Crítica | Amulet acerta em cheio ao criar uma nova mitologia dentro do terror

Por Laísa Trojaike | 07 de Agosto de 2020 às 23h00
Magnet

Com gosto de clássico, Amulet é um belíssimo terror para fãs do gênero, mas pode ser decepcionante para quem busca por medos exacerbados e sustos constantes. A cineasta estreante Romola Garai, que tem uma extensa carreira como atriz, parece ter tido liberdade suficiente para explorar sua autoralidade tanto como roteirista quanto como diretora, o que nos proporcionou um tipo de terror que é pouco revisitado pelos realizadores contemporâneos.

O terror, aqui, é um suspense crescente que deságua em um gore dramático e sensível, e, por fim, em uma fantasia. Todo esse processo é muito bem encadeado e imprevisível, já que o espectador é conduzido por uma via que o engana quase no mesmo ritmo em que o protagonista é também enganado. Ao falarmos de terror fantástico é difícil não pensar em H.P. Lovecraft e há algo de lovecraftiano em Amulet, sobretudo no objeto que dá nome ao filme: um amuleto que tem a forma de uma criatura ancestral bizarra e misteriosa.

Imagem: Magnet

Atenção! A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.

Evidências

Conhecemos Tomas (Alec Secareanu) trabalhando sozinho no meio de uma floresta e, em seguida, o descobrimos vivendo em situação de rua, não demorando para que desenvolvamos empatia por ele. Na floresta, o enquadramento faz questão de mostrar como Tomas é pequeno diante da natureza, em contraste com a altura dos pinheiros (o que será muito mais significativo ao final). O personagem também aparece enquadrado com headroom acentuado, aumentando a sensação de isolamento e solidão de Tomas, o que contribui ainda mais para que desenvolvamos uma certa estima por ele.

Tomas metaforicamente diminuído (Imagem: Magnet)
O tal do "headroom acentuado" é esse espaço maior acima da cabeça do personagem (Imagem: Magnet)

Garai, no entanto, trabalha muito o roteiro no sentido do que o nosso ditado popular “quem vê cara, não vê coração” diz. É sem pressa que gradualmente nos é revelado que Tomas não é exatamente uma pessoa pura como aparentava e que sua relação com a filosofia foi incapaz de o fazer mais ético (ou talvez ele tentava recuperar sua moralidade através da leitura de, por exemplo, Hannah Arendt, que fala justamente sobre a banalidade do mal e as consequências da guerra).

Amulet também nos confunde ao inserir pistas que conduzem o espectador a mitologias já conhecidas, criando, no final, um universo próprio. O amuleto lovecraftiano do início do filme só retorna no desfecho. Durante o desenvolvimento da trama, a inserção de uma figura religiosa indica possessão demoníaca. A direção de arte indica que talvez a própria casa seja amaldiçoada. Outros detalhes se somam como em um filme de vampiro: a criatura que está no último andar faz mais barulhos à noite e não suporta luz, Magda tem a marca de uma mordida no braço e, enfim, surge um morcego sem pelos no sanitário. Mas nenhuma dessas teorias estão certas. Será um filme de bruxa? Talvez.

Já que se trata de um protagonista filósofo, não é demais imaginar que o fato de Tomas encontrar a criatura dentro do sanitário seja uma referência à teoria de Slavoj Žižek, segundo o qual o vaso sanitário simboliza o desejo do personagem de se livrar de um segredo, apoiado na ilusão de que, assim como os excrementos, o segredo desapareceria. Assim como os excrementos vão para a rede de esgotos ao invés de sumirem magicamente, também não somem os segredos, que vêm a tona na metáfora do vaso sanitário entupido e que, eventualmente, transborda.

Imagem: Magnet

Potência

Garai cria um terror que se desenvolve em grande parte a partir do suspense, sustentado pela nossa ignorância acerca da terceira pessoa que habita a casa. Quando o segredo é revelado, o impacto visual talvez não atinja o espectador contemporâneo, já que a maquiagem é um misto de referências ao clássico e ao gore, que evolui para um excelente body horror quando somos expostos à imagem de um homem tendo que dar à luz ao morcego demoníaco.

É lindo como, aos poucos, a paleta de marrons abre espaço para uma fotografia mais criativa, com luzes verdes inundando o espaço sem a necessidade de uma justificativa, o que lembra muito os giallos, subgênero do horror italiano. Quando isso acontece, o filme ganha outra camada e é possível notar que a estrutura de Amulet é muito semelhante à de Suspiria, de Dario Argento, um dos maiores expoentes do giallo. Com isso, talvez Amulet realmente se assuma como pertencente ao subgênero focado em bruxas.

Paleta de cores de um dos momentos de Amulet (Imagem: Magnet | Montagem: Laísa Trojaike / Canaltech)
A iluminação dessa sequência é bastante semelhante a dos filmes de Dario Argento (Imagem: Magnet)

Essa semelhança não deve ser compreendida como cópia. Longe de ser um plágio do estilo, Amulet é um resgate do horror clássico transmutado em uma linguagem muito contemporânea. Ainda além, Garai arriscou a criação de uma mitologia própria, com uma personagem com potência para uma franquia ao nível de Hellraiser e com seus próprios ícones: a entidade, o amuleto e a concha (que aparece em seus diversos formatos ao longo do filme).

É uma pena, no entanto, que talvez o espectador contemporâneo não esteja muito aberto a esse tipo de novidade que faz uma grande reverência a clássicos conhecidos muito mais pelos entusiastas do gênero. Além disso, o espectador de hoje está muito mais condicionado a filmes de terror paranormal que prometam pesadelos por uma semana. Amulet, infelizmente, também não é autoral o suficiente para entrar no hall de filmes como os produzidos por Ari Aster ou Robert Eggers. Amulet provavelmente é uma pérola que vai passar despercebida e muito dificilmente ganhará o reconhecimento merecido.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

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