Desafios do século 21 – A educação no formato atual não serve mais?

Por Fernando D´Angelo | 07 de Abril de 2021 às 11h00

“Enquanto o mundo está cada vez mais dinâmico, a escola continua formando os alunos para o mundo estático do século 20! É necessária uma Revolução na educação atual! E para isso, podemos buscar inspiração no passado...”

Já faz algum tempo que ando inconformado com a educação neste início de século 21. Cerca de dois anos atrás, escrevi um artigo onde expus meus pensamentos a respeito, e desde então venho dando atenção para este setor. Criei então uma hipótese que demonstra de forma mais clara os problemas da educação para o momento atual.

Na verdade, penso que a educação do século 16 na península ibérica era mais adequada ao século 21 do que a educação atual. Cheguei a essa conclusão quando fui estudar como Portugal e Espanha conseguiram se tornar líderes no desbravamento do Novo Mundo (as Américas), e em como dois países pequenos e isolados na península ibérica, sem poder de fogo para batalhar com as grandes civilizações do século 15 (República da Veneza, Império Bizantino, Gênova, Londres, Paris...) que os cercavam, se tornaram uma grande potência naval.

Tive então uma conversa muito interessante com o Geógrafo e estudioso de história Rafael D’Angelo (vulgo meu irmão), onde encontrei inspiração e explicação para esses e outros questionamentos.

Em resumo, enquanto as cidades da Europa se viam reféns de Veneza e dos Turco-Otomanos, que dominavam e exploravam o comércio entre Europa e o Oriente através da região de Istambu (que fica entre a Europa e a Ásia, na época tida como Oriente), Portugal e Espanha optaram por buscar alternativas para chegarem ao Oriente e terem acesso às tão valiosas especiarias.

Imagem: Captura de tela / Valencia Pena (YouTube)

E no final do século 15 uma grande mudança começou a acontecer no cenário Geopolítico do Velho Mundo. Em 1498 os portugueses chegaram ao Oriente contornando a África, e na sequência Colombo chegou à América Central e Cabral chegou ao Brasil. Com isso, além do caminho aberto para a comercialização de especiarias, começara então uma grande exploração e colonização das Américas e da África. E a partir daí, Portugal e Espanha saíram do papel de coadjuvantes e passaram a protagonistas da História pelos próximos 2 séculos.

O que me instiga é: como Portugal e Espanha, dois países sem muita representatividade no cenário Europeu, conquistaram os oceanos antes dos demais? Como Portugal e Espanha se aventuraram por lugares onde nenhum outro povo Europeu ousou ir? Poderia a educação ter sido um fator decisivo nessa empreitada?

A resposta está nos Mouros! Os Mouros eram um povo que vivia no noroeste da África e expandiram suas conquistas através do Mar Mediterrâneo, dominando a região litorânea de Portugal e Espanha durante 800 anos. Eles representavam a vanguarda científica do planeta naquela época, e deixaram uma vasta trilha de conhecimento científico na região (ciências, astronomia, medicina, engenharia naval, etc).

Não tenho dúvidas de que a grande diferença entre os portugueses e espanhóis com relação ao restante da Europa esteja relacionado a essa herança cultural e intelectual dos Mouros, mas, além disso, Portugal e Espanha encararam os desafios, dificuldades e oportunidades que estavam aparecendo enquanto outras possíveis potências marítimas como Gênova, Inglaterra, França, Holanda e tantos outros permaneceram inertes ou focadas em seus objetivos míopes definidos séculos atrás por seus antecessores.

Ok! Mas afinal, qual a relação entre o Século 21 e o Século 16?

