Robôs teriam aumentado taxa de lesões de funcionários nos armazéns da Amazon

Por Rui Maciel | 01 de Outubro de 2020 às 07h45
Divulgação / Amazon
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Uma matéria feita pelo Reveal, site especializado em reportagens investigativas, sobre as condições de trabalho nos armazéns da Amazon, traz um dado interessante: as unidades que contam com a participação de robôs na coleta de produtos podem apresentar taxas de lesões maiores entre os funcionários do que aquelas que contam com as coletas majoritariamente manuais.

Um dos focos da matéria do Reveal é um armazém localizado na cidade de DuPont, no estado de Washigton, e que fica a pouco mais de 80km da sede da gigante do e-commerce, localizada em Seattle. Desde a inauguração da unidade em 2014, os funcionários do local viram cotas de produção ficarem cada vez mais altas.

Essas metas mudaram drasticamente quando os robôs chegaram à Amazon. Os supervisores prometeram que poupariam trabalhadores do cansaço de caminhar quilômetros por dia para encontrar os pedidos dos clientes. Tudo o que eles teriam que fazer seria se posicionar e pegar as coisas. No entanto, com o passar do tempo, muitos deles preferiam voltar a antiga função. Isso porque eles ficavam isolados em uma estação de trabalho e, 10 horas por dia, ficam realizando movimentos repetitivos que se provaram ser muito mais difíceis para seu corpo, aumentando os riscos de lesões.

Os robôs implantados eram muito eficientes. Eles podiam trazer itens tão rapidamente que as expectativas de produtividade dos trabalhadores mais do que dobraram, de acordo com um ex-gerente de operações sênior ouvido pelo site e que viu a transformação. E a exigência continuou subindo. No tipo mais comum de armazém da Amazon, os trabalhadores (chamados de selecionadores) - que antes tinham que pegar e escanear cerca de 100 itens por hora - deveriam atingir taxas de até 400 por hora em centros de distribuição que contam com robôs.

Os gerentes monitorariam as atividades de perto, a partir de um sistema de computador que rastreia quantos itens um funcionário verifica a cada hora e registra aqueles que não atingiram as metas. Os trabalhadores que ficaram para trás podem ser demitidos.

Sistemas robóticos em um armazém da Amazon: eles teriam aumentado a pressão sobre os funcionários da empresa (Fotos: Divulgação / Amazon)

De acordo com Kathleen Fagan, uma médica que inspecionou os armazéns da Amazon na qualidade de médica da Administração Federal de Segurança e Saúde Ocupacional (OSHA, na sigla em inglês), estudos mostraram que as taxas de produção têm um impacto direto sobre os ferimentos:

“Se você tiver robôs que movem o produto com mais rapidez e os trabalhadores precisarem levantar ou mover esses produtos também com mais rapidez, logo, haverá mais lesões”, disse ela. "Fazer o mesmo movimento repetidamente, rapidamente e sem pausa, não permite que os músculos descansem. O aumento do estresse físico e mental leva à distração e exaustão, o que também aumenta as lesões, mostram os estudos".

Um ex-gerente sênior de segurança da Amazon - que preferiu se manter anônimo - disse que um ou dois anos após a introdução dos robôs, as consequências indesejadas se tornaram claras para a equipe de segurança do trabalho da Amazon:

“Subestimamos enormemente os efeitos que isso teria sobre nossos associados. Percebemos desde o início que havia um problema. Foi só - você já está se movendo dessa maneira na velocidade da luz, então como você dá um passo para trás e se reajusta? ”

A OSHA recomendou medidas - como uma pausa extra para descanso e rotação de funcionários para diferentes funções ao longo do dia - algo que a Amazon ainda precisa implementar em sua rede de armazéns, segundo o Reveal. E os dados da gigante do e-commerce mostram que, no final de 2016, seus armazéns dotados com robôs tinham taxas de acidentes significativamente maiores do que suas instalações tradicionais.

Aumento no número de lesões

A reportagem do Reveal baseia-se em um cache de dados internos da empresa, que mostra que as taxas de lesões em armazéns da Amazon têm aumentado constantemente desde 2016. Os documentos obtidos pelo site indicam que que o departamento que cuida da proteção dos funcionários da Amazon analisou de perto as taxas de acidentes no depósito da DuPont e que os trabalhadores disseram à gerência que sentiam que a segurança era um problema, porque estavam sendo obrigados a trabalhar rápido demais.

Embora várias iniciativas de segurança tenham sido apresentadas, nenhuma delas envolveu a redução do número de itens que os trabalhadores deveriam processar por hora. De acordo com os dados obtidos pelo Reveal, a unidade de DuPont teve a pior taxa de acidentes entre todos os 150 armazéns da Amazon nos EUA em 2019. Por lá, teriam sido registrados 22 acidentes graves para cada 100 trabalhadores. Esse índice é cinco vezes maior do que a média do setor.

Índice de lesões da Amazon mostra-se maior do que a média da indústria (Foto: Soo Oh / Reveal)

Em um comunicado ao Business Insider, uma porta-voz da Amazon disse que a interpretação dos dados feito pelo Reveal foi distorcida e que não há um padrão industrial que possa ser aplicado à forma como a Amazon mede o tempo de uma lesão grave.

