Uma análise sobre a propagação do ódio pela internet e suas consequências

Por Patrícia Gnipper | 05 de Setembro de 2017 às 08h24

A internet, em especial com as redes sociais, proporciona a aproximação entre as pessoas em todo o mundo. Temos à nossa disposição várias plataformas que permitem uma comunicação rápida e efetiva, como e-mails e mensageiros, além de apps específicos para conhecer novos amigos e parceiros amorosos. No entanto, esses serviços são constantemente usados como um canal (por vezes anônimo) de propagação da violência.

Mas o que faz pessoas comuns, que talvez não se comportem assim na vida offline, adotarem uma postura agressiva no mundo virtual, atacando os demais por motivos, muitas vezes, banais? Para Orkut Büyükkökten, criador da finada rede social que levava o seu nome, “a internet transformou a humanidade de muitas maneiras, deixou muitas coisas mais fáceis e eficientes, mas estamos mais sozinhos e desconectados do que nunca”.

Ele acredita, ainda, que um dos motivos que explicam esse campo de batalha nas redes sociais é a cultura do narcisismo, pois estamos “cercados de espelhos, que refletem não verdadeiramente como nos sentimos, mas o que queremos que o mundo veja em nós”. E tudo isso foi potencializado com a chegada do Facebook e Instagram, nos anos mais recentes.

Os usuários não estão dispostos a repensar opiniões

Observando esse bizarro fenômeno em que, em vez de as pessoas se tornarem mais abertas a novas ideias com o advento do Facebook, estão se tornando mais conservadoras e combativas, alguns estudos já foram conduzidos por pesquisadores a fim de descobrir o que está acontecendo.

Um deles foi publicado na revista PNAS (“Proceedings of the National Academy of Science”), mostrando que os usuários estão somente buscando visões que reforcem suas opiniões, em vez de justamente aproveitar a diversidade que as redes sociais oferecem para rever conceitos e preconceitos.

A pesquisa examinou dados sobre temas polêmicos que foram debatidos no Facebook entre 2010 e 2014 e, apesar de ser possível descobrir uma enorme quantidade de informações com poucos cliques, o estudo descobriu que os usuários tendem a se unir em comunidades de seu interesse, deixando todo o resto de lado. Esse fenômeno vem sendo chamado de “echo chamber” (ou “câmara de eco”, em tradução livre), em que uma rede de pessoas com ideias compatíveis se une para compartilhar notícias seletivas, reforçando as suas visões.

Voltando à opinião de Orkut Büyükkökten a esse respeito, ele acredita que as redes sociais da atualidade dão uma brecha para o avanço de extremismos, já que “o extremismo sempre esteve por perto, mas agora é mais fácil ficar exposto a isso”. Afinal, a internet ressalta o melhor e o pior das pessoas, e, nas redes sociais, a liberdade de expressão e a facilidade de se compartilhar conteúdos são grandes atrativos.

Vida offline X vida online

Enquanto na “vida real”, vivida fora da tela do computador ou do smartphone, as pessoas se seguram para não expressar opiniões preconceituosas e agressivas, com medo das consequências, esses comportamentos são liberados na vida virtual. Orkut acredita que “as mídias sociais deixaram o bullying mais fácil, porque é mais simples intimidar alguém e não ter consequências”. Além disso, “as pessoas podem criar perfis falsos ou se tornarem anônimas” para atacar umas às outras sem medo de represálias.

Mas as coisas estão começando a mudar. Recentemente, o Ministério Público do Reino Unido determinou que crimes de ódio que acontecerem no ambiente virtual serão julgados com os mesmos critérios e rigor dos crimes do “mundo real”, o que inclui racismo, sexismo, xenofobia e homofobia. A medida visa não somente punir os usuários, mas também coibir o crescimento desse tipo de crime no mundo online.

O que a psicologia e a psiquiatria dizem a respeito

Em 1921, Freud escreveu uma obra-prima da psicologia: Psicologia das Massas e Análise do Eu. No livro, ele explica que a mentalidade das pessoas muda quando elas se veem fazendo parte de um grupo, em especial um grupo no qual há uma busca por aceitação. Sendo assim, quando em massa, o sujeito não responde mais a determinadas situações da mesma maneira como ele faria individualmente. De acordo com o psiquiatra Luiz Sperry, “é como se sua capacidade racional estivesse parcialmente anestesiada, e as emoções afloradas”.

O especialista compara o comportamento de massas no Facebook com uma torcida de futebol. “Assim como numa torcida organizada, vamos formando grupos com pessoas que têm alguma coisa a ver com a gente. Esses bandos virtuais ficam de certa forma latentes até que as emoções começam a fluir e, de forma contagiante, viralizam”, explica o psiquiatra. Além disso, segundo Freud, os movimentos de massa produzem uma espécie de hipnose nos sujeitos, hipnose essa que tem como pressuposto a substituição do superego (instância moral que controla os impulsos do indivíduo) pela figura do hipnotizador.