Zygmunt Bauman, filósofo que cunhou o termo “Modernidade Líquida”, dizia: “Escolhi chamar de modernidade líquida a crescente convicção de que a mudança é a única coisa permanente e a incerteza, a única certeza”. Com base nessa afirmação, podemos então traçar diversos paralelos entre o século 21 e o século 16:

Zygmunt Bauman (Imagem: Reprodução / Wikipedia Commons)
  1. Assim como o século 21 está iniciando uma era de transformações, o século 16 também foi uma época de transformações radicais.
  2. Em pleno século 21 as grandes potências do século passado (grandes empresas, em sua maioria) estão sucumbindo à medida que esse mundo fica cada vez menos sólido. O mesmo ocorreu com as grandes potências do século 15 durante o século 16.
  3. Estão se sobressaindo neste novo mundo empresas e pessoas capazes de navegar nesse mar de incertezas, como fizeram Portugal e Espanha nos séculos 15 e 16, ao buscarem outras formas de chegarem ao Oriente.
  4. As Startups estão reinventando as relações de trabalho, a forma de desenvolver produtos, os processos produtivos, os valores e crenças e a forma como vivemos, entre outros. E as empresas tradicionais não conseguem acompanhar essas mudanças pois estão presas em velhos conceitos que até alguns anos atrás eram o segredo do sucesso. O mesmo aconteceu com Veneza, Gênova, Florença e Istambu no passado. Já Inglaterra, França e Holanda perceberam o momento de mudança e se reinventaram, copiando e depois desenvolvendo frotas navais tão ou mais eficientes que as frotas portuguesas e espanholas.

Mas afinal, onde entra a educação em tudo isso?

Enquanto os portugueses e espanhóis beberam da sabedoria dos Mouros e escolheram aproveitar e evoluir esses conhecimentos através de suas expedições, os outros povos da Europa escolheram se prender ao antigo e antiquado conhecimento construído séculos atrás, como se o mundo tivesse uma verdade estática e finita.

Pensando em século 21, estamos passando por uma fase exatamente igual à época das Grandes Navegações, onde sobreviverão os povos e empresas que beberem da “sabedoria dos Mouros”, se alucinarem e aceitarem a oportunidade de navegar por mares desconhecidos.

Fazendo uma análise mais ampla, Portugal e Espanha estavam dispostos a correr riscos, tiveram resiliência frente aos erros e fracassos, aproveitaram e evoluíram os conhecimentos que lhes foram passados pelos Mouros e se lançaram no mar rumo ao desconhecido, rumo ao incerto, rumo a novos saberes. O resultado? Portugal e Espanha viraram o jogo e passaram a dominar uma nova era, com novas regras e novas realidades onde os antigos hábitos, comportamentos, crenças e valores não faziam mais sentido.

E enquanto Portugal e Espanha estavam na vanguarda devido à capacidade de “navegar” em um mundo mais líquido, as potências europeias do século 15 sucumbiram por se manterem presas a seus antigos paradigmas.

Imagem: Reprodução/Taylor Wilcox (Unsplash)

Na minha visão, a Escola atual forma os alunos de hoje para o mundo vivido no século 20, um mundo mais sólido do que líquido, e se preocupa em transmitir e perpetuar conhecimentos adquiridos há gerações sem preparar os alunos para o Novo Mundo, que é mais líquido, dinâmico, incerto, complexo.

As ferramentas que aprendemos na Escola, a forma como aprendemos, os conhecimentos que nos são passados e os comportamentos que nos são exigidos não fazem sentido em nossa modernidade líquida. Precisamos construir novas ferramentas, novos paradigmas. E como diz o educador Rubem Alves: “o uso de ferramentas já existentes pode ser ensinado, mas para construirmos ferramentas novas, há de se saber pensar”.

Esse é o papel da Escola do século 21! É hora de revolucionar a educação para que possamos formar pessoas capazes de lidar com as Incertezas deste Novo Mundo.

Como vamos fazer isso? Talvez o caminho possa ser encontrado nas palavras de Edgar Morin:

“A humanidade é uma aventura de 7 milhões de anos... e a educação é o modo como nós levamos o conhecimento adquirido às novas gerações... mas para que haja evolução é necessário um equilíbrio entre a perpetuação e a renovação do conhecimento” – Edgar Morin, filósofo contemporâneo criador da teoria do Pensamento Complexo.

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