aqui é interessante destacar que esse olhar do protagonista não é necessariamente lúdico. Ao contrário de A Vida é Bela, em que a dureza da realidade era escondida pela beleza da fantasia, Belfast segue por um caminho mais comum e não menos interessante. Apesar da crescente tensão à sua volta, ele segue preocupado com coisas infantis, se encantando com as conversas com o avô e impressionado com as mensagens ditas na igreja.

É por isso que a mensagem funciona tão bem mesmo para quem nunca pisou na Irlanda do Norte ou que não faz ideia do contexto político e social do país no fim dos anos 1960. Assim como Buddy não dá a mínima para essas explicações, elas também são irrelevantes para o espectador. O que importa é o modo como essas situações refletem na vida do pequeno e, para isso, toda e qualquer justificativa se torna desnecessária.

Isso significa que você não precisa conhecer os movimentos separatistas irlandeses e como isso refletia no aspecto religioso da população, apenas compreender que há uma tensão entre católicos e protestantes — algo que o pequeno protagonista sente na pele ao se questionar se pode continuar gostando da menina na escola por ela ter uma religião diferente. E pouco importa o porquê de o país ter mergulhado em uma crise de desemprego, apenas que isso força Buddy e ter um pai ausente que precisa trabalhar na Inglaterra para mal conseguir pagar as contas enquanto a mãe segura a barra sozinha em casa.

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Belfast faz muito bem em levar ao espectador esse mesmo olhar infantil de que as consequências são muito mais importantes do que as causas, porque é esse sentimento que é universal. Mesmo distantes da realidade apresentada no filme, é muito fácil nos identificarmos com cada um desses dilemas porque, assim como o próprio Branagh, cada um de nós também teve que encarar em algum momento os reflexos da violência ou de uma crise.

Ao mesmo tempo, o longa trabalha o drama de quem tem que lidar de fato com essas questões. E a questão é que os pais de Buddy, vividos por Caitriona Balfe (Ford vs Ferrari) e Jamie Dornan (Cinquenta Tons de Cinza), não estão preocupados em fazer com que seus filhos não vejam toda essa dureza da vida, mas são envoltos em um outro dilema que o filme apresenta: o de abrir mão de sua história em prol de algo maior.

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Assim, em paralelo a esse olhar tão infantil e leve, temos toda a discussão sobre a necessidade de dar adeus às suas origens, abrir mão de um mundo que você conhece na esperança de algo melhor — mais uma vez, um discurso que nos é muito próximo aqui e agora.

Enquanto a criança está vendo essa convulsão social e econômica pelos olhos infantis e preocupado apenas como isso vai afetar seu trabalho de ciências ou sobre como o Papai Noel será mais magro neste ano, os pais se dividem sobre o próprio apego que eles têm com Belfast e aquele mundo que lhes é tão próximo e caro e a possibilidade de deixar a violência e a crise para trás.

Uma lembrança distante

Um ponto que chama a atenção em Belfast logo de início é sua fotografia. Ele é totalmente filmado em preto e branco, o que dá a ele uma estética diferenciada e que impressiona logo de início, principalmente ao usar esses tons de forma bastante chapada e limpa — bem diferente da sujeira que a gente esperaria de um momento tão conturbado.

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Isso dá ao filme uma aparência que fica entre o teatral e o onírico e que marca muito bem esse caráter de lembrança que toda a trama carrega. Embora não seja necessariamente um relato biográfico de Branagh, são as suas memórias que estão em cena e essa nossa tendência de idealizar o passado, por mais duro que ela tenha sido, é algo que fica evidente na fotografia adotada.

E é curioso notar como o diretor faz uso das cores nesse contexto. Em momentos muito pontuais, ele coloca tons que quebram o acinzentado da imagem — momentos esses que amarram o passado ao presente. Isso fica evidente quando Buddy vai ao cinema e se encanta com a história de um calhambeque voador, marcando o quanto a fantasia da Sétima Arte é algo que está presente na vida do diretor desde muito cedo.

Família real

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Um outro ponto de destaque são as atuações, que estão realmente muito boas. O pequeno Jude Hill entrega um Buddy que é realmente apaixonante em sua simplicidade e inocência. Sem se entregar às caras e bocas, ele imprime muito bem o que um garotinho pensa e sente em momentos tão delicados.

Balfe e Dornan também estão muito bem como esse casal que tenta equilibrar a criação dos filhos, a distância forçada pelo trabalho, os problemas financeiros e a violência que literalmente bate à sua porta. São personagens tão reais que a decisão de não nomeá-los é mais do que acertada: assim como muitos outros pontos em Belfast, eles poderiam ser os seus ou os meus pais.

O mesmo acontece com os avós de Buddy, excepcionalmente vividos por Judi Dench (007: Operação Skyfall) e Ciarán Hinds (Game of Thrones), que são terrivelmente familiares. Eles mimam, dão conselhos — alguns um tanto quanto errados — e brincam com o garoto de forma tão afetuosa que é impossível não se apaixonar por essa relação e, mais, não vê-los como os nossos próprios avós. Todo momento com o trio em tela é de aquecer o coração.

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Sem impacto

Só que, apesar de Belfast ser realmente um filme muito gostosinho de ser visto, ela não consegue deixar de lado aquela sensação de que ele é um filme feito para ganhar Oscar e brilhar em premiações. E não apenas porque ele é bom e acerta em muitos aspectos, mas por seguir fielmente a cartilha que a Academia adora.

Pode soar um pouco injusto apontar isso para uma história que carrega uma dose afetiva tão grande para um cineasta, mas toda a fotografia em preto e branco, a estética teatral e o próprio fato de a trama ser quase uma carta de amor a uma Belfast que só existe nas memórias são pontos que estão presentes na cartela de bingo que quase todo ganhador do Oscar carrega.

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Embora não dê para dizer que essa montagem tenha sido propositalmente para arrancar elogios e levar algumas estatuetas para casa, a falta de impacto do filme acentua essa impressão. Isso porque, apesar de todo o coração que Belfast carrega, falta impacto na história que está sendo contada e em seu próprio roteiro.

A ideia de trazer esse olhar infantil e inocente para eventos pesados funciona até a página dois, uma vez que a simplicidade na perspectiva do garoto faz com que alguns eventos não tenham o peso devido. As ameaças à família, a perda de alguém importante e até a decisão de deixar Belfast são episódios que são apresentados quase que de forma corriqueira e sem a carga que deveriam trazer para a história.

E por mais que a abordagem faça sentido à proposta apresentada, isso acaba afetando a narrativa geral do longa. São pontos de virada para os personagens e que deveriam também impactar o público, mas que não conseguem chegar lá. Assim, a impressão que fica é que temos um filme que se desenrola de forma quase monótona — e realça essa impressão de que ele foi feito sob medida para premiações.

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É claro que isso não faz de Belfast um filme ruim e sem alma. Pelo contrário, ele tem muito coração, mas isso tem um preço e quem procura uma estrutura de roteiro um pouco mais convencional pode sair decepcionado. Apesar da mensagem e das situações universais, o desenvolvimento de tudo acaba sendo bem mais nichado.

Ainda assim, é uma história que merece ser conferida justamente por esse caráter nostálgico que carrega. Mesmo com Kenneth Branagh declarando seu amor a essa Belfast da sua infância, todos nós temos essa cidade em preto e branco em nossas memórias, esse local em que a nostalgia e a inocência nos impedem sermos atingidos pela dureza da realidade que encarávamos na época. Em certa medida, todos nós já fomos um pouco de Buddy antes.