Para Michel Petrella, estagiário do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), em São Paulo, e psicólogo em formação de orientação psicanalítica, “nas redes sociais, todos esses fenômenos tomam uma magnitude gigantesca”. Ele entende que “os sujeitos cometem atrocidades em total esquecimento de si mesmos e dos valores éticos, como o respeito mínimo aos direitos humanos”. Petrella ressalta o “Efeito Lúcifer”, do psicólogo social estadunidense Philip Zimbardo. “Alguns tipos de transtornos de personalidade ou transtornos parafílicos podem gerar uma espécie de circuito de prazer compulsivo, onde o sujeito utiliza as redes sociais como forma de descarga de energia, ou, ainda, uma forma de realizar fantasias perversas, que não teriam coragem de realizar no mundo real”, explica.

Capa de "O Efeito Lúcifer", do psicólogo social Philip Zimbardo

No livro Efeito Lúcifer, Zimbardo retrata um experimento conduzido em uma prisão nos Estados Unidos, em que o efeito transformou a potência humana de criação em uma potência destrutiva, e homens considerados “de bem” podem se tornar verdadeiros monstros, desde que o ambiente assim o favoreça. Para o psicólogo, “para que ocorra uma desindividuação, um distanciamento do próprio self em detrimento de uma ideologia, o sujeito precisa estar em anonimato. Um sujeito anônimo tem a falsa impressão de invisibilidade e pode se sentir seguro, motivado e onipotente”.

Mas Petrella reforça que “é importante separar as consequências do movimento de massa das pessoas que realmente possuem transtornos de personalidade ou parafílicos para que não haja uma total patologização do ódio na internet”. Afinal, tratar todas as pessoas que disseminam discursos de ódio nas redes sociais como doentes seria um equívoco.

Zimbardo explica melhor o “Efeito Lúcifer” nesta palestra realizada em uma conferência TED:

As consequências legais do discurso de ódio

Conversamos com Gisele Truzzi, advogada especialista em Direito Digital e proprietária do Truzzi Advogados, para entender melhor as consequências legais da disseminação de discursos de ódio. Ela explica que as atitudes consideradas como crime de ódio no mundo virtual são os mesmos do mundo offline, aqui no Brasil, sendo que, nas redes sociais, os mais comuns são o preconceito racial, injúria por preconceito e o preconceito religioso, além de ameaças e difamação.

Para o preconceito racial, por exemplo, a pena é de reclusão de um a três anos e multa, enquanto a injúria por preconceito é penalizada com uma detenção de um a seis meses, ou multa. Mas não é somente o agressor que arca com as consequências caso a vítima tenha decidido acionar a justiça: os provedores de internet também podem ser penalizados, mas somente caso, após ordem judicial específica, não tomem as providências para tornar indisponível aquele conteúdo apontado como infringente.

O que fazer caso seja alvo de um discurso de ódio

Truzzi diz que uma vítima de discurso de ódio proferido pela internet pode provar sua acusação na Justiça com prints contendo o conteúdo ofensivo, mas “é importante que os prints sejam efetuados englobando-se todo o conteúdo ofensivo publicado, aparecendo a data de postagem e link respectivo”, sendo que “o ideal seria elencar todos os prints em um único documento, com respectivos links originais e data de publicação”. Já se as capturas de tela forem referentes a mensagens trocadas em chats coletivos, “é importante também tirar prints da lista de integrantes do grupo e dos contatos daqueles que fizeram as publicações ofensivas”, reforça a especialista.

No entanto, para esses casos, o mais recomendado é usar uma ata notarial. “A ata notarial é uma espécie de certidão elaborada por um Tabelião (Cartório de Notas), que, por ter fé pública, atribui 100% de validade jurídica a este documento. Ou seja: em um processo judicial, nem o juiz, nem a outra parte poderão contestar a ata notarial apresentada. Já um print de tela poderá ser contestado, pois é um arquivo de imagem que eventualmente pode ser manipulado”, explica a advogada.

Por fim, a advogada também recomenda que as vítimas não respondam às mensagens ofensivas recebidas, por mais difícil que seja conseguir se segurar na hora do "sangue quente". Também é importante não excluir aquele conteúdo, mantendo as mensagens e e-mails originais que serão a prova essencial para o caso, mesmo que haja prints desse conteúdo. Então, “de posse do conteúdo probatório impresso e armazenado em mídia eletrônica, dirija-se à Delegacia de Polícia mais próxima para registrar um Boletim de Ocorrência. Explique o ocorrido ao escrivão de polícia, entregue os impressos e solicite que ele salve uma cópia dos arquivos eletrônicos”, completa.

Você pode conferir mais informações sobre o crime praticado na internet e suas consequências legais no seguinte vídeo publicado pela advogada em seu YouTube:

Com informações de UOL e Blog do Luiz Sperry 

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