Quando questionada especificamente sobre as festas de pizza, a porta-voz da Amazon não confirmou se esta era uma política mais ampla da empresa, mas disse:

"Ao longo do ano, nossos líderes hospedam uma variedade de eventos de engajamento de funcionários e oportunidades para funcionários locais, todos promovendo uma cultura de segurança. Na Amazon, estamos focados em melhorar a segurança de nosso local de trabalho. E procuramos fazer relatórios precisos em todos os locais [registrando] todos os tipos de incidentes, o que significa registrar todas as lesões ou doenças que atendem ou provavelmente atendem aos critérios da Administração de Segurança e Saúde Ocupacional para manutenção de registros, e garantindo que aprendamos com esses incidentes e melhoremos a cada dia. "

Festa da pizza

A reportagem do Reveal - e repercutida pelo site Business Insider - afirma ainda que gerentes de armazéns da Amazon recompensavam os trabalhadores destes locais com pizza grátis quando eram registrados longos períodos sem acidentes.

O Reveal citou o depoimento de Austin Wendt, funcionário da Amazon, que começou a trabalhar em uma clínica de primeiros socorros do armazém de DuPont. De acordo com o colaborador, festas de pizza eram oferecidas como recompensa por sequências de dias sem lesões. Para ele, isso, essencialmente, significava que os gerentes estavam "oferecendo recompensas por não relatar lesões".

Wendt afirmou ao Reveal que alguns funcionários do armazém lutaram contra ferimentos dolorosos, para não prejudicar as pizzas grátis de seus colegas de trabalho. Ele deixou a Amazon no início de 2019.

Pandemia aumentou a pressão por melhores condições

Com a pandemia do coronavírus forçando o distanciamento social e com boa parte das pessoas ficando mais em casa, os números da Amazon apresentaram um crescimento significativo, já que muitos estão usando o e-commerce para realizar suas compras. E isso jogou luz sobre as condições de trabalho dos funcionários que atuam nos armazéns da empresa, já que a demanda sobre eles também aumentou exponencialmente - incluindo o risco de contágio pela COVID-19.

Trabalhadores da companhia, sindicatos e autoridades eleitas disseram que a empresa colocou em risco a saúde dos colaboradores, ao manter quase todos os seus armazéns operacionais durante a pandemia. Pelo menos 800 deles, nos EUA, deram positivo para a COVID-19.

Inclusive, em junho último, três funcionários da Amazon que trabalham em um de seus armazéns em Nova York abriram um processo contra a empresa, alegando que ela colocou eles e suas famílias em risco de contaminação da COVID-19. Uma das envolvidas na ação, Barbara Chandler, afirma que contraiu o vírus em março deste ano no armazém da companhia, em Staten Island e que sua prima, que morava com ela, morreu depois de apresentar os sintomas do coronavírus.

Ainda de acordo com Chandler, os funcionários “foram explícita ou implicitamente encorajados a continuar participando do trabalho e impedidos de lavar adequadamente as mãos ou higienizar suas estações de trabalho", afirma o processo. A sugestão de que as condições de trabalho nas instalações contribuíram para uma morte específica de terceiros distingue a ação judicial em questão, de outras queixas relacionadas ao coronavírus movidas contra a Amazon nos últimos meses.

O processo indica ainda que os demandantes, que acusam a Amazon de violar as leis de incômodo público e de segurança dos funcionários e que eles forneceram informações erradas aos trabalhadores, estabelecendo cotas e políticas disciplinares "opressivas e perigosas", não estão buscando indenização por doença ou morte.

Medidas

Segundo a Amazon, mais de 150 processos foram atualizados para proteger os funcionários, e a empresa gastou mais de US$ 800 milhões no primeiro semestre de 2020 em medidas de segurança contra a COVID-19. Os trabalhadores diagnosticados com o vírus também estão recebendo uma folga adicional remunerada.

Entre as medidas adotadas pela empresa para combater a propagação do coronavírus em suas instalações, estão a utilização de câmeras térmicas em seus armazéns, para fazer a triagem de trabalhadores que apresentem quadros de febre. A companhia também construiu laboratórios capazes de testar seus colaboradores para checar se eles estão contaminados com o coronavírus. A Amazon ainda aumentou a limpeza, adicionou medidas de distanciamento social e ofereceu máscaras faciais.

Para além da ações de saúda da gigante do e-commerce, o fato é que o crescimento dos negócios da Amazon fez ainda com que a empresa tenha oferecido empregos permanentes para cerca de 70% da força de trabalho temporária que atua nos EUA. O objetivo é atender a demanda do consumidor, que aumentou consideravelmente durante a pandemia. A empresa disse que tinha 840,4 mil funcionários em período integral e parcial no final do segundo trimestre, enquanto ainda estava em processo de contratação.

A partir de junho último, a empresa começou a informar 125 mil funcionários que trabalham em seus centros de distribuição, de que eles poderão ser contratados a longo prazo. Outros 50 mil trabalhadores restantes que estão sob o regime temporário terão contratos sazonais que durarão 11 meses, segundo um representante da companhia.

A empresa não divulgou quanto gastará para transformar as posições temporárias em permanentes e se esse custo seria adicional aos US $ 4 bilhões previstos para despesas relacionadas ao coronavírus. Mas o fato é que as funções permanentes trazem benefícios que os trabalhadores sazonais mais precisam, como planos de saúde e planos de aposentadoria, ambos oferecidos pela Amazon.

Com informações do Business Insider

Fonte: Reveal

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